Restauração do Arco de Tito

A restauração do Arco de Tito no Fórum Romano, conduzida por Raffaele Stern e Giuseppe Valadier no início do século XIX, é um modelo significativo na preservação do patrimônio histórico, que respeitaram a integridade arquitetônica original.
A conservação do patrimônio histórico é uma preocupação universal que transcende fronteiras geográficas e culturais. Ao longo dos séculos, diferentes sociedades desenvolveram abordagens distintas para preservar e proteger suas heranças arquitetônicas e culturais. Desde a Antiguidade até os tempos modernos, uma variedade de métodos e filosofias emergiram, refletindo as diversas percepções sobre a importância e o significado do patrimônio. Essa preocupação tem hoje um instrumento jurídico comum: a Convenção do Patrimônio Mundial, adotada pela UNESCO em 1972 atribui a cada Estado-parte o dever de identificação, proteção, conservação, apresentação e transmissão às gerações futuras do patrimônio cultural e natural situado em seu território.
Confira aqui: As Teorias de Conservação do Patrimônio Arquitetônico

Com ênfase na abordagem meticulosa e visionária de Camillo Boito em relação à conservação do patrimônio arquitetônico, neste texto, exploraremos suas teorias e práticas de restauração considerando o Arco de Tito no Fórum Romano, um ícone da antiguidade clássica, que desencadeou debates e reflexões profundas sobre os métodos adequados para preservar o patrimônio histórico.
As quatro vias do restauro no século XIX
Boito formulou sua posição contra três métodos que disputavam o campo. O restauro estilístico de Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc, responsável pelas intervenções em Notre-Dame de Paris, na Sainte-Chapelle, nas catedrais de Vézelay, Amiens, Chartres e Laon e na cidadela de Carcassonne, trabalhava por critérios de ripristino e de complementação que muitas vezes destruíram obras de épocas posteriores de grande valor. O restauro romântico de John Ruskin, autor de The Seven Lamps of Architecture (1849) e de The Stones of Venice (1851-53), ia no sentido oposto. E havia ainda o restauro histórico de Luca Beltrami.
A quarta hipótese, a de Boito, era a conservação e o respeito absoluto ao monumento, entendido como testemunho de história antes de produto de um estilo. Na prática, isso significava intervenções discretas: consolidação e, nos casos mais difíceis, reparo executado com caracteres e materiais diversos dos originais.
O Arco de Tito
O arco foi erguido por Domiciano em memória do irmão Tito e celebra a campanha na Galileia e a destruição de Jerusalém, em 70 d.C. A ficha do monumento no portal Turismo Roma, da prefeitura de Roma, registra 15,40 m de altura, 13,50 m de largura e 4,75 m de profundidade, revestimento em mármore pentélico grego e vão único. No interior da passagem, dois painéis em relevo de 2,04 m por 3,85 m mostram o triunfo de Tito e os soldados carregando os despojos de guerra. Entre 1901 e 1902, o rebaixamento do nível da rua expôs as fundações.
A restauração do Arco de Tito no Fórum Romano, conduzida por Raffaele Stern (1818) e finalizada por Giuseppe Valadier (1824) há dois séculos, é uma referência fundamental na preservação do patrimônio histórico. O critério adotado, caracterizado por uma intervenção distinta mantendo uma homogeneidade formal exemplifica até hoje a abordagem defendida por Camillo Boito e as recomendações internacionais do século XX, que reforçaram a necessidade de preservar a identidade original das estruturas, evitando qualquer confusão com as adições modernas. As recomendações a que o texto se refere foram fixadas na Carta de Veneza, de 1964, carta internacional para a conservação e a restauração de monumentos e sítios, hoje distribuída pelo ICOMOS em 39 idiomas.

O caso como precedente reconhecido
A ficha do centro histórico de Roma no Patrimônio Mundial da UNESCO registra a inscrição do sítio em 1980 e a ampliação do perímetro em 1990. O documento anota que, a partir do século XIX, a proteção do acervo monumental e arqueológico da cidade se apoiou em princípios e leis nascidos da discussão erudita e testados ali primeiro, e cita nominalmente a restauração do Coliseu e a do Arco de Tito como esses primeiros ensaios.
Os desenhos históricos, desde os do século XVI até as reconstruções hipotéticas do século XVIII, fornecem informações cruciais sobre a evolução da estrutura ao longo do tempo. O Arco de Tito adquiriu nova significação durante o Iluminismo, destacando-se como objeto de estudo e influenciando a concepção da paisagem com ruínas.

A menorá e a segunda vida do monumento
O painel interno com os despojos do Templo deu ao arco uma leitura que corre fora da história da arquitetura. O projeto Arch of Titus, do Center for Israel Studies da Yeshiva University, trata o monumento como registro da Guerra Judaica de 66-74 d.C. e reuniu o resultado no volume The Arch of Titus: From Jerusalem to Rome — and Back, publicado em 2021. A coloração do painel proposta pela equipe saiu na Biblical Archaeology Review de maio-junho de 2017, e a imagem da menorá de sete braços gravada no arco é hoje símbolo do Estado de Israel.
A complementação com materiais adequados e a simplificação das formas foram fundamentais para preservar a integridade arquitetônica da estrutura. Por um lado, a complementação com um material diferente, mas condizente com o original (travertino em vez de mármore); por outro lado, a adequada simplificação — sem comprometer a instância arquitetônica — das formas, molduras e esculturas em pedra.

Os desenhos de Valadier, apresentados durante a restauração, ofereceram uma visão clara das intervenções planejadas, diferenciando o existente do projetado. No entanto, as controvérsias em torno da restauração destacaram a complexidade do processo de preservação do patrimônio histórico. Mas apesar das críticas iniciais, a restauração do Arco de Tito estabeleceu bases importantes para os princípios modernos de tratamento de edifícios históricos. A análise dos desenhos revela uma rede complexa de conexões e pontos de vista divergentes, contribuindo para o debate contínuo sobre a conservação do patrimônio histórico. O debate aberto por obras como essa acabou institucionalizado: em 1956, a 9ª Conferência Geral da UNESCO, em Nova Délhi, aprovou a proposta de um centro intergovernamental para estudar e aperfeiçoar os métodos de restauração, o ICCROM, instalado em Roma em 1959.

O mesmo problema no Brasil: o tombamento
No Brasil, a proteção de bens dessa natureza foi organizada pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, cujo art. 1º define o patrimônio histórico e artístico nacional como o conjunto dos bens móveis e imóveis cuja conservação seja de interesse público, seja por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, seja por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. O bem só passa a integrar esse conjunto depois de inscrito em um dos quatro Livros do Tombo.
A classificação do patrimônio material adotada pelo Iphan segue esses quatro livros: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e artes aplicadas. A Constituição de 1988, nos artigos 215 e 216, ampliou a noção ao reconhecer bens culturais de natureza material e imaterial e ao acrescentar o Registro e o Inventário ao tombamento, que continua adequado sobretudo a edificações, paisagens e conjuntos históricos urbanos.
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