Jardim do Túria: como Valência trocou um rio por um parque

A história do Jardim do Túria, em Valência: a enchente de 1957, o desvio do rio pelo Plan Sur, a luta contra a autopista, o plano de Bofill e o trecho que falta até o mar.
O Jardim do Túria é o parque urbano de Valência, na Espanha, criado no antigo leito do rio Túria depois que o rio foi desviado para o sul da cidade, após a enchente de 1957. Com quase 10 quilômetros de extensão, entre Mislata e o bairro de Natzaret, é descrito pela prefeitura como o parque urbano mais extenso da Espanha e um dos maiores da Europa. O leito só virou jardim porque os moradores se mobilizaram contra o projeto de transformá-lo em autopista; o plano do parque foi feito pelo escritório de Ricardo Bofill e aprovado em 1984. Hoje, a cidade prepara o último trecho, o Parc de Desembocadura, que vai levar o jardim até o mar.
O rio Túria
O Túria nasce nos Montes Universais, no Sistema Ibérico, na província de Teruel, atravessa as províncias de Teruel, Cuenca e Valência e deságua no Mediterrâneo. A Confederación Hidrográfica del Júcar, órgão que administra a bacia, registra 280 km de extensão para o Túria e 512 km para o Júcar, os dois rios mais importantes de sua área.
A água do Túria sustenta há séculos a horta de Valência, com cultivos como arroz e laranja. Essa relação com a agricultura explica boa parte da história da região e das instituições que ainda hoje organizam a rega.

1957: a enchente que mudou a cidade
Em 14 de outubro de 1957, o Túria transbordou e inundou grande parte de Valência. A tragédia deixou pelo menos 81 mortos e grandes prejuízos. O país vivia os últimos anos da autarquia, a política econômica de isolamento do regime franquista no pós-guerra.
A resposta do governo foi tirar o rio da cidade, e da solução nasceu uma disputa sobre o que fazer com o leito seco, que durou quase duas décadas.
O Plan Sur: o rio desviado
As comissões técnicas estudaram alternativas de traçado, e o Conselho de Ministros aprovou, em 22 de julho de 1958, a chamada Solução Sul. O plano foi transformado em lei três anos depois, pela Ley 81/1961, de 23 de dezembro, que previu um canal de 12.692 m de extensão, com 200 m de largura prevista e capacidade de 5.000 m³/s. A lei também dividiu o custo das obras hidráulicas: 75% para o Estado, 20% para a prefeitura e 5% para a Diputación provincial.
Na obra, o canal saiu mais estreito do que a lei previa, com cerca de 175 metros. Para financiar a parte da cidade, a mesma lei autorizou cobranças extraordinárias na Gran Valencia, como um selo de 25 cêntimos nas cartas, 50 cêntimos por telegrama e um acréscimo de 3% nas contas de telefone, e o Estado estimou sua subvenção em 1,5 bilhão de pesetas.

O canal novo contorna Valência pelo sul, entre Quart de Poblet e Pinedo, e passou a receber as águas por volta de 1973, com o fim das obras. Com isso, o leito antigo, que atravessava o centro, ficou livre. O que esse desvio representou na DANA de 2024 é contado no texto sobre o Parc de Desembocadura.
O desvio também mexeu na rega
Nove acéquias, os canais tradicionais de irrigação, tomam água do Túria e distribuem a rega pela horta de Valência. Segundo o Tribunal de las Aguas, o crescimento da cidade e as obras do Plan Sur alteraram a tomada de água das acéquias mais próximas da cidade: Favara, Rascanya e Rovella passaram a partilhar o chamado açude do Repartiment.
Os conflitos entre agricultores continuam sendo resolvidos pelo Tribunal de las Aguas de la Vega de Valencia, formado por oito síndicos eleitos que representam nove comunidades de regantes, com 11.691 membros, e que decide por procedimento oral. A UNESCO inscreveu o tribunal em 2009, com o Consejo de Hombres Buenos da horta de Múrcia, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Autopista ou jardim?
Com o rio fora do centro, o regime planejou usar o leito antigo para uma autopista que cortaria a cidade. A reação veio dos bairros. O lema era «El llit del Túria és nostre i el volem verd» ("o leito do Túria é nosso e o queremos verde"). Segundo a Federació d'Associacions Veïnals de València, a coordenadora de entidades de bairro que liderou a campanha nos anos 1970 foi o embrião da atual federação. O projeto de autopista acabou abandonado.
O decreto que passou o leito para a cidade
A vitória virou documento em 1976. O Real Decreto 2763/1976, de 1º de dezembro, cedeu gratuitamente à prefeitura de Valência 1.193.217,50 m² do antigo leito, com destino definido no próprio título: rede viária urbana e parques públicos. O decreto saiu no Boletim Oficial do Estado em 2 de dezembro de 1976.

