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Arquitetura

Arquitetura de Viena: do barroco à Ringstrasse, Secessão, habitação social e contemporâneo

Editora Valen •
Jardim geométrico com canteiros de flores diante de grandes edifícios historicistas com cúpulas, no centro de Viena, ao entardecer
Os museus de cúpula da Ringstrasse e os jardins do entorno formam um dos conjuntos mais visitados de Viena.

Um roteiro pela arquitetura de Viena: Karlskirche e Schönbrunn, a Ringstrasse, a Secessão, o Karl-Marx-Hof, os Gasômetros e os projetos contemporâneos.

Viena é uma das capitais europeias em que a história da arquitetura se lê com mais clareza nas ruas. Em poucos quilômetros convivem uma catedral gótica, igrejas e palácios barrocos da época dos Habsburgo, o grande anel de edifícios historicistas da Ringstrasse, as obras que inauguraram a arquitetura moderna na Europa Central e projetos contemporâneos de arquitetos como Zaha Hadid e Dominique Perrault.

A cidade também é conhecida por um tema que vai além dos monumentos: a habitação. Desde os anos 1920, Viena constrói e administra moradia pública em grande escala, e parte desses conjuntos é hoje atração arquitetônica. Este roteiro percorre as fases da arquitetura vienense, os edifícios que valem a visita e as discussões recentes sobre como crescer sem apagar o centro histórico.

Pontos principais

  • O Centro Histórico de Viena é Patrimônio Mundial desde 2001, com 371 hectares de área protegida e 462 de zona de amortecimento; esteve na lista de patrimônio em perigo de 2017 a 2026 por causa de um projeto de torre no Heumarkt.
  • O barroco da monarquia dos Habsburgo deixou o Palácio de Schönbrunn, o Belvedere e a Karlskirche; a Ringstrasse, aberta a partir de 1857, concentra os grandes edifícios públicos do século XIX.
  • Otto Wagner, Adolf Loos e o grupo da Secessão fizeram de Viena um laboratório da arquitetura moderna no início do século XX.
  • A cidade é referência mundial em habitação pública, do Karl-Marx-Hof dos anos 1920 aos bairros novos como Seestadt Aspern.

Raízes: dos romanos à Viena medieval

Antes de ser capital de um império, Viena foi um acampamento romano, Vindobona, na fronteira do Danúbio. A cidade medieval cresceu sobre esse traçado, e o centro de ruas estreitas dentro do antigo circuito das muralhas ainda guarda essa escala. O símbolo desse período é a Catedral de Santo Estêvão (Stephansdom), com a torre sul gótica e o telhado de telhas vitrificadas em padrão de zigue-zague e brasões, reconstruído depois do incêndio de 1945.

Esse empilhamento de camadas, com vestígios romanos, cidade medieval e capital barroca dos Habsburgo, é o que a UNESCO reconheceu ao inscrever o centro histórico de Viena na Lista do Patrimônio Mundial, em 2001. A área protegida tem 371 hectares, com mais 462 hectares de zona de amortecimento, e inclui o centro antigo, a Ringstrasse e os bairros vizinhos.

A capital barroca dos Habsburgo

Depois do segundo cerco otomano, em 1683, Viena viveu um período intenso de construção. A corte e a nobreza ergueram palácios dentro e fora das muralhas, e a cidade assumiu a feição da arquitetura barroca que marca boa parte do centro.

Vista aérea da Karlskirche, igreja barroca com cúpula verde e duas colunas altas na fachada, diante de um espelho d'água na praça Karlsplatz
A Karlskirche, de Johann Bernhard Fischer von Erlach, foi construída entre 1716 e 1737.

A Karlskirche é o exemplo mais completo. Encomendada pelo imperador Carlos VI e projetada por Johann Bernhard Fischer von Erlach, depois concluída por seu filho, Joseph Emanuel, foi construída entre 1716 e 1737. A fachada combina um pórtico de templo clássico, duas colunas gigantes inspiradas na Coluna de Trajano e uma cúpula elíptica.

