Restauração do Arco de Tito: como Stern e Valadier recompuseram o monumento

Como o Arco de Tito foi desmontado, remontado e completado com travertino entre 1817 e 1823, por que a obra virou precedente do restauro moderno e o que ela tem a ver com Camillo Boito.
Em Roma, a restauração do Arco de Tito foi iniciada em 1817 pelo arquiteto Raffaele Stern e concluída por Giuseppe Valadier no começo da década de 1820. O monumento foi desmontado, livrado das construções medievais que o envolviam e remontado, e as lacunas ganharam blocos de travertino, uma pedra diferente do mármore original, com colunas sem as caneluras das antigas.
Com isso, quem olha o arco consegue distinguir o que é romano do que é do século XIX, princípio que Camillo Boito transformaria em regra décadas depois e que a Carta de Veneza consagraria em 1964. Este texto trata do caso do arco; a definição de restauração, os documentos internacionais e a legislação brasileira estão no guia sobre restauração do patrimônio histórico.
A preocupação com monumentos como esse tem hoje um instrumento internacional comum: a Convenção do Patrimônio Mundial, adotada pela Unesco em 1972, que no art. 4º atribui a cada Estado-parte o dever de identificar, proteger, conservar, valorizar e transmitir às gerações futuras o patrimônio cultural e natural situado em seu território. As teorias que explicam por que o Arco de Tito virou referência estão detalhadas no texto sobre as teorias de restauração de Viollet-le-Duc, Ruskin e Boito.

Por que Boito é a chave para ler o arco
O arquiteto Camillo Boito (1836-1914) não participou da obra do Arco de Tito, que é anterior ao seu nascimento, mas deu a ela um sentido teórico. Sua defesa do monumento como documento histórico, que pode ser consolidado e reparado sem ser falsificado, é a moldura que a crítica usa até hoje para avaliar o que Stern e Valadier fizeram em Roma. O verbete da Treccani sobre Boito resume sua posição e lista os textos em que ele a desenvolveu, como a conferência "I restauratori", de 1884.
As quatro vias do restauro no século XIX
Boito formulou sua proposta contra três métodos que disputavam o campo. O primeiro era o restauro estilístico do francês Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc, cujo nome está ligado, segundo a enciclopédia Treccani, às restaurações das catedrais de Vézelay, Amiens, Chartres e Laon, da Sainte-Chapelle, de Notre-Dame de Paris e da Cité de Carcassonne. Esse método buscava reconstituir o edifício no seu estilo "correto", completando lacunas e muitas vezes eliminando acréscimos posteriores de valor.
O segundo era a posição romântica do inglês John Ruskin, autor de The Seven Lamps of Architecture (1849) e de The Stones of Venice, que via na restauração uma forma de destruição e pregava a manutenção cuidadosa em vez da cópia. O terceiro era o restauro histórico de Luca Beltrami.
A quarta via, a de Boito, era a conservação com respeito ao monumento entendido antes como testemunho da história do que como exemplar de um estilo. Na prática, isso significava intervenções discretas: primeiro a consolidação e, nos casos mais difíceis, o reparo feito com formas e materiais diferentes dos originais. O Arco de Tito, restaurado sessenta anos antes, já mostrava esse caminho em pedra.
O Arco de Tito antes da restauração
O arco foi construído por volta de 81 d.C. pelo imperador Domiciano, em homenagem ao irmão Tito, e celebra a campanha na Galileia e a destruição de Jerusalém, em 70 d.C. A ficha do monumento no portal Turismo Roma, da prefeitura de Roma, registra 15,40 m de altura, 13,50 m de largura e 4,75 m de profundidade, revestimento em mármore pentélico grego e um único vão. Dentro da passagem, dois painéis em relevo de 2,04 m por 3,85 m mostram o imperador na quadriga triunfal e os soldados levando os despojos de guerra, entre eles as trombetas de prata, a mesa sagrada e a menorá, o candelabro de sete braços do Templo.
A história posterior explica o estado em que Stern o encontrou. Na Idade Média, a família Frangipane incorporou o arco a uma fortificação, e as marcas das vigas dessa ocupação ainda aparecem nos painéis. Os primeiros reparos vieram no século XV, sob os papas Paulo II e Sisto IV, com a demolição de construções encostadas e a execução de um contraforte. Depois, o arco ficou preso às estruturas do convento de Santa Maria Nova, hoje Santa Francesca Romana.

