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Arquitetura

Norman Foster: biografia, obras e legado do arquiteto britânico

Editora Valen •
Norman Foster de braços abertos, visto através de uma escultura vazada, com maquetes de torres ao fundo, entre elas a do 30 St Mary Axe
Norman Foster entre maquetes; ao fundo, a do 30 St Mary Axe, o Gherkin, em Londres

Norman Foster, do subúrbio de Manchester ao Pritzker: formação, Foster + Partners, HSBC, Reichstag, Gherkin, Apple Park, prêmios e obras no Brasil.

Norman Foster é um arquiteto britânico nascido em 1935 perto de Manchester, fundador do escritório Foster + Partners e um dos nomes centrais da arquitetura high-tech. De uma família operária de Stockport, chegou ao Prêmio Pritzker em 1999 e ao título de Lord Foster of Thames Bank no mesmo ano. Entre as obras mais conhecidas estão a sede do HSBC em Hong Kong, a cúpula do Reichstag em Berlim, o 30 St Mary Axe (o "Gherkin"), em Londres, a Millennium Bridge e o Apple Park, na Califórnia. Nas últimas décadas, o escritório e a fundação que leva seu nome passaram a tratar cada vez mais de sustentabilidade, cidades e moradia para populações deslocadas.

Este texto reúne a biografia, a formação, o modo de trabalho do escritório, as principais obras com dados das fontes oficiais, os prêmios, a atuação no Brasil e o trabalho da Norman Foster Foundation. Para quem trabalha com arquitetura sustentável, a trajetória de Foster é um bom estudo de caso de como desempenho ambiental, estrutura e desenho podem ser pensados juntos desde o início do projeto.

Pontos principais

  • Norman Robert Foster nasceu em 1º de junho de 1935, em Reddish, Stockport, e cresceu em Levenshulme, subúrbio de Manchester.
  • Estudou arquitetura na Universidade de Manchester (formado em 1961) e fez mestrado em Yale com a bolsa Henry Fellowship, onde conheceu Richard Rogers.
  • Fundou o Team 4 em 1963 e, em 1967, a Foster Associates, hoje Foster + Partners.
  • Recebeu a Royal Gold Medal do RIBA (1983), a Medalha de Ouro do AIA (1994), o Prêmio Pritzker (1999) e o Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes (2009).
  • O escritório é o único a ter vencido o Prêmio Stirling três vezes: American Air Museum (1998), 30 St Mary Axe (2004) e Bloomberg London (2018).
  • No Brasil, o Foster + Partners assina o AQWA Corporate, no Rio de Janeiro, e o residencial Tempo by Müze, na Praia Brava, em Itajaí.

Biografia e origens de Norman Foster

Norman Robert Foster nasceu em 1º de junho de 1935 em Reddish, a cerca de três quilômetros de Stockport, na região de Manchester, na Inglaterra. Foi filho único de Robert e Lilian Foster (nascida Smith). A família se mudou para Levenshulme, subúrbio vizinho de Manchester, onde viveu com pouco dinheiro. O pai era pintor de máquinas na fábrica da Metropolitan-Vickers, em Trafford Park, e a mãe trabalhava em uma padaria do bairro. O trabalho do pai é apontado como uma das influências que despertaram o interesse por engenharia, desenho e, mais tarde, arquitetura.

Estudou na Burnage Grammar School for Boys. Aos 16 anos, deixou a escola e passou em uma prova para um programa de formação da prefeitura de Manchester (Manchester Town Hall), onde teve o primeiro emprego, como auxiliar de escritório no departamento do tesouro municipal. Não era ainda um trabalho ligado à arquitetura, mas foi a porta de entrada para o mercado de trabalho.

Em 1953, prestou o serviço militar obrigatório na Royal Air Force (RAF), a força aérea britânica, escolhida porque aviões eram um passatempo antigo. O gosto por aeronaves, com sua leveza e a precisão de componentes industrializados, costuma ser associado pelos críticos à obra posterior.

De volta a Manchester, conseguiu uma vaga como assistente de um gerente de contratos no escritório de arquitetura John E. Beardshaw and Partners. Os colegas sugeriram que, se quisesse ser arquiteto, montasse um portfólio de desenhos tomando como modelo as perspectivas e os desenhos de execução do escritório. Beardshaw gostou tanto do resultado que o transferiu para a equipe de desenho. Foi ali que a ideia de estudar arquitetura se consolidou.

