Arquitetura de Belfast: do linho e do Titanic ao contemporâneo

Um roteiro pela arquitetura de Belfast: armazéns do linho, estaleiro do Titanic, obras de Charles Lanyon, City Hall eduardiano, marcas do conflito e o museu Titanic Belfast.
A arquitetura de Belfast, capital da Irlanda do Norte, conta a história de uma cidade industrial que viveu décadas de conflito e se reinventou. Os armazéns de linho e os estaleiros onde nasceu o Titanic, os prédios vitorianos de Charles Lanyon, o City Hall eduardiano e o museu Titanic Belfast, aberto em 2012, formam um roteiro que vai do século XIX ao contemporâneo. Este guia percorre essa evolução e mostra o que observar na cidade.
Belfast tem hoje ruas movimentadas, bairros culturais e novos projetos urbanos, mas guarda em seus edifícios as marcas de cada época: a riqueza industrial, os anos de violência política e a renovação que veio depois dos acordos de paz.
Pontos principais
- No século XIX, Belfast liderou a produção mundial de linho e se tornou um grande centro de construção naval; daí o apelido de Linenopolis.
- Charles Lanyon projetou alguns dos prédios mais importantes da cidade, como a Queen's University, a Alfândega e a Palm House.
- O City Hall, concluído em 1906, é o grande exemplo do Barroco Eduardiano na cidade.
- O Titanic Belfast, aberto em 31 de março de 2012, ocupa o local onde o navio foi construído.
- Mais de 9.100 edifícios são listados na Irlanda do Norte, com proteção que alcança o interior e o exterior.

Cronologia: a cidade industrial
No século XIX, Belfast se tornou uma potência industrial, e a arquitetura da época mostra isso. Armazéns de tijolo vermelho e fábricas vitorianas lembram o tempo em que a cidade liderava a produção mundial de linho e a construção de navios. No estaleiro da Harland and Wolff, os guindastes amarelos Samson e Goliath, construídos pela alemã Krupp e concluídos em 1974 e 1969, dominam o horizonte e se tornaram símbolos da cidade. Para comparar com outra cidade industrial vitoriana do Reino Unido, veja a arquitetura de Glasgow.
Os armazéns que sobreviveram se concentram no Linen Quarter, ao sul do antigo White Linen Hall, onde as empresas do ramo ergueram escritórios e depósitos depois que a família Mulholland montou a primeira fiação mecanizada de linho da cidade, na York Street, nos anos 1820. Foi esse comércio que deu a Belfast o apelido de Linenopolis.

Arquitetura vitoriana e eduardiana
Belfast tem estilos que vão da grandiosidade vitoriana e eduardiana ao modernismo e à arquitetura contemporânea. À medida que a cidade enriquecia, surgiram grandes prédios públicos e comerciais que expressavam essa confiança.

O City Hall, concluído em 1906 com projeto de Alfred Brumwell Thomas, é o principal exemplo do Barroco Eduardiano na cidade, com cúpula central e torres nos cantos. O Lanyon Building, da Queen's University, mostra o esplendor vitoriano do arquiteto Charles Lanyon. Muitos dos prédios mais antigos de Belfast ficam no Cathedral Quarter, bairro que se tornou a principal área cultural e boêmia da cidade.

Charles Lanyon, o arquiteto da cidade
Muitos dos edifícios que se veem ao caminhar por Belfast têm a assinatura de Charles Lanyon. Nascido em Eastbourne, na Inglaterra, em 1813, ele trabalhou na Irlanda como engenheiro de condado antes de se fixar no norte. Em Belfast, projetou a Queen's University, o tribunal e a prisão de Crumlin Road, a Palm House do Botanic Gardens e pontes sobre o rio Lagan, e, em sociedade com William Henry Lynn, a Alfândega e o Belfast Castle. Também é responsável pela estrada costeira de Antrim, entre Larne e Portrush, e por dezenas de igrejas. Foi prefeito de Belfast em 1862 e morreu em 1889, em sua casa em Whiteabbey.
A Palm House que ele desenhou entre 1839 e 1840, executada pelo fabricante de estruturas de ferro e vidro Richard Turner, de Dublin, continua de pé no Botanic Gardens, aberto em 1828 pela Belfast Botanic and Horticultural Society e transformado em parque público municipal em 1895.
O teatro vitoriano que não é de Lanyon
O Grand Opera House abriu em 1895 no terreno de antigas construções de circo, encomendado pelo empresário Joseph Warden ao arquiteto inglês Frank Matcham, um dos grandes projetistas de teatros da época. O prospecto de lançamento anunciava lugar para 3.500 pessoas, e a estreia foi com a pantomima Bluebeard. O teatro passou por restauração em 1970 e de novo em 2020.

Conflito e reconstrução
A segunda metade do século XX foi um período de violência em Belfast, e o conflito conhecido como The Troubles deixou marcas no tecido urbano. Muitos edifícios históricos foram perdidos. O Hotel Europa, que ficou conhecido como o hotel mais bombardeado da Europa, continua em funcionamento e virou símbolo da resistência da cidade.

