Parc de Desembocadura: o Jardim do Túria chega ao mar em Valência

O projeto (Con)fluir, de gradolí & sanz, leva o Jardim do Túria até o mar em Valência: proposta, números, cronograma, o bairro de Natzaret e o que a DANA de 2024 mostrou.
O Parc de Desembocadura é o projeto que vai levar o Jardim do Túria, o parque linear criado no antigo leito do rio em Valência, na Espanha, até o mar.
A proposta vencedora do concurso de ideias, chamada (Con)fluir, é do escritório valenciano gradolí & sanz (Carmel Gradolí e Arturo Sanz) e prevê um bosque urbano, áreas de convívio e a recuperação da vegetação de rio numa área de 245.600 m², entre a ponte de L'Assut de l'Or e o bairro de Natzaret.
A primeira fase, de 9,4 hectares até o porto, tem orçamento de 16,7 milhões de euros; em fevereiro de 2026, a prefeitura anunciou que enviaria o projeto ao Porto de Valência para que a obra fosse licitada ainda naquele ano. A história completa do jardim está no texto sobre o Jardim do Túria.
Como nasceu o projeto
O Jardim do Túria ocupa o antigo leito do rio, que deixou de correr pelo centro depois da grande enchente de 1957 e do desvio feito nas décadas seguintes. O jardim, porém, nunca chegou ao mar: o trecho final, do complexo de Calatrava até o porto, ficou sem tratamento, separando o bairro de Natzaret do resto da cidade.
Em março de 2023, a prefeitura anunciou o resultado do concurso de ideias para esse trecho. A proposta (Con)fluir venceu por unanimidade do júri. O anúncio foi feito ainda na gestão do prefeito Joan Ribó; a adjudicação do contrato de projeto e direção de obra aconteceu em maio de 2024, já com María José Catalá no cargo de prefeita. O impulso final veio no ano em que Valência foi a Capital Verde Europeia, título concedido pela Comissão Europeia para 2024.

O que prevê o projeto (Con)fluir
Segundo a página da prefeitura sobre o projeto vencedor, a proposta inclui um bosque urbano, espaços de uso dos moradores, uma grande área de brinquedos que recria o naufrágio de Gulliver e um espelho d'água que lembra a antiga praia de Natzaret. A equipe, além de Gradolí e Sanz, reúne outros arquitetos, um engenheiro civil e paisagistas.

O projeto se organiza em torno do que os autores chamam de tripla reparação:
- Reparação ecológica: recuperar a forma original do trecho final do rio e sua vegetação ribeirinha, criando um bosque urbano que ajuda a enfrentar o calor e atrai fauna local. A renaturalização se baseia em mapas topográficos antigos, que mostram as ilhas que se formavam na foz.
- Reparação urbana: ligar o parque a outros espaços verdes, como a horta protegida de La Punta, e redesenhar a travessia das Atarazanas para dar prioridade a pedestres, bicicletas e bonde.
- Reparação social: reconectar Natzaret à cidade, com um parque acessível, seguro e com atenção à qualidade da água.
"É o parque das pessoas e nele convergem desejos, necessidades e esforços para reparar o que se quebrou, criando um espaço onde possamos cuidar uns dos outros", afirmaram os autores do projeto vencedor, segundo o material divulgado na época.

Água no antigo leito
A Confederação Hidrográfica do Júcar, órgão que administra a bacia, apresentou em novembro de 2023 um estudo preliminar de conectividade fluvial para devolver funções ecológicas ao leito. O estudo propõe um canal de águas baixas, "um leito dentro do próprio leito", alimentado por cerca de 400 litros por segundo desviados no açude do Repartiment, vazão ecológica prevista no Plano Hidrológico do Júcar 2022-2027 para o trecho final do Túria. Também prevê rampas para peixes nos açudes.
Natzaret: o bairro que perdeu o mar
Para os moradores de Natzaret, o parque é mais do que uma obra de paisagismo. O bairro perdeu sua praia com a expansão do porto e ficou isolado da cidade. Representantes da associação de moradores defenderam, ao longo dos anos, que concluir o Jardim do Túria até o mar seria uma forma de reconhecer essa perda.
A reaproximação começou antes do concurso. Em abril de 2019, a Autoridade Portuária de Valência concluiu as obras no muro que separava o porto do bairro e aceitou recuar a fronteira aduaneira em direção ao mar, liberando quase 87.000 m² de área portuária para um parque de uso público, que será administrado pela prefeitura.

Números e cronograma
| Item | Dado | Fonte |
|---|---|---|
| Área total do projeto | 245.600 m², da ponte de L'Assut de l'Or a Natzaret | Prefeitura de Valência (2023) |
| Investimento total estimado | Cerca de 35 milhões de euros | Prefeitura de Valência (2023) |
| Primeira fase | 9,4 hectares até o porto | Prefeitura de Valência (2023) |
| Orçamento da primeira fase | 16,7 milhões de euros, 75% da Autoridade Portuária | Prefeitura de Valência (2023) |
| Projeto e direção de obra | 826.446,28 euros mais 21% de IVA (cerca de 1 milhão de euros) | Prefeitura de Valência (maio de 2024) |
| Prazo para entregar o projeto | 8 meses a partir da adjudicação | Prefeitura de Valência (maio de 2024) |
| Próximo passo | Envio do projeto ao porto para licitação da obra em 2026 | Prefeitura de Valência (fevereiro de 2026) |
A adjudicação do contrato de projeto e direção de obra foi aprovada pela Junta de Governo Local em maio de 2024, conforme a notícia da prefeitura, que fala em mais de 100.000 m² de novas áreas verdes e investimento de mais de 16 milhões de euros para a primeira fase. A versão anterior deste texto dizia que o parque ficaria pronto até 2026; pelas informações oficiais de fevereiro de 2026, a obra ainda dependia de licitação pelo porto.