Os grandes palácios de verão ficaram fora da cidade murada. O Palácio de Schönbrunn saiu das pranchas de Johann Bernhard Fischer von Erlach e foi transformado por Nicolaus Pacassi no século XVIII; seus jardins abrigam, desde 1752, o zoológico mais antigo do mundo em funcionamento, conforme a ficha do Palácio e Jardins de Schönbrunn no Patrimônio Mundial da UNESCO. O Belvedere, construído para o príncipe Eugênio de Saboia por Johann Lukas von Hildebrandt, tem dois palácios ligados por jardins em terraços e hoje abriga um museu com obras de Gustav Klimt.

Vista aérea do Palácio de Schönbrunn, com a fachada amarela, o pátio de honra e os jardins que sobem até a Gloriette ao fundo
O Palácio de Schönbrunn e seus jardins são Patrimônio Mundial desde 1996.

A Ringstrasse: o anel do século XIX

Em 1857, o imperador Francisco José I decidiu demolir as antigas fortificações que cercavam o centro, segundo o histórico do período da Ringstrasse publicado pela Cidade de Viena. No terreno liberado foi aberto um grande bulevar circular, a Ringstrasse, e ao longo dele subiram, nas décadas seguintes, os edifícios que representariam o Estado, a cultura e a burguesia do império.

Trecho da Ringstrasse com trilhos de bonde, árvores e um palácio historicista à esquerda
A Ringstrasse ocupa o lugar das antigas muralhas e reúne os grandes edifícios públicos do século XIX.

O estilo dominante foi o historicismo: cada edifício adotou o estilo histórico considerado adequado à sua função. O Parlamento, de Theophil Hansen, usou a linguagem da Grécia antiga, associada à democracia; a Prefeitura (Rathaus), de Friedrich von Schmidt, o neogótico das cidades livres medievais; a Universidade, o Renascimento, ligado ao saber; e a Ópera e os dois grandes museus de história da arte e de história natural, o neorrenascimento. Palácios residenciais completaram os quarteirões.

Para quem visita, a Ringstrasse funciona como uma aula de arquitetura a céu aberto: um passeio de bonde pelo anel passa em frente a quase todos esses edifícios em menos de meia hora.

Secessão e modernismo: Viena na virada do século

No fim do século XIX, um grupo de artistas e arquitetos rompeu com o historicismo oficial e fundou a Secessão de Viena, a versão austríaca do Art Nouveau. O Pavilhão da Secessão, de Joseph Maria Olbrich, concluído em 1898, com sua cúpula de folhas de louro douradas, virou manifesto do movimento, e Gustav Klimt foi seu primeiro presidente.

O arquiteto mais influente do período foi Otto Wagner. Ele projetou as estações e pontes da Stadtbahn, a rede ferroviária urbana, e a Caixa Econômica Postal (Postsparkasse), construída entre 1904 e 1906 com concreto armado, então uma técnica nova, e fachada revestida por placas de pedra fixadas com parafusos aparentes de alumínio. O edifício é considerado um marco da passagem do ornamento para a arquitetura funcional.

Adolf Loos foi mais longe na crítica ao ornamento. O edifício que ele projetou para a alfaiataria Goldman & Salatsch, na Michaelerplatz, em frente ao palácio imperial, hoje chamado Looshaus, causou escândalo em 1910: os andares superiores, de fachada lisa e sem molduras, foram considerados ofensivos, e a obra só prosseguiu depois que Loos acrescentou floreiras às janelas.

Looshaus, edifício de esquina com base revestida de mármore e colunas e andares superiores brancos e lisos com floreiras nas janelas
A Looshaus, de Adolf Loos, causou escândalo em 1910 pela fachada sem ornamentos.

Viena Vermelha: a habitação como arquitetura

Depois da Primeira Guerra, a cidade governada pelos social-democratas lançou um programa de habitação pública que ficou conhecido como Viena Vermelha. Entre 1919 e 1934, dezenas de milhares de apartamentos foram construídos em grandes conjuntos, os Gemeindebauten, com pátios internos, lavanderias, jardins de infância e bibliotecas.

O mais famoso é o Karl-Marx-Hof, projetado por Karl Ehn e construído entre 1927 e 1930 em Heiligenstadt. Com cerca de 1,1 quilômetro de extensão, é um dos edifícios residenciais mais longos do mundo. A escala monumental, os arcos e as torres com mastros de bandeira transformaram a moradia popular em um símbolo político.