Os desenhos e gravuras feitos entre os séculos XVI e XVIII, incluindo reconstituições hipotéticas, registram essa evolução e hoje servem como documento do que existia antes da obra. No Iluminismo, o arco tornou-se objeto de estudo de arqueólogos e artistas e ajudou a fixar o gosto europeu pela paisagem com ruínas. Em 1716, o estudioso holandês Adriaan Reland publicou um livro inteiro sobre os despojos do Templo de Jerusalém representados no monumento.
A obra de Stern e Valadier
Raffaele Stern, nascido em Roma em 1774, era arquiteto a serviço do governo papal. O Dizionario Biografico degli Italiani registra que, a partir de 1817, ele deu início ao projeto de restauro do arco, completado nos anos seguintes por Valadier. Stern morreu em 30 de dezembro de 1820, em consequência de uma queda, e não viu a obra concluída.
Giuseppe Valadier (1762-1839), também romano, dedicou a última fase da carreira à restauração de monumentos antigos, entre eles o Arco de Tito, entre 1819 e 1821, segundo a Treccani, e o templo da Fortuna Viril. O portal Turismo Roma informa que entre 1821 e 1823 o arco foi desmontado, segundo projeto dos dois arquitetos, e remontado com as partes desgastadas recompostas em travertino. Em 1822, Valadier publicou um relato do andamento dos trabalhos, a Narrazione artistica dell'operato finora nel ristauro dell'Arco di Tito, citado na bibliografia do verbete sobre Stern. As datas das etapas variam um pouco conforme a fonte, mas o conjunto da intervenção cabe entre 1817 e 1823.
A conclusão foi registrada no ático voltado para o Fórum Romano, com a inscrição mandada gravar pelo papa Pio VII:
INSIGNE RELIGIONIS ATQVE ARTIS MONVMENTVM / VETVSTATE FATISCENS / PIVS SEPTIMVS PONTIFEX MAX / NOVIS OPERIBVS PRISCVM EXEMPLAR IMITANTIBVS / FVLCIRI SERVARIQVE IVSSIT / ANNO SACRI PRINCIPATVS EIVS XXIIII (inscrição de Pio VII no ático do Arco de Tito, lado do Fórum)
Em tradução livre, o texto diz que o monumento, notável pela religião e pela arte e enfraquecido pelo tempo, foi reforçado e conservado por ordem de Pio VII, com obras novas que imitam o modelo antigo, no 24º ano de seu pontificado. A inscrição é, ela mesma, uma forma de documentar a intervenção, exatamente o que Boito pediria décadas depois.

Travertino no lugar do mármore
O ponto que tornou o arco um precedente foi a escolha do material. O mármore pentélico original foi mantido onde existia, e o que faltava foi recomposto em travertino, rocha calcária porosa, de cor e textura diferentes. As colunas novas não receberam as caneluras das antigas, e os ornamentos foram simplificados. O volume e as proporções do arco foram recompostos, mas o acabamento mostra, a quem se aproxima, onde termina a obra romana.
| Elemento | Situação depois da restauração |
|---|---|
| Painéis internos com o triunfo e os despojos | originais, em mármore |
| Parte central do arco, com o vão | original, em mármore pentélico |
| Trechos laterais refeitos | século XIX, em travertino |
| Colunas das laterais | século XIX, sem caneluras |
| Inscrição do lado do Coliseu | original, dedicatória a Tito |
| Inscrição do lado do Fórum | século XIX, de Pio VII |
| Fundações aparentes | expostas entre 1901 e 1902, com o rebaixamento da rua |
A opção tem duas faces. De um lado, a complementação com material diferente, mas compatível com o original, evita a falsificação. De outro, a simplificação das formas, feita sem perder a leitura arquitetônica do conjunto, impede que o novo concorra com o antigo. É o equilíbrio que Boito defendia e que a Carta de Veneza de 1964 escreveria no art. 12, ao pedir que as reposições se integrem ao conjunto e ao mesmo tempo possam ser distinguidas do original. O texto da carta pode ser lido, em 39 línguas, no acervo de cartas do Icomos.

