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Arquitetura

Jardim sensorial: o que é, benefícios e como montar

Editora Valen •
Mão tocando folhas de uma planta aromática de perto
No jardim sensorial, tocar e cheirar as plantas faz parte da experiência.

Como um jardim sensorial estimula os cinco sentidos, o que dizem os estudos sobre bem-estar, as regras de acessibilidade, exemplos no Rio e em Curitiba e um passo a passo para montar o seu.

Um jardim sensorial é projetado para que visão, tato, olfato, paladar e audição se entrelacem: cada canteiro, caminho e fonte é escolhido pelo que oferece a cada um dos sentidos.

Muitas vezes associado a práticas educacionais, ele serve à educação, à terapia ou só à contemplação, em escolas, praças e quintais.

Pontos principais

  • Um jardim sensorial combina plantas, materiais, água e caminhos para estimular visão, tato, olfato, paladar e audição.
  • Serve à educação, à terapia e à contemplação, em escolas, praças, hospitais e quintais.
  • Estudos associam áreas verdes a menos estresse e mais bem-estar psicológico.
  • Em espaços públicos, a acessibilidade é obrigatória por lei, inclusive com informação em braille e sinalização tátil.
  • Rio de Janeiro e Curitiba têm jardins sensoriais abertos ao público em seus jardins botânicos.

Os cinco sentidos no jardim

Canteiros elevados de madeira com ervas e plantas identificadas por placas, em jardim ao ar livre
Canteiros elevados facilitam tocar, cheirar e observar as plantas de perto, inclusive para quem usa cadeira de rodas.

Visão: cor, contraste e forma. Folhagens de tons diferentes, flores que abrem em épocas distintas e a disposição dos elementos compõem um quadro que muda com as estações.

Tato: texturas ao alcance da mão: superfícies macias de musgos, a aspereza de pedras ou seixos, a delicadeza de pétalas e folhas. Elementos como fontes de água, cascatas suaves e materiais como madeira e cortiça também agregam experiências táteis diversificadas ao ambiente.

Caminho de madeira curvo sob pérgola coberta de trepadeiras, entre canteiros de lavanda e palmeiras
Caminhos largos e contínuos, com pérgolas e plantas aromáticas, convidam a percorrer o jardim com todos os sentidos.

Olfato: as plantas aromáticas são escolhidas para que sempre haja alguma perfumando o jardim, conforme a estação e a hora do dia. O aroma vem dos óleos essenciais, que podem estar distribuídos por toda a planta ou concentrados em algumas partes — folha, flor, caule, casca ou raiz. Hortelã, manjericão, alfavaca-cravo e alecrim estão entre as espécies aromáticas e condimentares descritas pela Embrapa, com uso ao mesmo tempo culinário e medicinal.

Paladar: ervas culinárias e frutas trazem o sabor para o jardim. A contrapartida é saber o que não vai à boca. Antúrio, azaleia e comigo-ninguém-pode estão entre as ornamentais frequentes em praças, parques e dentro de casa que são tóxicas — a ingestão vai de inchaço e coceira na boca a vômitos e, em casos graves, convulsões, segundo a galeria de plantas venenosas do Sinitox, da Fiocruz. Identificar cada espécie e conhecer seu nome é a medida de prevenção que a própria instituição indica.

Audição: o canto dos pássaros, a brisa nas folhas, a água fluindo numa fonte — o som da natureza é a trilha sonora do jardim.

Quem o jardim atrai

O zumbido e o canto dependem de haver o que comer. Ao voarem de flor em flor atrás de alimento, as abelhas realizam a polinização que garante a reprodução das plantas, a produção de frutos e sementes — a Embrapa Meio-Norte reúne espécies de flores que deixam jardins, quintais e praças mais atrativos para elas, entre elas a onze-horas, conhecida por oferecer néctar. O canteiro florido é, ao mesmo tempo, elemento visual, olfativo e sonoro.

Três crianças plantando mudas num canteiro, com terra nas mãos
Crianças plantando: o jardim sensorial também é espaço de educação ambiental.

O efeito sobre quem visita tem medida. A revisão da Organização Mundial da Saúde sobre espaços verdes urbanos e saúde atribui a parques, playgrounds e vegetação residencial ganhos de saúde mental e física por relaxamento psicológico, alívio do estresse, coesão social e menor exposição a poluentes do ar, ruído e calor excessivo. O alcance tem contorno conhecido: uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychology em 2023 reuniu os estudos de terapia hortícola e encontrou efeito significativo sobre indicadores psicológicos e efeito não significativo sobre os fisiológicos.

O jardim sensorial cabe em qualquer escala, do recanto no quintal aos parques públicos, como o Jardim do Túria, em Valência, ou instituições educacionais. Em espaço público, a inclusão é obrigação escrita: a Lei 10.098/2000 determina que o planejamento e a urbanização das vias públicas, dos parques e dos demais espaços de uso público sejam concebidos e executados de forma a torná-los acessíveis a todas as pessoas, inclusive as com deficiência ou mobilidade reduzida. O caminho oposto é o da arquitetura hostil, que usa barreiras no mobiliário urbano para afastar pessoas dos espaços públicos.

A informação que chega pelo tato

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) define comunicação como a forma de interação que abrange, entre outras opções, o braille, o sistema de sinalização ou de comunicação tátil e os caracteres ampliados. Num jardim, é o que permite que o nome e a procedência de cada espécie cheguem sem depender da visão.

A transcrição é serviço especializado. A Fundação Dorina Nowill para Cegos mantém um núcleo editorial que converte textos, livros e materiais diversos para o braille, um sistema em que a leitura se dá pelo tato.