A política de moradia pública continua até hoje: uma parte grande da população de Viena mora em habitação municipal ou subsidiada, o que ajuda a explicar por que a cidade aparece com frequência nas listas de qualidade de vida. Para quem estuda mercado imobiliário, é um exemplo de como a oferta pública e cooperativa de moradia influencia o preço dos aluguéis em uma grande cidade.

Pós-guerra, pós-modernismo e a disputa pelo centro

A cidade foi bombardeada na Segunda Guerra, e a reconstrução dos anos 1950 recuperou a Ópera, a catedral e muitos edifícios da Ringstrasse. A partir dos anos 1980, a inserção de arquitetura nova no centro histórico passou a gerar debates.

Haas-Haus, edifício pós-moderno de fachada curva em vidro espelhado e pedra, em frente à Catedral de Santo Estêvão, com o reflexo da catedral no vidro
A Haas-Haus, de Hans Hollein, concluída em 1990, reflete a Catedral de Santo Estêvão na fachada de vidro.

O caso mais conhecido é a Haas-Haus, de Hans Hollein, concluída em 1990 na Stock-im-Eisen-Platz, em frente à Catedral de Santo Estêvão. O edifício pós-moderno, de vidro espelhado e pedra, reflete a catedral na fachada e dividiu opiniões na época; hoje é parte da paisagem da praça.

Nas margens do centro, o Hundertwasserhaus, conjunto de apartamentos municipais construído entre 1983 e 1985 segundo as ideias do artista Friedensreich Hundertwasser, com o arquiteto Joseph Krawina, levou ao extremo a rejeição à linha reta: pisos ondulados, cores fortes e árvores crescendo nas varandas. Perto dali, o KunstHausWien, uma antiga fábrica de móveis remodelada por Hundertwasser, foi reaberto como museu em 1991.

Reúso de edifícios: gasômetros e museus

Viena tem exemplos marcantes de reutilização de edifícios antigos. Os quatro Gasômetros de Simmering, reservatórios de gás construídos entre 1896 e 1899 e desativados em 1984, foram convertidos entre 1999 e 2001 em apartamentos, escritórios e um shopping, com projetos de Jean Nouvel, Coop Himmelb(l)au, Manfred Wehdorn e Wilhelm Holzbauer, mantendo as fachadas de tijolo protegidas.

No centro, o MuseumsQuartier, aberto em 2001 nas antigas cavalariças imperiais, combina os edifícios barrocos com volumes novos, como o Museu Leopold e o MUMOK, projetados pelo escritório Ortner & Ortner. É um dos maiores complexos culturais da Europa e um exemplo de como inserir arquitetura contemporânea sem demolir o conjunto histórico. Quando o prédio antigo segue com o mesmo uso e só precisa de instalações novas, a intervenção costuma ser chamada de retrofit.

Contemporâneo: Donau City, campus da WU e Seestadt

Do outro lado do Danúbio, a Viena contemporânea cresceu em torno da UNO City. A sede das Nações Unidas em Viena, o Centro Internacional de Viena, projetado por Johann Staber e concluído em 1979, reúne torres de planta curva que abrigam agências da ONU. Ao lado, no bairro de Donau City, a DC Tower 1, de Dominique Perrault, inaugurada em 2014, é o edifício mais alto da Áustria, com cerca de 220 metros de altura de edifício e 250 metros até o topo da antena, e fachada em dobras de vidro escuro.

Imagem do Library and Learning Center da Universidade de Economia de Viena, edifício de Zaha Hadid com volume superior inclinado em balanço sobre a praça
O Library and Learning Center, de Zaha Hadid, é o edifício central do campus da WU, aberto em 2013.

Em 2013, a Universidade de Economia e Negócios de Viena (WU) inaugurou um novo campus ao lado do parque Prater, com edifícios de escritórios de vários países. O Library and Learning Center, de Zaha Hadid, com um volume inclinado em balanço sobre a praça, é o mais conhecido; o campus reúne também projetos de Estudio Carme Pinós, do espanhol NO.MAD Arquitectos, de Laura P. Spinadel e do CRAB Studio, dos britânicos Peter Cook e Gavin Robotham.

