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Valen Brasil
Investimento Imobiliário

Avaliação de marcas: métodos, cálculo e quando é necessária

Editora Valen •
Logotipos de marcas conhecidas espalhados sobre fundo branco
O valor de uma marca vem da capacidade de gerar preferência, preço maior e receitas no futuro.

Como avaliar uma marca pelos métodos de custo, mercado e renda, o cálculo por liberação de royalties, os fatores que pesam no valor e quando a avaliação tem efeito fiscal.

Avaliar uma marca é medir, em reais, quanto ela vale numa data definida, com base na sua capacidade de gerar benefícios econômicos no futuro. É usada em compra e venda de empresas, licenciamento, franquias, reorganizações societárias, disputas judiciais e na gestão da própria marca. Os métodos mais usados são a liberação de royalties (royalty relief) e o fluxo de caixa descontado.

A marca é um dos bens intangíveis de uma empresa, ao lado de patentes, softwares, carteiras de clientes e fundo de comércio. O conceito, os tipos, a contabilização e a tributação dos intangíveis estão no guia geral sobre o tema. Aqui o foco é a marca: como calcular seu valor, quais fatores pesam e quando a avaliação produz efeitos jurídicos e fiscais. Quando o objetivo é saber quanto vale o negócio inteiro, a marca entra como um dos componentes da avaliação da empresa.

Pontos principais

  • O valor de uma marca vem da capacidade de gerar preferência, fidelidade, preço maior e receitas de licenciamento, e não do quanto se gastou para criá-la.
  • As três abordagens são custo, mercado e renda. Para marcas com histórico de receitas, a abordagem de renda é a mais usada.
  • No método de liberação de royalties, a marca vale o valor presente dos royalties que a empresa deixaria de pagar por ser dona dela.
  • A proteção jurídica pesa no valor: a marca registrada no INPI tem uso exclusivo no país por 10 anos, renováveis.
  • Na compra de empresas, a mais-valia atribuída à marca só tem efeito fiscal com laudo de perito independente entregue no prazo legal.

O que é avaliação de marcas

Avaliar uma marca é transformar atributos como reconhecimento, reputação e fidelidade dos clientes em uma estimativa econômica fundamentada. O resultado é um valor numa data-base, acompanhado de premissas, fontes e cálculos.

O trabalho tem semelhança com o laudo de avaliação de um imóvel: define a finalidade, coleta dados, escolhe um método e documenta a conclusão. A diferença é que a marca raramente tem um mercado ativo de comparação, e o valor depende muito mais de projeções.

O valor de uma marca não está no custo de desenvolvê-la. Uma marca que recebeu grandes investimentos em publicidade pode valer pouco se não gera preferência, e outra, construída com pouco dinheiro, pode valer muito se os clientes pagam mais por ela. Os benefícios que sustentam o valor são, entre outros:

  • reconhecimento e preferência dos consumidores;
  • fidelização e recompra;
  • capacidade de praticar preços superiores aos da concorrência;
  • receitas de licenciamento e franquia;
  • facilidade de entrar em novos mercados e categorias.

Por que avaliar uma marca

A avaliação serve para:

  • negociar a venda da marca ou da empresa;
  • apoiar fusões e aquisições e a alocação do preço pago;
  • definir royalties em contratos de licenciamento e de franquia;
  • aportar a marca ao capital de outra sociedade;
  • orientar cisões, fusões e incorporações;
  • medir prejuízos em disputas por uso indevido;
  • acompanhar o valor do portfólio de marcas e orientar investimentos em marketing.

Antes de avaliar, muitas empresas trabalham a construção da marca: identidade, posicionamento e comunicação. Para profissionais liberais, como arquitetos, esse trabalho costuma começar com formação específica, como o curso de branding para arquitetos apresentado no blog. A avaliação mede o resultado desse esforço.

Colagem com logotipos de centenas de marcas conhecidas no mundo
A avaliação transforma reconhecimento, fidelidade e receitas em uma estimativa econômica.

As três abordagens de avaliação

Não existe um método único para todas as marcas. A escolha depende da finalidade, dos dados disponíveis e do estágio da marca.

Abordagem de custo

Estima quanto custaria criar ou reproduzir uma marca equivalente: desenvolvimento da identidade, pesquisa, publicidade, lançamento e posicionamento. É útil para marcas novas, sem histórico de receitas, ou como referência complementar. A limitação é clara: o custo histórico não mede a capacidade de gerar receitas.

Abordagem de mercado

Usa preços de transações comparáveis, como vendas de marcas e contratos de licenciamento com taxas de royalty conhecidas. O desafio é achar dados realmente comparáveis, considerando setor, território, notoriedade, exclusividade, prazo e condições contratuais. Contratos de licença costumam ser confidenciais, o que limita a abordagem.