Jardins sensoriais para visitar no Brasil

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro tem um jardim sensorial criado em 1989, onde os visitantes podem tocar e cheirar as plantas. Em 2015, segundo a Agência Brasil, o espaço foi revitalizado com rampas para cadeirantes, piso tátil, placas em braille e monitores, entre eles pessoas cegas e com baixa visão selecionadas pelo Instituto Benjamin Constant. Entre as espécies estão suculentas, orquídeas, manjericão, alecrim e menta.

Em Curitiba, o Jardim das Sensações, no Jardim Botânico, foi inaugurado em 2008. É um percurso de cerca de 200 metros, delimitado por cercas vivas, que pode ser feito de olhos vendados ou fechados para intensificar a percepção de aromas e texturas, com placas em braille ao longo do caminho.

Monte seu jardim sensorial

  1. Defina o objetivo: determine se o jardim será terapêutico, educacional ou contemplativo para orientar as escolhas de design. O objetivo educacional tem enquadramento próprio: a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei 9.795/1999) chama de educação ambiental não-formal as ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais, e incentiva a participação da escola, da universidade e de organizações não governamentais nesses programas.
  2. Escolha o local: avalie o espaço disponível, assegurando acessibilidade e uma atmosfera propícia. Até a rua pode receber um: os parklets são vagas de estacionamento transformadas em jardim ou área de estar.
  3. Planeje o layout: divida o espaço em áreas distintas, cada uma focada em estimular um sentido específico. Considere a circulação, garantindo que os visitantes possam percorrer o jardim de maneira fluida e intuitiva.
  4. Escolha as plantas por sentido: cor e contraste para a visão; texturas para o tato; aromáticas com floração escalonada ao longo do ano para o olfato; ervas culinárias e frutas para o paladar; folhagem e água para a audição.
  5. Acessibilidade: o jardim precisa servir a todas as pessoas, inclusive às que têm deficiência. O Decreto 5.296/2004 exige que a concepção e a implantação de projetos arquitetônicos e urbanísticos atendam aos princípios do desenho universal, tendo como referências básicas as normas técnicas de acessibilidade da ABNT — desenho universal ali definido como a concepção de espaços, artefatos e produtos que atendem simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável.
  6. Integre espaços confortáveis para descanso e contemplação.
  7. Se pretende utilizar o jardim à noite, planeje uma iluminação suave que destaque elementos chave e crie uma atmosfera relaxante. A luz baixa também poupa quem vive no jardim: a DarkSky International reúne evidências de que a iluminação artificial noturna afeta anfíbios, aves, mamíferos, insetos e plantas, que dependem do ciclo diário de luz e escuridão para reprodução, alimentação, sono e proteção contra predadores, e de que a atração de insetos por luminárias reduz populações das quais dependem a polinização e as espécies que se alimentam delas.
  8. Um jardim sensorial requer manutenção regular. Remova ervas daninhas, substitua plantas quando necessário e assegure-se de que todos os elementos estejam em bom estado. Para reduzir esse trabalho, há quem prefira espécies de crescimento rápido e pouca manutenção, como no jardim de capim e bambu da SysHaus, casa pré-fabricada exposta na CASACOR 2018.
Duas jovens se inclinam para sentir o aroma de plantas em vasos
Sentir o aroma das plantas é parte da experiência de um jardim sensorial.

O jardim como projeto

Desenhar espaço externo é atribuição definida em lei. A Lei 12.378/2010, que regulamenta o exercício da Arquitetura e Urbanismo, lista entre os campos de atuação a Arquitetura Paisagística: concepção e execução de projetos para espaços externos, livres e abertos, privados ou públicos, como parques e praças, isoladamente ou em sistemas, em várias escalas, inclusive a territorial. No projeto de um edifício, o paisagismo também é uma das frentes da arquitetura sustentável.

A referência brasileira do ofício está catalogada. O Sítio Roberto Burle Marx, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi reconhecido pela UNESCO em 2021, como o primeiro jardim tropical moderno inscrito: 3.500 espécies cultivadas de flora tropical e subtropical convivendo com a vegetação nativa da região, resultado de um laboratório paisagístico que Burle Marx desenvolveu por mais de 40 anos, iniciado em 1949.

Perguntas frequentes

O que é um jardim sensorial?

É um jardim planejado para estimular os cinco sentidos, com plantas, texturas, aromas, sons e sabores escolhidos para serem tocados, cheirados, ouvidos e observados.

Quais plantas usar em um jardim sensorial?

Aromáticas e condimentares como hortelã, manjericão e alecrim para o olfato e o paladar; folhagens de texturas diferentes para o tato; flores de cores e épocas variadas para a visão. Evite espécies tóxicas em áreas de fácil acesso, principalmente onde há crianças.

Para que serve um jardim sensorial?

Para educação, terapia, lazer e contemplação. É usado em escolas, clínicas, hospitais, praças e residências, e ajuda a incluir pessoas com deficiência visual.

Onde há jardins sensoriais no Brasil?

Entre outros, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e no Jardim Botânico de Curitiba, que têm percursos sensoriais abertos ao público.

O que faz um bom jardim sensorial

Um jardim sensorial se mede pelo que oferece a cada sentido — e, em espaço público, pelo que a lei exige que ofereça a todas as pessoas. Um quintal ou uma área comum bem resolvidos também podem pesar na percepção de quem visita ou compra um imóvel. Para saber quanto seu imóvel vale, considerando também as áreas externas, conte com a Valen Brasil.

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