Os desenhos de Valadier separavam o que existia do que seria acrescentado, e a obra não ficou livre de controvérsia na época. Comparar esses desenhos com o estado atual mostra decisões concretas: onde completar, com que material e com que grau de detalhe.
O caso como precedente reconhecido
A importância do arco não é só uma leitura de historiadores. A ficha do centro histórico de Roma na Lista do Patrimônio Mundial, inscrito em 1980 e ampliado em 1990, registra que, a partir do século XIX, a proteção do acervo monumental e arqueológico da cidade se apoiou em princípios e leis nascidos da discussão erudita e testados ali pela primeira vez, e cita como exemplos a restauração do Coliseu e a do Arco de Tito.
O debate aberto por obras como essa acabou institucionalizado. Em 1956, a 9ª Sessão da Conferência Geral da Unesco, em Nova Délhi, aprovou a criação de um centro intergovernamental para estudar e aperfeiçoar os métodos de restauração. Segundo a história oficial do ICCROM, o Centro Internacional de Estudos para a Conservação e o Restauro dos Bens Culturais, ele foi instalado em Roma em 1959, por acordo com o governo italiano.
A menorá e a segunda vida do monumento
O painel com os despojos do Templo deu ao arco uma leitura que ultrapassa a história da arquitetura. O projeto Arch of Titus, do Centro de Estudos de Israel da Yeshiva University, trata o monumento como registro da Guerra Judaica de 66 a 74 d.C. e reuniu seus resultados no volume The Arch of Titus: From Jerusalem to Rome — and Back, publicado pela editora Brill em 2021. A proposta de coloração do relevo feita pela equipe saiu na Biblical Archaeology Review de maio e junho de 2017. O mesmo projeto lembra que a menorá de sete braços gravada no arco é hoje um símbolo do Estado de Israel.
Essa camada de significado também é patrimônio. Uma restauração que refizesse os relevos ou "completasse" as figuras apagaria marcas que contam a história do monumento, inclusive a da sua ocupação medieval. A decisão de preservar os painéis como estavam, e de concentrar as partes novas na estrutura, é parte do que faz do Arco de Tito um exemplo.

E no Brasil?
A pergunta que Stern e Valadier enfrentaram, até onde completar um monumento, é a mesma que se coloca em qualquer bem protegido no Brasil. Aqui, a proteção se organiza pelo tombamento, previsto no Decreto-Lei nº 25/1937, com inscrição em um dos quatro Livros do Tombo, e a Constituição de 1988, no art. 216, ampliou a noção de patrimônio cultural para bens materiais e imateriais, acrescentando instrumentos como o registro e o inventário. O tombamento segue sendo o instrumento talhado para edificações, paisagens e conjuntos urbanos.
Obra em bem tombado depende de autorização prévia do órgão de patrimônio. Como essa autorização funciona, quais são as categorias de intervenção do Iphan e quem pode assinar o projeto está explicado no guia sobre restauração do patrimônio histórico.
Perguntas frequentes
Quem restaurou o Arco de Tito?
O projeto foi iniciado por Raffaele Stern em 1817 e, após a morte dele em 1820, concluído por Giuseppe Valadier, com a obra de desmontagem e remontagem feita entre 1821 e 1823.
Por que o Arco de Tito foi restaurado com travertino?
Para que as partes novas se distinguissem do mármore original. O travertino tem cor e textura diferentes, e as formas refeitas foram simplificadas, o que permite ver o que é romano e o que é do século XIX.
O que o Arco de Tito tem a ver com Camillo Boito?
Boito, que escreveu décadas depois, defendeu que toda intervenção fosse identificável e documentada. O arco é citado como antecedente prático dessa ideia, inclusive pela inscrição que registra a obra.
Onde fica o Arco de Tito?
No alto da Via Sacra, dentro da área do Fórum Romano, a poucos passos do Coliseu, em Roma.
Restaurar sem fingir que nada aconteceu
O Arco de Tito mostra que é possível devolver estabilidade e forma a um monumento sem fingir que nada aconteceu com ele. Stern e Valadier desmontaram e remontaram a estrutura, preencheram as lacunas com outro material e deixaram por escrito, no próprio ático, o que tinham feito. Boito deu nome a esse método, e as cartas do século XX o transformaram em regra.
Em escala muito menor, a mesma lógica vale para quem tem um imóvel antigo: conhecer o que é original e documentar cada intervenção preserva a história da construção e ajuda a sustentar o seu valor. A Valen Brasil avalia imóveis históricos e com restrições de preservação considerando o estado de conservação e o que a proteção legal permite fazer em cada caso.
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