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Valen Brasil
Arquitetura

Uma linguagem de padrões, de Christopher Alexander: resenha

Editora Valen •
Retrato de Christopher Alexander, de óculos e camisa azul, sob uma estrutura de arcos de madeira clara
O arquiteto e teórico Christopher Alexander (1936–2022), principal autor de Uma linguagem de padrões.

Resenha do livro de Christopher Alexander e colaboradores: quem foi o autor, como os 253 padrões se organizam em rede, o que é um padrão, a influência no software e a relação com a participação na lei urbana brasileira.

Uma linguagem de padrões é o livro em que o arquiteto Christopher Alexander e colaboradores propõem 253 soluções de projeto, chamadas padrões, que vão da escala da região à do detalhe de uma janela e podem ser combinadas como palavras de uma língua. Publicado em 1977 pela Oxford University Press com o título A Pattern Language, foi escrito por Alexander, Sara Ishikawa e Murray Silverstein, com Max Jacobson, Ingrid Fiksdahl-King e Shlomo Angel. A edição brasileira, publicada pela Bookman em 2013, tem tradução de Alexandre Salvaterra e 1.215 páginas. Esta resenha apresenta o autor, a estrutura do livro, a ideia de padrão, a relação com a legislação urbana brasileira e um projeto em que o método foi aplicado.

Pontos principais

  • O livro reúne 253 padrões, organizados das escalas maiores (regiões e cidades) às menores (edifícios, cômodos, detalhes construtivos).
  • Cada padrão descreve um problema recorrente do ambiente construído e o núcleo de uma solução, que pode ser adaptada a cada caso.
  • Os padrões se referem uns aos outros, formando uma rede: por isso os autores falam em “linguagem”.
  • A proposta é que moradores e usuários, e não só arquitetos, possam usar os padrões para projetar e melhorar seus lugares.
  • A ideia de linguagem de padrões foi adotada fora da arquitetura, em especial no desenvolvimento de software.

Quem foi Christopher Alexander

Christopher Alexander (1936–2022) foi arquiteto e teórico do projeto. Segundo o obituário publicado pela Universidade da Califórnia em Berkeley, onde foi professor de arquitetura, ele tinha mestrado em Matemática e bacharelado em Arquitetura pela Universidade de Cambridge e doutorado em Arquitetura por Harvard. Mudou-se para os Estados Unidos em 1958, fundou o Center for Environmental Structure em 1967, projetou e construiu mais de duzentos edifícios em cinco continentes e recebeu, em 1970, a medalha de ouro de pesquisa do American Institute of Architects. Morreu em 17 de março de 2022, aos 85 anos.

Antes de Uma linguagem de padrões, Alexander já era conhecido pelo ensaio “A cidade não é uma árvore”, de 1965, no qual criticava o planejamento que trata a cidade como uma hierarquia rígida de partes separadas, quando na vida real as funções se sobrepõem. Seu primeiro livro, *Notes on the Synthesis of Form*, discute como a forma de um objeto ou edifício resulta do ajuste entre ele e o contexto em que é usado. Anos depois, em *The Nature of Order*, obra em quatro volumes, ele voltou ao tema da totalidade e da qualidade dos lugares.

Alexander foi também um crítico duro de parte da arquitetura moderna, que acusava de produzir ambientes sem vida, desligados de quem os usa.

Como o livro é organizado

O livro funciona como uma rede. Cada um dos 253 padrões tem um número, um nome, uma imagem de abertura, a descrição do problema, a discussão das forças em jogo e uma instrução de solução, resumida no fim com um pequeno diagrama. No texto, cada padrão menciona outros entre parênteses, pelo número, indicando quais padrões maiores ele ajuda a completar e quais menores o completam. É essa trama de referências que os autores chamam de linguagem, como explica artigo publicado na revista Arquitextos, do portal Vitruvius.