Formação acadêmica e início da carreira

Em 1956, Foster entrou no curso de arquitetura e planejamento urbano da Universidade de Manchester. Sem direito a bolsa de manutenção, sustentou-se com trabalhos temporários: vendedor de sorvete, segurança de boate e turnos noturnos em uma padaria. Estudava também na biblioteca pública de Levenshulme. Em 1959, ganhou uma medalha de prata do RIBA, o instituto dos arquitetos britânicos, e um prêmio em dinheiro por um desenho de levantamento de um moinho de vento em Cambridgeshire.

Depois de se formar, em 1961, recebeu a bolsa Henry Fellowship para estudar na Escola de Arquitetura de Yale, nos Estados Unidos, onde fez o mestrado em arquitetura. Em Yale conheceu Richard Rogers, que seria seu sócio no primeiro escritório. Por sugestão do historiador da arte Vincent Scully, professor em Yale, os dois viajaram pelo país durante um ano para estudar arquitetura americana. O contato com a escala, a industrialização e a cultura técnica dos Estados Unidos marcou os dois arquitetos, que depois seguiriam caminhos próprios dentro da arquitetura high-tech.

Ilustração de estudantes caminhando por um campus universitário, entre prédios de tijolo aparente e um portal de pedra
Imagem ilustrativa de um campus universitário americano; foi em Yale que Foster conheceu Richard Rogers

Em 1963, de volta ao Reino Unido, Foster fundou o Team 4 com Richard Rogers, Su Brumwell, então mulher de Rogers, e duas irmãs, Georgie e Wendy Cheesman. Entre os primeiros trabalhos estava o Cockpit, uma pequena bolha de vidro instalada na Cornualha, cujas ideias de leveza e transparência voltariam em projetos posteriores. O grupo se separou em 1967. Foster casou-se com Wendy Cheesman em 1964; ela foi sócia dele no novo escritório até morrer, em 1989.

Como a profissão é regulada no Brasil

A sequência de Foster (diploma em 1961, mestrado em seguida e escritório próprio em 1963) seguiu regras britânicas. No Brasil, o exercício da profissão é regulado pela Lei 12.378/2010, que instituiu o conselho federal da profissão, o CAU/BR, e os conselhos dos estados e do Distrito Federal. Pelo art. 5º, o registro no CAU do estado é obrigatório para usar o título de arquiteto e urbanista e para exercer as atividades privativas correspondentes, e esse registro habilita o profissional a atuar em todo o território nacional.

O art. 2º da mesma lei descreve o que cabe ao arquiteto e urbanista, e a lista vai além da prancheta: entram a direção de obra e de serviço técnico, o estudo de viabilidade técnica e ambiental e também trabalhos periciais, como vistorias, laudos, pareceres e avaliações, ao lado de auditoria e arbitragem (inciso VI). O art. 6º condiciona o registro à capacidade civil e ao diploma de graduação em arquitetura e urbanismo obtido em instituição de ensino superior reconhecida pelo poder público. Diplomas obtidos no exterior, como o de Foster, precisam ser revalidados por instituição brasileira credenciada (art. 6º, § 1º), e a lei admite registro temporário, em caráter excepcional, para profissionais estrangeiros sem domicílio no país (art. 6º, § 2º).

Estilo arquitetônico e filosofia de projeto

A arquitetura de Foster parte da ideia de que o edifício é um sistema em que estrutura, instalações, luz, ventilação e uso precisam ser resolvidos juntos. Uma influência importante foi o engenheiro e inventor americano Buckminster Fuller, com quem Foster colaborou entre 1968 e 1983 em vários projetos, entre eles o Climatroffice, uma proposta teórica de envoltória contínua que unia paredes e cobertura em uma pele triangulada. O Foster + Partners cita esse projeto como precursor do 30 St Mary Axe.

Foster é apontado como um dos pioneiros da arquitetura high-tech, com uso intenso de aço, vidro e componentes pré-fabricados. A estrutura fica à mostra e vira parte da expressão do edifício, em vez de ser escondida. Na sede do HSBC, em Hong Kong, a estrutura suspensa por mastros de aço permitiu tirar os núcleos de serviço do centro da planta e liberar andares profundos em torno de um átrio.

A luz natural é outro tema constante. Átrios, fachadas envidraçadas e elementos refletores levam luz para o interior. No HSBC, um "sunscoop" espelhado reflete a luz do sol átrio abaixo, até a praça pública no térreo; no Reichstag, um cone de espelhos no centro da cúpula leva a luz do horizonte para o plenário.

A ventilação natural aparece em vários edifícios. No 30 St Mary Axe, a forma da torre cria diferenças de pressão na fachada que são aproveitadas para ventilar os átrios em espiral, reduzindo o uso de ar-condicionado. No Apple Park, segundo a Apple, o edifício principal foi desenhado para dispensar aquecimento e ar-condicionado durante boa parte do ano.