O projeto de Bofill
Com a volta da democracia, a prefeitura eleita adotou, em 1979, a proposta de transformar o leito em zona verde. O prefeito Ricard Pérez Casado, que governou a cidade de 1979 a 1988, colocou o parque na agenda. Em 1981, o Plano Especial de Reforma Interior do Velho Leito do Túria foi contratado ao Taller de Arquitectura de Ricardo Bofill; o avanço foi apresentado em 1982, recebeu sugestões de instituições e associações e o plano definitivo foi aprovado em 1984, dividindo o leito em 18 trechos entre Mislata e Natzaret. As informações estão no guia de arquitetura do Colégio Territorial de Arquitetos de Valência, que descreve o jardim como um parque mediterrâneo de forte geometria, com referências à jardinagem hispano-muçulmana.

O jardim foi implantado por trechos ao longo de vários anos, e o resultado reúne caminhos arborizados, áreas esportivas, espaços para crianças e equipamentos culturais ao longo das margens, sempre com as pontes históricas cruzando o antigo leito.
O jardim hoje
Ao longo de quase 10 km, o Jardim do Túria concentra parte importante do patrimônio histórico e artístico de Valência, segundo o portal de cultura da prefeitura. Entre os equipamentos estão o Palau de les Arts, teatro de ópera, e o conjunto da Cidade das Artes e das Ciências, no trecho final. A maior parte desse conjunto é obra de Santiago Calatrava, arquiteto e engenheiro valenciano.
O parque funciona como corredor verde e de mobilidade: é usado para caminhar, correr e andar de bicicleta de um lado a outro da cidade, longe dos carros. A experiência dos sentidos num parque desse porte conversa com o que se discute no texto sobre o jardim sensorial.
Em 2024, Valência foi a Capital Verde Europeia, título que a Comissão Europeia concede desde 2010 a cidades com mais de 100 mil habitantes.
O próximo trecho: até o mar

O jardim nunca chegou ao mar: o trecho final ficou sem tratamento, isolando Natzaret. O Parque de Desembocadura de Valencia deve completar essa ligação com um bosque urbano que recupera a vegetação de rio e aproxima a cidade da costa. O projeto vencedor do concurso, o projeto (Con)fluir, está descrito em detalhe em outro texto do blog.

O rio protegido antes de chegar à cidade
A montante de Valência, o Túria corre dentro de uma área protegida. Segundo a Generalitat Valenciana, o Parque Natural do Túria foi declarado em 13 de abril de 2007 e ampliado em 6 de agosto de 2021, e soma 8.041 hectares em catorze municípios, de Chulilla à própria Valência. Protege bosque ribeirinho mediterrâneo, pinhais de pinheiro-de-alepo e uma parte da horta valenciana, numa região metropolitana densa e industrializada.
Entre o parque natural a montante e o futuro bosque da foz, o antigo leito é o trecho do Túria que passou a pertencer à cidade.
O que o Túria ensina sobre cidades
O caso de Valência mostra como uma infraestrutura pode mudar de função: um rio que dividia a cidade virou o parque que a liga. A decisão não foi técnica apenas, mas política, e só aconteceu porque os moradores disputaram o uso do espaço. A mesma lógica aparece em escala menor em intervenções que devolvem a rua às pessoas, como os parklets, e ajuda a entender a estrutura urbana das cidades espanholas, marcadas por grandes obras de reforma.
Pontos principais
- O parque fica no leito abandonado pelo rio em Valência, com quase 10 km, e é descrito pela prefeitura como o parque urbano mais extenso da Espanha.
- A enchente de 14 de outubro de 1957 deixou pelo menos 81 mortos e levou ao Plan Sur, aprovado pela Ley 81/1961, que desviou o rio para o sul.
- A mobilização dos bairros barrou a autopista planejada para o leito; o Real Decreto 2763/1976 cedeu a área à prefeitura.
- O plano do parque, do escritório de Ricardo Bofill, foi aprovado em 1984 e dividiu o leito em 18 trechos.
- O Parc de Desembocadura deve levar o jardim até o mar; a montante, o Parque Natural do Túria protege 8.041 hectares.
Perguntas frequentes
Por que o rio Túria foi desviado?
Por causa da enchente de 1957, que inundou Valência. Com o Plan Sur, as cheias passaram a correr por um canal construído fora do centro, na parte sul do município.
Quanto mede o Jardim do Túria?
Quase 10 quilômetros, entre Mislata e Natzaret, segundo a prefeitura de Valência.
Quem projetou o Jardim do Túria?
O plano especial foi contratado ao Taller de Arquitectura de Ricardo Bofill em 1981 e aprovado em 1984; a implantação foi feita por trechos.
O jardim chega ao mar?
Ainda não. O trecho final será o Parc de Desembocadura, cujo projeto foi escolhido por concurso em 2023.
De tragédia a espaço público
O Jardim do Túria é um exemplo de como uma cidade pode transformar uma tragédia e uma obra de engenharia em espaço público, desde que os moradores participem da decisão. A história passa pela enchente, pela lei que desviou o rio, pela campanha contra a autopista e pelo projeto de Bofill, e ainda não terminou: falta chegar ao mar. Parques desse porte mudam o valor dos imóveis ao redor por décadas; para entender esse efeito na sua cidade, a Valen Brasil avalia imóveis considerando o entorno e as transformações urbanas.
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