Abordagem de renda

Calcula o valor presente dos benefícios econômicos futuros associados à marca. É a abordagem mais usada para marcas com histórico financeiro e participação relevante de mercado. Os dois métodos principais são a liberação de royalties e o fluxo de caixa descontado dos resultados atribuíveis à marca.

Método de liberação de royalties (royalty relief)

A lógica é simples: quanto a empresa teria de pagar a um terceiro para usar uma marca equivalente, se não fosse a dona dela? Como é a dona, ela deixa de pagar esses royalties. O valor da marca é o valor presente dessa economia.

O cálculo segue estas etapas:

  1. projetar as receitas que usam a marca para os próximos anos;
  2. aplicar a taxa de royalty adequada, obtendo o royalty hipotético de cada ano;
  3. descontar o imposto de renda que incidiria sobre esse valor;
  4. descontar cada valor pela taxa que reflete o risco da marca;
  5. somar um valor terminal para os anos após o período projetado, se a marca tiver vida útil indefinida.

Exemplo hipotético. Uma rede regional fatura R$ 20 milhões por ano com a própria marca, com crescimento esperado de 3% ao ano. Se a taxa de royalty adequada for de 3% da receita, o royalty evitado no primeiro ano é de R$ 600 mil; depois de 34% de imposto de renda e contribuição social, sobram cerca de R$ 396 mil. Com taxa de desconto de 15% ao ano e crescimento perpétuo de 3%, o valor presente desse fluxo fica perto de R$ 3,3 milhões (R$ 396 mil ÷ (15% − 3%)). Pequenas mudanças na taxa de royalty ou na taxa de desconto alteram bastante o resultado, por isso a análise de sensibilidade é obrigatória num laudo sério.

Na legislação tributária brasileira, os rendimentos decorrentes do uso ou da exploração de marcas são classificados como royalties (Lei 4.506/1964, art. 22), o que dá contorno legal ao pagamento hipotético simulado pelo método.

Como definir a taxa de royalty

A taxa de royalty é a premissa mais sensível do método. Pode ser definida a partir de:

  • contratos de licenciamento comparáveis;
  • bases de dados de royalties por setor;
  • margem e rentabilidade do negócio (a marca não pode receber uma fatia do lucro maior do que o negócio comporta);
  • força da marca, território e exclusividade;
  • características do contrato hipotético.

Não existe uma taxa universal por setor. Tabelas genéricas servem apenas como ponto de partida e precisam ser ajustadas às características da marca avaliada.

Quando a marca é licenciada entre empresas ligadas de países diferentes, a taxa também entra nas regras de preços de transferência. A Lei 14.596/2023 trata dos intangíveis de difícil valoração, definidos como aqueles para os quais não há comparáveis confiáveis no momento da transferência e cujas projeções são altamente incertas, e considera funções relevantes o desenvolvimento, o aprimoramento, a manutenção, a proteção e a exploração do ativo.

Fluxo de caixa descontado dos resultados da marca

Outra possibilidade é projetar diretamente os resultados que a marca gera e trazê-los a valor presente. A análise pode considerar:

  • prêmio de preço em relação a produtos sem marca ou de marca fraca;
  • volume adicional de vendas atribuível à marca;
  • retenção de clientes;
  • custos evitados;
  • investimentos necessários para manter a marca;
  • riscos do mercado e ciclo de vida da marca.

O maior desafio é separar o que é resultado da marca do que é resultado de outros ativos, como a rede de lojas, a tecnologia, a equipe ou os contratos. Por isso a modelagem precisa ser cuidadosa e bem documentada.

Qual método escolher

Liberação de royalties × fluxo de caixa descontado
AspectoLiberação de royaltiesFluxo de caixa descontado
ComplexidadeModeradaAlta
Dados necessáriosReceitas, taxa de royalty e dados de mercadoDados financeiros e operacionais detalhados
Premissa principalTaxa de royaltyResultados atribuíveis à marca
AplicaçãoAmpla, inclusive em normas contábeis e fiscaisDepende da qualidade dos dados internos
SensibilidadeTaxa de royalty, projeções e taxa de descontoProjeções, margens e taxa de desconto

Em muitas avaliações, usa-se mais de um método para uma validação cruzada: se os resultados divergem muito, uma das premissas provavelmente está errada.

O que determina o valor de uma marca

Reconhecimento

O quanto o público conhece a marca, medido por indicadores como lembrança espontânea e estimulada, "top of mind" e participação de mercado.