A história recente aparece nos murais que transformam várias ruas em uma exposição de arte urbana e política, e nos muros que ainda separam bairros católicos e protestantes, conhecidos como "linhas de paz". Hoje eles também recebem mensagens de reconciliação. Esses muros não são peças de museu: pela estratégia Together: Building a United Community, o Executivo da Irlanda do Norte assumiu o compromisso de reduzir e remover todas as barreiras de interface até 2023.
Depois dos acordos de paz, a cidade ganhou nova energia, com projetos urbanos, festivais, bares e restaurantes, sobretudo no Cathedral Quarter.

Modernismo e proteção do patrimônio
No pós-guerra, a arquitetura modernista chegou a Belfast em hospitais, escritórios e conjuntos habitacionais, com prioridade para a função e a economia. Nem todos aprovaram a nova direção, e o debate entre preservar o patrimônio e atender às necessidades modernas se tornou frequente.
Quem decide o que fica de pé
Esse debate tem um árbitro legal. A proteção vem da seção 80 do Planning Act (NI) 2011, que define o edifício listado como aquele de "especial interesse arquitetônico ou histórico". O registro estatutário começou em 1974, e o primeiro levantamento levou mais de vinte anos para ficar pronto. Hoje são mais de 9.100 edifícios listados na Irlanda do Norte, distribuídos nos graus A, B+, B, B1 e B2, e a listagem alcança o interior e o exterior do imóvel, não só a fachada. No Brasil, a proteção equivalente é o tombamento, tema do texto sobre restauração do patrimônio histórico.
O renascimento da arquitetura de Belfast
Nas últimas décadas, Belfast viveu uma renovação arquitetônica. O Waterfront Hall, centro de concertos e convenções à beira do rio Lagan, e o Titanic Belfast são os exemplos mais conhecidos de uma arquitetura contemporânea que homenageia o passado da cidade.
Titanic Belfast
Inaugurado em 31 de março de 2012, no centenário do naufrágio, o Titanic Belfast fica no mesmo lugar onde o navio foi construído. O projeto é do escritório CivicArts, de Eric Kuhne, com a Todd Architects como consultora principal. O edifício tem cerca de 14 mil metros quadrados, o dobro da área do City Hall, e seu ponto mais alto fica a 38,5 metros do nível da praça. As fachadas são revestidas por cerca de 3 mil placas de alumínio anodizado prateado, 2 mil delas com formatos únicos, que refletem a luz como um diamante e lembram as proas dos navios. Por dentro, dez galerias interativas contam a história do Titanic, das pessoas e da cidade que o construiu, com reconstruções de cabines e conveses.

Onde o navio foi desenhado
A poucos passos do museu está o prédio em que o navio saiu do papel. A sede e os escritórios de desenho da Harland and Wolff, construídos entre cerca de 1886 e 1917, foram abandonados pelo estaleiro em 1989, listados no grau B+ em 2002 e ficaram quase trinta anos desocupados. Em 2015, uma verba de 4,9 milhões de libras do Heritage Lottery Fund viabilizou a restauração e a conversão do conjunto em um hotel de 84 quartos, com as duas salas de desenho reservadas ao uso público, segundo a Maritime Belfast. É um bom exemplo de retrofit de edifício industrial.

Futuro sustentável
Belfast também investe em novos bairros junto ao porto, como o empreendimento City Quays, que reúne escritórios e hotéis na orla do Lagan. Soluções como coberturas verdes, sistemas de alta eficiência energética e materiais de menor impacto aparecem cada vez mais em projetos novos, na linha do que se discute em arquitetura sustentável na prática.
Perguntas frequentes
O que ver de arquitetura em Belfast?
O City Hall, a Queen's University, a Palm House do Botanic Gardens, a Alfândega, o Grand Opera House, o Cathedral Quarter, os guindastes Samson e Goliath e o Titanic Belfast.
Quem foi Charles Lanyon?
Arquiteto e engenheiro nascido na Inglaterra em 1813, autor de muitos dos principais prédios vitorianos de Belfast, como a Queen's University e a Palm House. Foi prefeito da cidade em 1862.
Quando o Titanic Belfast foi inaugurado?
Em 31 de março de 2012, no centenário do naufrágio, no local onde o navio foi construído.
Os muros entre bairros ainda existem?
Sim. As chamadas linhas de paz ainda separam bairros católicos e protestantes; o governo da Irlanda do Norte estabeleceu a meta de removê-las até 2023.
O que a arquitetura de Belfast reúne
A arquitetura de Belfast une raízes industriais, grandes prédios vitorianos e eduardianos, marcas de conflito e projetos contemporâneos que olham para o passado naval da cidade. Dos armazéns de linho ao Titanic Belfast, a cidade mostra como preservar e reaproveitar edifícios ajuda a construir uma nova identidade. Para quem acompanha esse tema no Brasil, onde o reuso de prédios antigos também exige saber quanto eles valem, galpões, casarões e outros imóveis antigos podem ser avaliados pela Valen Brasil.

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