A flexibilidade de uso também é valorizada. Plantas livres e sistemas modulares permitem reorganizar os espaços com o tempo. O Foster + Partners registra que o banco HSBC conseguiu reconfigurar os escritórios ao longo dos anos, inclusive para instalar uma grande sala de operações, algo que não estava previsto no projeto original.

Já nos anos 1970, no edifício da seguradora Willis Faber & Dumas em Ipswich, Foster defendia que o local de trabalho podia ser agradável: o edifício tinha piscina e jardim na cobertura para os funcionários. O júri do Pritzker citou exatamente esse projeto como exemplo da dimensão social do trabalho do arquiteto.

Foster + Partners: o escritório

Depois da separação do Team 4, em 1967, Foster abriu com Wendy Cheesman a Foster Associates, em Londres. O escritório passou a se chamar Foster and Partners em 1999 e hoje usa a marca Foster + Partners. Segundo o próprio escritório, trata-se de um estúdio global de arquitetura sustentável, urbanismo, engenharia e design, com escritórios em várias cidades do mundo e equipes que falam mais de 60 idiomas.

Nos primeiros anos, a Foster Associates se concentrou em edifícios industriais. Em 1969 veio o centro administrativo e de lazer da Fred. Olsen Lines, nas docas de Londres, que colocava operários e gerentes no mesmo espaço. Em 1970, o escritório fez um edifício de escritórios inflável para a Computer Technology Limited, perto de Hemel Hempstead. A virada veio com o edifício-sede da seguradora Willis Faber & Dumas, em Ipswich, concluído em 1975 e hoje tombada no grau mais alto de proteção britânico (Grade I), e com o Sainsbury Centre for Visual Arts, em Norwich.

Na biografia publicada pelo Prêmio Pritzker em 1999, o escritório aparecia com projetos em mais de vinte países e mais de 400 prêmios e menções desde a fundação. O leque de trabalhos vai de planos urbanos, infraestrutura e aeroportos a edifícios culturais, escritórios, casas e desenho de produto.

O escritório tem uma estrutura própria de governança. Segundo o Foster + Partners, os sócios, todos acionistas, são o núcleo da prática e respondem pelos projetos, distribuídos entre os estúdios de arquitetura. Um Design Board revisa todos os projetos em todas as fases; um Management Board cuida da gestão diária; e um Partnership Board define a direção estratégica. As equipes de arquitetura trabalham com times internos de engenharia estrutural e ambiental, sustentabilidade, urbanismo e paisagismo, design industrial, interiores, tecnologia e pesquisa.

Ilustração de um escritório de arquitetura claro, com equipe trabalhando em mesas coletivas diante de painéis com desenhos
Imagem ilustrativa de um escritório de arquitetura; no Foster + Partners, um Design Board revisa todos os projetos

Esse modelo integra várias disciplinas desde o primeiro esboço. A análise energética, os estudos de insolação e a simulação de ventilação entram no início do projeto, e não como ajuste posterior. É uma forma de trabalhar que também interessa ao mercado imobiliário: edifícios com menor custo de operação e maior flexibilidade de uso tendem a manter melhor o valor ao longo do tempo.

Expansão internacional

O escritório tem estúdios em cidades como Londres, Abu Dhabi, Bangkok, Pequim, Dubai, Hong Kong, Los Angeles, Madri, Miami, Nova York, Riad, São Francisco, Seul, Xangai, Shenzhen, Singapura, Sydney e Varsóvia, segundo a lista divulgada pelo próprio Foster + Partners. A presença em tantos mercados permite trabalhar com climas, culturas e legislações muito diferentes.

Projetos como o 30 St Mary Axe, em Londres, o Reichstag, em Berlim, e o Apple Park, nos Estados Unidos, mostram a combinação de desenho, tecnologia e desempenho ambiental que se tornou marca do escritório. No campo da infraestrutura, o Foster + Partners projetou aeroportos como o terminal de Stansted, em Londres, e o de Chek Lap Kok, em Hong Kong, além de estações como a de Canary Wharf, na linha Jubilee do metrô de Londres.

O escritório também trabalha com planejamento urbano. Em Abu Dhabi, fez o masterplan original de Masdar City, de 2007, pensado como laboratório de tecnologias e estratégias de urbanismo sustentável, segundo a própria Masdar (projeto de Masdar nos Emirados Árabes Unidos). A experiência em planos urbanos se soma hoje ao trabalho da Norman Foster Foundation e do Norman Foster Institute sobre cidades.