Alto renome

Um degrau acima do reconhecimento comum está a marca de alto renome, condição reconhecida pelo INPI para marcas muito conhecidas pelo público em geral. A lei assegura a essas marcas proteção especial em todos os ramos de atividade (Lei 9.279/1996, art. 125). Para a avaliação, isso amplia o território econômico da marca, porque a proteção não fica limitada às classes registradas, e sustenta expectativas de extensão para novas categorias.

Posicionamento e diferenciação

Clareza de posicionamento, percepção de qualidade, faixa de preço, presença nos canais de venda e vantagem competitiva.

Lealdade dos clientes

Taxa de retenção, frequência de compra, valor do cliente ao longo do tempo (lifetime value), recorrência e indicadores de satisfação, como o NPS.

Proteção jurídica

A base é o registro:

“Art. 129. A propriedade da marca adquire-se pelo registro validamente expedido, conforme as disposições desta Lei, sendo assegurado ao titular seu uso exclusivo em todo o território nacional, observado quanto às marcas coletivas e de certificação o disposto nos arts. 147 e 148.” (Lei 9.279/1996, art. 129)

A proteção dura uma década a partir da concessão e pode ser renovada sem limite, desde que o titular peça a renovação dentro do último ano (art. 133). A análise costuma começar pelas bases do INPI: classes protegidas, pedidos em exame, oposições e prazos. Marca sem registro concedido, ou protegida em classes que não cobrem a atividade real, carrega risco maior, e esse risco aparece nas projeções e na taxa de desconto.

Para valer contra terceiros, a licença de uso da marca deve ser averbada no INPI (art. 140 da mesma lei).

Desempenho financeiro

Crescimento das receitas, margens, geração de caixa, histórico de resultados e investimento em marketing.

Quando a avaliação é necessária

Fusões e aquisições

Em operações de compra de empresas, a avaliação da marca apoia a negociação do preço, a due diligence e a alocação do preço de aquisição. Para fins fiscais, o custo da participação comprada é desdobrado em três parcelas: valor de patrimônio líquido, mais ou menos-valia dos ativos avaliados a valor justo, e ágio por rentabilidade futura (goodwill). O desdobramento vem do Decreto-Lei 1.598/1977 (art. 20), com o texto dado pela Lei 12.973/2014.

A parcela de mais-valia precisa estar amparada em laudo de perito independente, protocolado na Receita Federal ou com sumário registrado em cartório de títulos e documentos até o último dia útil do 13º mês seguinte ao da aquisição. É aí que a avaliação da marca deixa de ser um exercício gerencial e passa a ter efeito fiscal, com prazo e documentação exigíveis.

Compra e venda de marcas

Quando a marca é negociada separadamente do negócio, a avaliação dá uma referência técnica para as duas partes.

Licenciamento e franquias

A avaliação ajuda a definir royalties e outras formas de remuneração. Franquia e transferência de tecnologia também passam pelo INPI: sem o registro do contrato, ele não produz efeitos contra terceiros (art. 211).

Reorganizações societárias

Em incorporações, cisões e aportes de capital, a marca pode ser um dos bens transferidos. Quando bens são conferidos ao capital social de uma sociedade anônima, o art. 8º da Lei 6.404/1976 exige laudo de três peritos ou de uma empresa especializada, escolhidos pela assembleia dos subscritores.

Disputas e partilhas

Em ações por uso indevido de marca, a avaliação ajuda a estimar os royalties que o infrator deixou de pagar. Em inventários, divórcios e dissolução de sociedades, a marca pode ser um dos bens a partilhar.

Erros comuns na avaliação de marcas

  • Confundir valor com custo. Somar o que se gastou em publicidade não diz quanto a marca vale.
  • Usar taxa de royalty de tabela sem ajuste. Taxas médias de um setor podem não servir para uma marca regional, nova ou muito forte.
  • Atribuir à marca resultados de outros ativos. Parte do lucro vem da localização das lojas, da tecnologia, da equipe ou de contratos, e não da marca.
  • Ignorar a situação no INPI. Registro vencido, pedido em oposição ou classe errada mudam o risco e o valor.
  • Não testar a sensibilidade. Um único número, sem mostrar como ele muda com as premissas, dá falsa precisão.
  • Avaliar sem finalidade definida. O valor para uma venda, para uma partilha e para fins contábeis pode ser diferente, porque os conceitos de valor mudam.

Marcas no mercado imobiliário

No setor imobiliário, a marca também tem peso econômico. O nome de uma incorporadora conhecida pela qualidade e pela entrega no prazo ajuda a vender unidades na planta e pode sustentar preços maiores. Empreendimentos com nome forte, como condomínios-clube e edifícios de alto padrão, criam uma identidade que acompanha a revenda das unidades. Imobiliárias e administradoras de imóveis também têm marcas que atraem proprietários e clientes. Para o investidor que compra imóveis para alugar ou revender, a reputação da incorporadora é um dos fatores de valorização a observar, ao lado de localização e liquidez; outras estratégias estão no artigo sobre como ganhar dinheiro com imóveis.