O maior projeto urbano em andamento é Seestadt Aspern, no 22º distrito, construído sobre um antigo aeródromo. Em torno de um lago artificial, o bairro deve reunir, quando concluído, cerca de 25 mil moradores e 20 mil empregos, com prioridade para transporte público, bicicleta e edifícios de baixo consumo de energia, incluindo um prédio alto de estrutura de madeira. Os princípios de projeto por trás desse tipo de bairro estão em arquitetura sustentável na prática.

Proteger o centro: leis, UNESCO e o caso Heumarkt

A cidade trata seu patrimônio como algo a ser administrado, e não apenas preservado. A proteção tem base legal: a lei austríaca de proteção a monumentos vigora desde 1923 e é aplicada pelo Bundesdenkmalamt, órgão federal responsável pelo tombamento e pela autorização de alterações em bens protegidos. A prefeitura soma a isso zonas de proteção urbanística e regras de altura.

O teste dessas regras foi o projeto de reurbanização do Heumarkt, junto ao clube de patinação e ao Hotel Intercontinental, na borda da zona protegida. Por causa da altura prevista para a nova torre, o Comitê do Patrimônio Mundial incluiu o Centro Histórico de Viena na lista de patrimônio em perigo em 2017. Depois que o projeto foi revisto e a altura máxima reduzida de 73 para menos de 50 metros, o comitê retirou Viena dessa lista em julho de 2026. O caso mostra a tensão, comum em cidades históricas, entre renovação urbana e proteção da paisagem. Os critérios usados para intervir em conjuntos antigos aparecem no texto sobre preservação do patrimônio histórico urbano; o debate conceitual, de Viollet-le-Duc a Brandi, está nas teorias da restauração.

Observatório Urania, edifício Art Nouveau com torre e cúpula às margens do canal do Danúbio, com torres envidraçadas modernas na outra margem ao entardecer
O Urania, de Max Fabiani, inaugurado em 1910, fica às margens do canal do Danúbio, diante de torres contemporâneas.

Roteiro de arquitetura em Viena

  • Centro antigo: Catedral de Santo Estêvão, Haas-Haus, Looshaus na Michaelerplatz e o palácio imperial (Hofburg).
  • Ringstrasse: Ópera, museus de história da arte e de história natural, Parlamento, Prefeitura e Universidade, de preferência de bonde.
  • Karlsplatz: Karlskirche, os pavilhões da Stadtbahn de Otto Wagner e o Pavilhão da Secessão, a poucos minutos a pé.
  • Barroco fora do centro: Belvedere e Schönbrunn, com meio dia para cada um.
  • Habitação: Karl-Marx-Hof, em Heiligenstadt, e Hundertwasserhaus, no distrito de Landstraße.
  • Contemporâneo: campus da WU, Donau City com a DC Tower 1 e, para quem se interessa por urbanismo, Seestadt Aspern, no fim da linha U2 do metrô.
  • Reúso: Gasômetros de Simmering e MuseumsQuartier.

Viena responde a cada momento histórico

A arquitetura de Viena é uma sucessão de respostas a momentos históricos: o barroco da vitória sobre os otomanos e da corte dos Habsburgo, o historicismo de uma capital imperial que se abria para fora das muralhas, o modernismo de Wagner e Loos, a habitação social da Viena Vermelha e os bairros contemporâneos planejados para uma cidade que continua crescendo. O que distingue esses tipos de arquitetura entre si está no nosso quadro comparativo de estilos.

O que a torna especial é a convivência dessas camadas, e o esforço, às vezes conflituoso, de manter a cidade em transformação sem perder o que a tornou reconhecível. Para quem viaja interessado em arquitetura, Viena oferece a chance rara de ver, a poucos quilômetros de distância, a arquitetura imperial e as experiências que ajudaram a inventar a arquitetura moderna. Budapeste, a outra capital da antiga monarquia dual, viveu transformação parecida no mesmo período, como mostra o roteiro pela arquitetura de Budapeste.

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