Foster + Partners no Brasil

No Rio de Janeiro, o Foster + Partners projetou o AQWA Corporate, conjunto de escritórios na orla do Porto Maravilha, área de revitalização da zona portuária. Segundo o escritório, são duas torres de 22 andares com 125 mil m² de escritórios, comércio e espaços públicos na base, uma praça central de pedestres e um parque linear de 400 metros ao longo do mar. O projeto foi desenhado para obter certificação LEED Gold e usa sombreamento das fachadas adaptado ao clima tropical.

Em Santa Catarina, o residencial Tempo by Müze, na Praia Brava, em Itajaí, tem arquitetura do Foster + Partners, segundo o site oficial do empreendimento. Os detalhes estão no texto sobre o projeto do Foster + Partners na Praia Brava. Obras de arquitetos com projeção internacional costumam ter efeito sobre a imagem e o valor dos imóveis da região, algo que entra na análise de mercado em avaliações de imóveis de alto padrão.

Principais obras e projetos

O portfólio de Foster inclui algumas das obras mais citadas da arquitetura contemporânea. As seções a seguir reúnem dados das fontes oficiais de cada projeto.

30 St Mary Axe (The Gherkin), Londres

O 30 St Mary Axe, conhecido como "The Gherkin" (pepino, em inglês) por causa da forma, é um dos edifícios mais reconhecíveis da City de Londres. Foi encomendado pela resseguradora Swiss Re e inaugurado em 2004. O registro do projeto no diretório do RIBA aponta 41 pavimentos e 76.400 m² de área construída; o Foster + Partners descreve 40 andares com 46.400 m² líquidos de escritórios, além de lojas e cafés em torno de uma praça nova. No topo, um salão tem vista de 360 graus da cidade.

A planta é circular e o edifício se alarga à medida que sobe, afinando de novo no topo. Segundo o escritório, a forma parece mais esbelta do que um bloco retangular do mesmo tamanho, libera espaço público no térreo e reduz as deflexões do vento, mantendo o conforto na rua. A estrutura em diagonal permite andares sem pilares e fachada toda envidraçada.

Entre os "dedos" de cada andar há átrios que se ligam verticalmente e sobem em espiral. Eles funcionam como os pulmões do prédio, distribuindo ar fresco que entra por painéis que se abrem na fachada, e são também espaços de convivência. Segundo o Foster + Partners, esse sistema reduz a dependência de ar-condicionado e, com outras medidas, faz o edifício usar apenas metade da energia de uma torre de escritórios convencional com ar-condicionado.

O terreno era o da Baltic Exchange, danificada sem possibilidade de recuperação por uma bomba do IRA em 1992. Antes do Gherkin, o escritório chegou a propor para o local a London Millennium Tower, com 385 metros, considerada alta demais para o horizonte de Londres. Em 2004, o 30 St Mary Axe recebeu o Prêmio Stirling.

Reichstag, Berlim

A restauração do Reichstag foi feita entre 1995 e 1999 para receber o parlamento da Alemanha reunificada; as chaves foram entregues ao presidente do Bundestag em 19 de abril de 1999. Segundo o Foster + Partners, o edifício encontrado estava mutilado pela guerra e por reformas pouco cuidadosas. O projeto removeu camadas posteriores e preservou marcas do passado, como marcas de canteiros e grafites em russo, como um "museu vivo".

A nova cúpula de vidro e aço virou símbolo de Berlim. Público e parlamentares entram pelo mesmo acesso, e rampas dentro da cúpula levam a uma plataforma de observação acima do plenário, de modo que os cidadãos ficam simbolicamente acima de seus representantes. No centro da cúpula, um cone de espelhos reflete a luz do horizonte para o plenário, e um anteparo móvel acompanha o sol para evitar ganho de calor e ofuscamento. À noite, a cúpula iluminada funciona como farol.

O desempenho energético também foi pensado. Segundo o escritório, o edifício usa biocombustível (óleo vegetal refinado) em um sistema de cogeração, o que reduziu em 94% as emissões de dióxido de carbono; o calor excedente é armazenado em um aquífero subterrâneo e usado depois para aquecer ou resfriar. O escritório afirma que o edifício pode produzir mais energia do que consome.

Além da cúpula, o Bundestag atribui a Foster o desenho do verso da águia federal do plenário, peça de 58 metros quadrados e 2,5 toneladas; a frente segue o desenho original de Ludwig Gies, de 1953, para o plenário de Bonn.