Quando uma dessas empresas é vendida ou reorganizada, a marca entra na avaliação ao lado dos imóveis, dos contratos e da carteira de clientes. Separar o que é valor da marca do que é valor dos imóveis evita contar o mesmo valor duas vezes e deixa a negociação mais transparente.

Avaliação de marcas e normas contábeis

A contabilização de intangíveis segue o CPC 04 – Ativo Intangível, convergente com o IAS 38. Uma regra importante: marcas geradas internamente não são reconhecidas como ativo no balanço. A marca só aparece quando é adquirida, sozinha ou numa compra de empresa.

Na compra de empresas, a identificação e a mensuração dos ativos adquiridos seguem o CPC 15 – Combinação de Negócios, e o valor justo é medido conforme o CPC 46 – Mensuração do Valor Justo, convergente com o IFRS 13. Marcas com vida útil indefinida não são amortizadas, mas passam por teste anual de recuperação.

Etapas de uma avaliação de marca

  1. Finalidade: definir para que serve a avaliação e qual conceito de valor se aplica (valor justo, valor de mercado, valor para um comprador específico).
  2. Levantamento: reunir demonstrações financeiras, projeções, contratos, registros no INPI, pesquisas de mercado e dados de concorrentes.
  3. Análise da marca: reconhecimento, posicionamento, proteção jurídica, lealdade dos clientes e riscos.
  4. Escolha do método: um ou mais, conforme os dados e a finalidade.
  5. Modelagem: projeções de receitas, taxa de royalty ou resultados atribuíveis, taxa de desconto.
  6. Cálculo e sensibilidade: aplicar as premissas e testar como o resultado muda com cada uma.
  7. Laudo: documentar premissas, fontes, cálculos e conclusões, de modo que outro profissional consiga revisar o trabalho.

Por que fazer uma avaliação técnica

Avaliar uma marca exige interpretar dados financeiros e de mercado, escolher referências comparáveis e justificar premissas que mudam muito o resultado. Uma avaliação documentada dá transparência à negociação e resiste melhor a questionamentos de sócios, compradores, auditores e da Receita Federal. Números sem premissas explicadas, por outro lado, raramente convencem a outra parte.

Como escolher o método de avaliação da marca

Avaliar uma marca é estimar quanto ela contribui para os resultados futuros da empresa. Os métodos de liberação de royalties e de fluxo de caixa descontado oferecem caminhos diferentes, e a escolha depende da finalidade, dos dados disponíveis e da maturidade da marca. O registro no INPI, o reconhecimento pelo público e a lealdade dos clientes estão entre os fatores que mais pesam no valor.

A marca raramente é o único ativo relevante de uma empresa. Se a empresa também tem imóveis, esses bens são avaliados à parte, pela norma técnica específica para imóveis. A Valen Brasil não avalia marcas, mas prepara laudos de imóveis em Santa Catarina, úteis quando uma empresa, holding ou operação societária inclui bens imóveis.

Perguntas frequentes

O que é avaliação de marcas?

É o trabalho que mede o valor econômico de uma marca numa data definida, com base na sua capacidade de gerar benefícios futuros, como preferência dos clientes, preço maior e receitas de licenciamento.

Qual o método mais usado para avaliar uma marca?

A liberação de royalties (royalty relief), que calcula o valor presente dos royalties que a empresa deixaria de pagar por ser dona da marca. O fluxo de caixa descontado dos resultados da marca é usado quando há dados detalhados.

A marca aparece no balanço da empresa?

Só quando foi adquirida. Pelo CPC 04, a marca construída pela própria empresa não é reconhecida como ativo, mesmo que tenha grande valor de mercado.

O registro no INPI influencia o valor da marca?

Sim. O registro dá uso exclusivo em todo o país por 10 anos, renováveis. Marca sem registro ou registrada em classes que não cobrem a atividade real tem risco maior, o que reduz o valor.

Quando a avaliação da marca é obrigatória?

Em algumas operações: na alocação do preço de compra de empresas, para aproveitar fiscalmente a mais-valia, exige-se laudo de perito independente no prazo legal; no aporte de bens ao capital de sociedade anônima, a lei exige avaliação por peritos ou empresa especializada.

Quem pode avaliar uma marca?

Não há profissão com exclusividade legal. Na prática, quem avalia marcas são consultorias de avaliação de intangíveis e profissionais de finanças, economia e contabilidade, e a qualidade do laudo depende das premissas e da documentação.

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