Os padrões vêm em três grandes grupos:

  • Cidades: distribuição de cidades na região, bairros, redes de transporte, praças, comércio local, áreas verdes.
  • Edifícios: implantação no terreno, relação com a rua, entradas, circulação, cômodos, luz.
  • Construção: estrutura, materiais, aberturas, detalhes.

Com desenhos, fotografias e diagramas, o livro descreve como chegar a ambientes práticos, seguros e agradáveis em todas essas escalas. A intenção declarada é dar às pessoas comuns, e não só aos profissionais, uma forma de trabalhar com os vizinhos para melhorar a casa, a rua ou o bairro. Por trás disso está a convicção de que muitos dos lugares mais bem-sucedidos do mundo não foram desenhados por arquitetos, mas construídos aos poucos por quem vive neles.

À esquerda, capa de A Pattern Language, de 1977; à direita, ilustração de Alexander sobre a determinação de componentes para uma aldeia indígena
Capa da edição original de A Pattern Language (1977) e ilustração de Alexander sobre a determinação de componentes para uma aldeia indígena.

O que é um padrão

Na introdução da edição original, os autores definem o padrão como a descrição de um problema que se repete no ambiente e do núcleo da sua solução, de modo que a solução possa ser usada muitas vezes “without ever doing it the same way twice” (Alexander, Ishikawa e Silverstein, A Pattern Language, Oxford University Press, 1977, p. x), ou seja, sem nunca ser aplicada duas vezes da mesma forma.

Isso diferencia o livro de um catálogo de modelos prontos. Um padrão não diz como deve ser a janela, mas por que certas disposições de luz, altura e vista funcionam melhor para quem usa o cômodo, e deixa a forma final para cada projeto. Os autores também não tratam os padrões como verdades definitivas: apresentam-nos como hipóteses, a melhor aposta disponível sobre que arranjo físico resolve cada problema, sujeitas a revisão diante de nova experiência e observação. Alguns padrões vêm marcados com mais confiança do que outros, e o leitor é convidado a testar, adaptar e até escrever novos.

Diagramas desenhados à mão com dezenas de variações de plantas de pequenos espaços em quadrados numerados
Diagramas de variações de plantas desenhados à mão, no estilo das ilustrações dos livros de Alexander.

Da arquitetura ao software

A ideia de linguagem de padrões atravessou a fronteira da arquitetura. Em setembro de 1987, um relatório técnico de Kent Beck e Ward Cunningham, submetido a um workshop da conferência OOPSLA, adaptou o conceito à programação orientada a objetos, começando por um sistema de cinco padrões para interfaces de janelas. A partir daí, a comunidade de software passou a documentar soluções recorrentes no formato de padrões, e o Hillside Group mantém hoje uma biblioteca aberta de catálogos de padrões de software. Foi também nessa comunidade que Ward Cunningham criou, em 1995, o primeiro wiki, formato que depois inspirou a Wikipédia.

O que a lei brasileira diz sobre projetar junto com quem mora

A proposta de Alexander de envolver os moradores tem paralelo na legislação urbana brasileira. O Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) inclui a gestão democrática no rol de diretrizes da política urbana, com participação da população e de associações representativas na formulação, execução e acompanhamento de planos e projetos (art. 2º, II). O art. 43 nomeia os instrumentos dessa gestão: órgãos colegiados de política urbana, debates, audiências e consultas públicas, conferências e iniciativa popular de projetos de lei e de planos. Na elaboração do plano diretor e na fiscalização de sua implementação, os Poderes Executivo e Legislativo municipais devem promover audiências públicas e debates e garantir publicidade e acesso aos documentos produzidos (art. 40, § 4º).

Na escala da casa, a Lei 11.888/2008 assegura às famílias com renda mensal de até três salários mínimos, em área urbana ou rural, assistência técnica pública e gratuita de profissionais de arquitetura, urbanismo e engenharia para o projeto e a construção de habitação de interesse social, abrangendo projeto, acompanhamento e execução da obra de edificação, reforma, ampliação ou regularização fundiária (art. 2º, caput e § 1º).