Apple Park, Cupertino

Foster trabalhou com Steve Jobs a partir de cerca de 2009 no projeto da nova sede da Apple, e a diretoria e a equipe da empresa continuaram o trabalho com o escritório depois da morte de Jobs, em 2011. O edifício circular foi aberto aos funcionários em abril de 2017.

Segundo o Foster + Partners, o terreno tem 71 hectares e antes era dominado por superfícies impermeáveis. Com o projeto, a área verde passou de 20% para 80%, com mais de seis quilômetros de trilhas e mais de 9 mil árvores, incluindo carvalhos nativos e pomares. O campus reúne o edifício em anel (Ring Building), o Steve Jobs Theater, um centro de bem-estar, um centro de visitantes e estacionamentos.

O campus é abastecido com 100% de energia renovável e, segundo o escritório, é o maior edifício de escritórios com certificação LEED Platinum da América do Norte. O comunicado da Apple sobre a abertura do campus registra 17 megawatts de painéis solares no telhado e um edifício principal de ventilação natural, projetado para dispensar aquecimento e ar-condicionado durante nove meses do ano.

Ilustração em vista aérea de um edifício circular envidraçado cercado por árvores e gramados
Imagem ilustrativa inspirada no Apple Park, cujo terreno de 71 hectares passou a ter 80% de área verde

O anel tem lajes de concreto pré-moldado com vãos de até 15 metros, que funcionam como estrutura e forro e incorporam aquecimento e resfriamento radiante. As passarelas no perímetro usam, segundo o escritório, as maiores placas de vidro curvo já fabricadas. No restaurante, portas de vidro com 15 metros de altura e 55 metros de largura deslizam sobre trilhos e abrem o salão para o parque.

Millennium Bridge, Londres

A Millennium Bridge, desenvolvida com o escultor Anthony Caro e a engenharia da Arup a partir de um concurso internacional, liga a City e a Catedral de St. Paul, ao norte do Tâmisa, ao Globe Theatre e à Tate Modern, ao sul. Segundo o Foster + Partners, foi a primeira travessia nova nesse trecho do rio em mais de um século.

É uma ponte pênsil muito rasa, com 320 metros de vão. Dois suportes em forma de Y sustentam oito cabos que correm pelas laterais do tabuleiro de 4 metros de largura, e braços transversais de aço se prendem aos cabos a cada 8 metros. Os cabos nunca sobem mais de 2,3 metros acima do tabuleiro, o que deixa a vista livre para quem atravessa. De dia, a ponte parece uma fita de aço; à noite, iluminada, vira uma "lâmina de luz".

A ponte abriu em junho de 2000 e cerca de 100 mil pessoas a atravessaram no primeiro fim de semana. Com esse movimento, apresentou oscilação lateral maior do que a esperada e foi fechada temporariamente. As pesquisas mostraram que o balanço era causado pelo passo sincronizado dos pedestres, fenômeno até então pouco conhecido. A solução foi instalar amortecedores sob o tabuleiro, e a ponte foi reaberta em fevereiro de 2002. Segundo o escritório, as pesquisas feitas pelos engenheiros levaram a mudanças nas normas de projeto de pontes em vários países.

Sede do HSBC, Hong Kong

A sede do Hongkong and Shanghai Banking Corporation foi concluída em novembro de 1985 e inaugurada oficialmente em abril de 1986. Foi o projeto que consolidou a reputação internacional de Foster e, na época, o edifício mais caro já construído. O pedido do banco era criar "o melhor edifício bancário do mundo", em um momento sensível da história da então colônia britânica; o processo de projeto incluiu até a consulta a um especialista em feng shui.

A necessidade de construir mais de 1 milhão de pés quadrados (cerca de 93 mil m²) em pouco tempo levou a muita pré-fabricação, com módulos acabados em fábrica. Como era preciso construir para baixo e para cima ao mesmo tempo, o escritório adotou uma estrutura suspensa, com pares de mastros de aço em três vãos. O resultado são três torres escalonadas, com 29, 36 e 44 andares.

Os mastros permitiram levar os núcleos de serviço para o perímetro e criar andares profundos em torno de um átrio de dez andares. Um "sunscoop" espelhado reflete a luz do sol até a praça pública no térreo, que nos fins de semana virou ponto de piquenique. Da praça, escadas rolantes sobem pelo vão envidraçado até o salão do banco, pensado como uma "vitrine" bancária. Segundo o Foster + Partners, quase todos os componentes foram desenhados especialmente para o edifício, fabricados em linhas de produção próprias e enviados a Hong Kong para montagem.

Aeroporto de Chek Lap Kok, Hong Kong

Uma década depois do HSBC veio o segundo marco de Foster em Hong Kong. Concluído em 1998 como terminal aéreo único da cidade, o aeroporto de Chek Lap Kok foi erguido sobre uma ilha montanhosa refeita por um programa de aterro: o pico de 100 metros foi rebaixado a 7 metros acima do nível do mar e a ilha passou a ter quatro vezes a área original, equivalente à península de Kowloon.

O terminal desenvolve o partido que o escritório havia testado em Stansted: cobertura leve e livre de instalações, iluminação natural e a concentração de bagagem, serviços ambientais e transporte sob o saguão principal. A direção das abóbadas se mantém constante ao longo de todo o edifício, mesmo onde os braços do terminal mudam de rumo, o que transforma a própria cobertura em referência de orientação para quem chega e para quem parte. O júri do Pritzker de 1999 citou o terminal como o maior do mundo na época.

Ilustração de uma torre envidraçada azul com fachada facetada contra o céu, com prédios ao fundo
Imagem ilustrativa de torre envidraçada; não retrata a sede do HSBC em Hong Kong, que tem estrutura de mastros de aço aparente

Outras obras citadas pelo júri do Pritzker

A citação do júri do Pritzker, em 1999, destacou ainda o Commerzbank, em Frankfurt, então o edifício mais alto da Europa e descrito como talvez o primeiro arranha-céu com consciência ecológica; o Carré d'Art, centro cultural ao lado de um templo romano em Nîmes, na França; as Sackler Galleries da Royal Academy of Arts, em Londres; a ampliação do Joslyn Museum, em Omaha; e a reforma do Great Court do British Museum. O júri mencionou também o trabalho de Foster em desenho de produto, de maçanetas e móveis a um ônibus movido a energia solar.

Prêmios e reconhecimentos

A carreira de Foster reúne as principais honrarias da arquitetura.

Principais prêmios e títulos de Norman Foster
AnoPrêmio ou títuloFonte
1983Royal Gold Medal, do RIBAPrêmio Pritzker (biografia); RIBA
1990Título de cavaleiro (Sir)Prêmio Pritzker (biografia)
1991Medalha de Ouro da Academia de Arquitetura da FrançaPrêmio Pritzker (biografia)
1994Medalha de Ouro do American Institute of Architects (AIA)Prêmio Pritzker (biografia)
1997Ordem do Mérito (Order of Merit)Wikipédia (London Gazette)
1998Prêmio Stirling: American Air Museum, DuxfordFoster + Partners; RIBA
1999Prêmio Pritzker; par vitalício como Lord Foster of Thames BankPrêmio Pritzker
2002Praemium ImperialeWikipédia
2004Prêmio Stirling: 30 St Mary AxeFoster + Partners; RIBA
2007Prêmio Aga Khan de Arquitetura (Universidade de Tecnologia Petronas, Malásia; ciclo 2005–2007)Aga Khan Development Network (via Wikipédia)
2009Prêmio Príncipe de Astúrias das ArtesFundação Princesa de Astúrias
2018Prêmio Stirling: Bloomberg LondonFoster + Partners; RIBA

O Prêmio Pritzker, recebido em 1999, é a principal distinção internacional da arquitetura. Foster foi o 21º laureado. A citação do júri destacou a busca da arte e da ciência da arquitetura, a preocupação com o meio ambiente, o uso da tecnologia mais avançada adequada a cada tarefa e a atenção ao bem-estar de quem usa os edifícios. O prêmio foi dado pela dedicação à arquitetura como forma de arte, pela contribuição a uma arquitetura de alto padrão tecnológico e pela atenção aos valores humanos envolvidos em projetos bem desenhados.

A Medalha de Ouro do American Institute of Architects (AIA), concedida em 1994, é a maior honraria do instituto americano; o fato de ter sido dada a um arquiteto britânico mostra o alcance internacional da obra. Onze anos antes, em 1983, ele já havia recebido a Royal Gold Medal, medalha que o RIBA concede em nome do soberano britânico e que é cunhada pela Royal Mint desde 1848; na mesma lista aparecem os brasileiros Oscar Niemeyer, em 1998, e Paulo Mendes da Rocha, em 2017.

O Prêmio Stirling foi lançado em 1996 e vai a cada ano a um edifício construído no Reino Unido, escolhido entre os vencedores dos RIBA National Awards. O Foster + Partners é o único escritório a vencê-lo três vezes: com o American Air Museum, em Duxford (1998), o 30 St Mary Axe (2004) e a sede europeia da Bloomberg, em Londres (2018). Obras anteriores, como o Sainsbury Centre e a sede da Willis Faber & Dumas, são da década de 1970 e, portanto, anteriores ao prêmio.