A mesma lógica de olhar para o uso cotidiano dos espaços aparece em temas que o blog trata em outros textos: os espaços públicos que afastam pessoas por meio de bancos com divisórias e outros elementos de exclusão, e a praça de bolso na vaga de estacionamento, que devolve à calçada um lugar de permanência, ideia próxima de vários padrões de pequenas praças e lugares para sentar do livro.

Os padrões postos à prova em Saitama

Entre 1982 e 1987, o Center for Environmental Structure projetou o campus da escola Eishin, em Iruma, na província de Saitama, no Japão. Segundo o arquivo do centro, o trabalho começou pela escrita de uma linguagem de padrões feita sob medida para aquele lugar: 1.200 horas de conversa com professores e funcionários, condensadas em textos que descreviam a realidade física desejada. Só depois vieram a implantação no terreno, de cerca de 280 por 320 metros, e o desenho dos edifícios, pensados para uma população de 2 mil alunos e professores.

O caso mostra o método em ação: primeiro se escreve, com os futuros usuários, o que o lugar precisa ter; depois se desenha. É o oposto do projeto que chega pronto e pede que as pessoas se adaptem a ele.

Por que o livro ainda interessa

Quase cinco décadas depois, Uma linguagem de padrões continua a ser lido por arquitetos, urbanistas, estudantes, designers e programadores. A principal lição é que a cidade não é uma coleção de objetos isolados, mas uma rede de relações que evolui com o uso. Uma escada, uma varanda ou uma praça funcionam bem ou mal conforme se ligam ao que está em volta e ao modo como as pessoas vivem ali.

Em outro livro, The Timeless Way of Building (1979), Alexander desenvolve a ideia de que os padrões de que uma casa ou uma cidade é feita podem estar vivos ou mortos: os vivos permitem que as pessoas vivam em paz com suas próprias forças, e os mortos as prendem em conflitos internos. A distinção ajuda a entender por que alguns lugares são procurados e cuidados, enquanto outros ficam vazios mesmo quando bem acabados.

Para quem trabalha com imóveis, o livro oferece um vocabulário útil para explicar por que certos projetos envelhecem bem e outros não. Luz natural em dois lados do cômodo, transição entre a rua e a entrada, lugares para sentar junto às janelas: muitos padrões descrevem qualidades que o comprador percebe na visita, mesmo sem saber nomeá-las.

Para fechar

Uma linguagem de padrões é um livro extenso, que pode ser lido aos pedaços, a partir do padrão que interessa. Sua proposta, de dar a arquitetos e moradores uma linguagem comum para desenhar lugares melhores, influenciou o urbanismo, a arquitetura participativa e até o desenvolvimento de software, e dialoga com instrumentos de participação que a lei brasileira prevê para planos diretores e para a moradia de interesse social.

Quando essas qualidades de projeto já estão construídas em um imóvel, elas também aparecem no valor. A Valen Brasil avalia imóveis considerando implantação, conforto e estado de conservação, além das comparações de mercado.

Perguntas frequentes

Quem escreveu Uma linguagem de padrões?

Christopher Alexander, Sara Ishikawa e Murray Silverstein, com Max Jacobson, Ingrid Fiksdahl-King e Shlomo Angel. O original, A Pattern Language, é de 1977; a edição brasileira saiu pela Bookman em 2013.

Quantos padrões o livro apresenta?

São 253 padrões, organizados das escalas maiores (regiões, cidades e bairros) às menores (edifícios, cômodos e detalhes construtivos).

O que é um padrão para Christopher Alexander?

É a descrição de um problema que se repete no ambiente construído e do núcleo de sua solução, formulada de modo a ser adaptada a cada caso, sem produzir duas vezes o mesmo resultado.

O livro serve para quem não é arquiteto?

Sim. Os autores escreveram pensando também em moradores e comunidades, para que pudessem participar do projeto de suas casas, ruas e bairros.

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