O Prêmio Aga Khan de Arquitetura, concedido a cada três anos, premiou Foster pela Universidade de Tecnologia Petronas, na Malásia, no ciclo de 2005 a 2007. O prêmio reconhece projetos em sociedades com presença muçulmana significativa e dá peso à relação da obra com o contexto cultural e social.

O Prêmio Princesa das Astúrias na categoria Artes foi concedido em 2009, quando a distinção ainda se chamava Prêmio Príncipe das Astúrias das Artes. É um dos principais prêmios culturais da Espanha, país onde Foster tem estúdio e onde fica a sede da sua fundação.

Foster foi feito cavaleiro em 1990, entrou para a Ordem do Mérito em 1997 e, dois anos depois, foi elevado a par vitalício, com o título de Baron Foster of Thames Bank, de Reddish. É membro da Royal Academy of Arts desde 1991 e membro honorário da Royal Academy of Engineering desde 1995.

Norman Foster Foundation

A Norman Foster Foundation foi criada em Londres em 1999 e tem sede em Madri desde 2017, em um palacete de 1912 projetado por Joaquín Saldaña. É uma instituição sem fins lucrativos, registrada no cadastro de fundações culturais do Ministério da Justiça da Espanha, que se apresenta como promotora de pensamento e pesquisa interdisciplinares para ajudar as próximas gerações de profissionais do ambiente construído a se preparar para o futuro.

A fundação mantém um arquivo, aberto à consulta de pesquisadores, e publica livros e estudos. Os programas educacionais reúnem bolsistas de várias áreas em seminários, oficinas e debates com profissionais convidados, conectando arquitetura, engenharia, tecnologia, sustentabilidade e ciências sociais.

Na área de formação, o nome de Foster também está na bolsa de viagem RIBA Norman Foster, concedida pelo RIBA a estudantes indicados por escolas de arquitetura convidadas, com tema ligado a cidades sustentáveis. A bolsa financia uma viagem de pesquisa.

A fundação criou ainda o Norman Foster Institute, dedicado a temas urbanos. O foco em cidades acompanha a mudança de interesse do próprio Foster, que nas últimas décadas passou a falar cada vez mais de densidade urbana sustentável.

Debates públicos e conferências promovidos pela fundação reúnem profissionais, acadêmicos e público em geral sobre temas como mobilidade, moradia, energia e resiliência urbana. Esses encontros ajudam a levar a discussão sobre arquitetura para fora do meio profissional.

Sustentabilidade e compromisso social

O compromisso de Foster com a sustentabilidade vai além dos projetos comerciais e inclui iniciativas voltadas a populações vulneráveis.

O Essential Homes Research Project é uma dessas iniciativas. Desenvolvido pela Norman Foster Foundation com a Holcim, propõe um modelo de moradia para pessoas deslocadas por desastres naturais ou conflitos, que muitas vezes passam décadas em assentamentos temporários. A fundação desenhou o conceito, e a Holcim entrou com soluções construtivas de baixo carbono.

Segundo a parceria com a Holcim, o protótipo usa lâminas de concreto enroláveis de baixo carbono como casca externa, caminhos permeáveis de concreto de baixo carbono, isolamento térmico e acústico e base feita com resíduos de construção e demolição reciclados. Os componentes são modulares e podem ser reutilizados ou reciclados. A empresa informa pegada de CO2 cerca de 70% menor que a de uma construção convencional.

O protótipo em tamanho real foi apresentado em Veneza em maio de 2023, durante a Bienal de Veneza 2023, na exposição Time Space Existence, com o protótipo nos Giardini della Marinaressa e a mostra no Palazzo Mora, de 20 de maio a 26 de novembro de 2023. A exposição, paralela à Bienal, não fazia parte da mostra oficial.

Em outubro de 2022, Foster lançou em San Marino, na 83ª sessão do Comitê de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Gestão da Terra da Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa (UNECE), a Declaração de San Marino. O documento, adotado por governos, reúne princípios para um desenho urbano e uma arquitetura sustentáveis e inclusivos, como centralidade das pessoas, respeito à identidade cultural, eficiência no uso de recursos, circularidade, segurança e saúde. Foster e outros arquitetos assinaram simbolicamente os princípios no lançamento.

Em maio de 2022, foi anunciado que Foster ajudaria a planejar a reconstrução de cidades da Ucrânia depois da guerra. O escritório também trabalha com ferramentas digitais de simulação ambiental e com estratégias de economia circular, que consideram o ciclo de vida do edifício, da construção à eventual desmontagem e reciclagem.

Legado e influência na arquitetura contemporânea

O legado de Foster vai além das obras individuais. Ele ajudou a mudar a expectativa sobre o que um edifício de escritórios, um aeroporto ou um parlamento podem oferecer a quem os usa. O prédio da Willis Faber & Dumas, com piscina e jardim na cobertura, antecipou a discussão sobre qualidade do local de trabalho; o Commerzbank e o 30 St Mary Axe mostraram que torres de escritórios podiam ter ventilação natural e consumo menor de energia.

Nos aeroportos e estações, a cobertura leve com luz natural e as instalações concentradas no subsolo, testadas em Stansted e ampliadas em Chek Lap Kok, influenciaram a forma de projetar terminais. No Reichstag, a cúpula aberta ao público virou referência de como a arquitetura pode expressar valores democráticos.

A influência também passa pela formação de novas gerações, por meio da fundação, das bolsas e dos profissionais que passaram pelo escritório. Foster defende que atrair jovens talentos é prioridade para o Foster + Partners.

Exposições retrospectivas em instituições como o Centre Pompidou em Paris mostram o reconhecimento da obra como patrimônio cultural. A retrospectiva de Paris ficou aberta de 10 de maio a 7 de agosto de 2023 e ocupou cerca de 2.200 metros quadrados, reunindo em torno de cem projetos de arquitetura e design.

Nem tudo é consenso. O custo de obras como a sede do HSBC e a discussão sobre torres envidraçadas em climas quentes acompanham a arquitetura high-tech. No AQWA Corporate, no Rio de Janeiro, o escritório descreve uma estratégia de autossombreamento das fachadas pensada para o clima tropical, o que mostra como a questão entra nos projetos.

A trajetória de Foster, de Levenshulme ao título de Lord Foster, é frequentemente citada como exemplo de mobilidade social pela educação. Para arquitetos em formação, ela mostra a importância de juntar desenho, técnica e gestão, e de tratar desempenho ambiental como parte do projeto desde o primeiro esboço.

Em um mundo cada vez mais urbano e com metas de descarbonização, os temas que Foster perseguiu, como luz natural, ventilação, flexibilidade e eficiência de recursos, seguem atuais. São também critérios que pesam cada vez mais no valor de um imóvel, porque afetam o custo de operação e a vida útil do edifício.

Da bolsa de estudos ao escritório global

Norman Foster saiu de uma família operária da região de Manchester, estudou com bolsas, trabalhou em empregos temporários para pagar os estudos e construiu um dos escritórios de arquitetura mais influentes do mundo. Da sede do HSBC ao Apple Park, passando pelo Reichstag, pelo Gherkin e pela Millennium Bridge, sua obra combina estrutura aparente, tecnologia, luz natural e preocupação com o desempenho ambiental, e foi reconhecida com o Pritzker, as medalhas de ouro do RIBA e do AIA e três prêmios Stirling. Hoje, a fundação que leva seu nome concentra a atuação dele em cidades, educação e moradia.

Imóveis assinados por escritórios como o Foster + Partners chegam ao mercado brasileiro com promessa de valorização. Para saber quanto dessa promessa se sustenta no preço, com base em pesquisa de mercado e na NBR 14653, conte com um laudo da Valen Brasil.

Perguntas frequentes

Quem é Norman Foster?

Arquiteto britânico nascido em 1935 perto de Manchester, fundador do Foster + Partners e vencedor do Prêmio Pritzker de 1999. É conhecido por obras como a sede do HSBC em Hong Kong, a cúpula do Reichstag, o 30 St Mary Axe e o Apple Park.

Onde Norman Foster estudou?

No curso de arquitetura e planejamento urbano da Universidade de Manchester, concluído em 1961, e em Yale, nos Estados Unidos, onde fez mestrado com a bolsa Henry Fellowship.

Norman Foster tem obras no Brasil?

O Foster + Partners projetou o AQWA Corporate, no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, e assina a arquitetura do residencial Tempo by Müze, na Praia Brava, em Itajaí (SC).

Quando Norman Foster ganhou o Pritzker?

Em 1999. Foi o 21º arquiteto a receber o prêmio. A lista completa de laureados está no nosso post sobre o Prêmio Pritzker de Arquitetura.

O que é arquitetura high-tech?

Corrente que surgiu nos anos 1970 e usa estrutura e instalações aparentes, componentes industrializados, aço e vidro como parte da expressão do edifício. Foster e Richard Rogers estão entre os principais nomes.

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