A DANA de 2024 e o leito desviado
O Plan Sur em poucas linhas
O Jardim do Túria só existe porque o rio foi tirado do centro. Em 14 de outubro de 1957, uma enchente devastou Valência e deixou pelo menos 81 mortos. Em resposta, o governo espanhol aprovou o chamado Plan Sur, pela Ley 81/1961, com o objetivo declarado de proteger a cidade e seu território de novas inundações.
O plano abriu um novo leito ao sul da cidade, das imediações de Quart de Poblet até o norte de Pinedo, com cerca de 12 quilômetros, dimensionado para escoar até 5.000 m³/s. A lei previa 200 metros de largura; a largura registrada do canal construído é de 175 metros. As obras foram concluídas por volta de 1973, e o leito antigo virou o espaço do futuro jardim.
A lei também definiu quem pagaria. As obras hidráulicas foram divididas entre Estado (75%), prefeitura (20%) e Diputación provincial (5%), com subvenção estatal estimada em 1,5 bilhão de pesetas. Para completar os recursos, a prefeitura foi autorizada a cobrar tributos extraordinários na área da chamada Gran Valencia, como um selo especial de 25 cêntimos na correspondência, 50 cêntimos por telegrama e 3% sobre as tarifas telefônicas. A história completa, da enchente à campanha dos moradores e ao projeto de Bofill, está no guia do Jardim do Túria.
O que aconteceu na DANA de 2024
Em 29 de outubro de 2024, uma DANA (depressão isolada em níveis altos, fenômeno meteorológico que provoca chuvas intensas) atingiu a província de Valência. A estação de Turís registrou 771,8 litros por metro quadrado em cerca de 14 horas, segundo o relatório da AEMET, a agência meteorológica espanhola. O balanço do Governo espanhol de 19 de novembro de 2024 registrava 227 mortos (219 na Comunidade Valenciana, 7 em Castela-La Mancha e 1 na Andaluzia), 11 desaparecidos e 78 municípios afetados.
O centro de Valência não foi inundado, e muitas mensagens nas redes atribuíram isso ao desvio do rio. A realidade é mais complexa. Segundo especialistas ouvidos pelo site de checagem Maldita.es, as chuvas mais fortes caíram nas bacias do rio Magro e da Rambla del Poyo, e o Túria foi atingido de raspão: o novo leito teve dois picos de cerca de 2.000 m³/s, vazão que o leito antigo talvez tivesse suportado no limite. Os mesmos especialistas lembram que um estudo de 2014 estimou a capacidade real do novo leito abaixo dos 5.000 m³/s de projeto.
Os municípios mais atingidos, como Paiporta e Picanya, ficam ao sul da cidade, na área da Rambla del Poyo, que não é protegida pelo desvio. No rio Magro, a represa de Forata, concluída em 1969 no município de Yátova, é uma das estruturas de regulação da bacia. A tragédia mostrou que obras do passado protegem contra o risco para o qual foram projetadas, mas não substituem o planejamento de toda a bacia, o controle da ocupação de áreas inundáveis e os sistemas de alerta.

O que o parque ensina sobre cidades
O Parc de Desembocadura conversa com uma tendência de várias cidades: devolver espaço urbano às pessoas, seja em grandes parques lineares, seja em intervenções pequenas como os parklets, que transformam vagas de carro em áreas de convívio. Também mostra como a forma da cidade espanhola, com seu casco antiguo, ensanche e periferia, foi redesenhada por grandes obras de infraestrutura. No mesmo leito, pouco antes do novo parque, fica o conjunto de museus e teatros de Santiago Calatrava, tema do texto sobre a Cidade das Artes e das Ciências.
Pontos principais
- O Parc de Desembocadura vai estender o Jardim do Túria até o mar, em 245.600 m², com investimento total estimado em 35 milhões de euros.
- O projeto (Con)fluir, de gradolí & sanz, venceu o concurso de ideias em 2023 e propõe reparação ecológica, urbana e social.
- A primeira fase tem 9,4 hectares e 16,7 milhões de euros, 75% pagos pela Autoridade Portuária; em fevereiro de 2026, a obra ainda dependia de licitação.
- O jardim existe por causa do Plan Sur, aprovado em 1961 após a enchente de 1957, que desviou o rio para um novo leito ao sul.
- Na DANA de 2024, o centro não foi inundado, mas as chuvas mais fortes caíram em outras bacias; o desvio não protege toda a região.
Perguntas frequentes
Quando o Parc de Desembocadura fica pronto?
Não há data de conclusão confirmada. Em fevereiro de 2026, a prefeitura previa enviar o projeto ao porto para que a obra da primeira fase fosse licitada naquele ano.
Quem projetou o novo parque?
O escritório gradolí & sanz, de Carmel Gradolí e Arturo Sanz, com uma equipe de arquitetos, engenheiro e paisagistas; a prefeitura cita a empresa Inventario de Arquitectura SL como adjudicatária.
O desvio do Túria salvou Valência na DANA de 2024?
Protegeu o centro contra cheias do Túria, mas as chuvas mais intensas atingiram outras bacias, e especialistas avaliam que o próprio Túria teve vazões que o leito antigo talvez tivesse suportado. O desvio não evitou a tragédia nos municípios ao sul da cidade.
O Parc de Desembocadura fica no antigo leito?
Sim. O parque ocupa o leito antigo, liberado depois que o rio foi desviado pelo Plan Sur.
O ciclo que o parque fecha
O Parc de Desembocadura fecha um ciclo que começou com uma enchente: o rio saiu da cidade, o leito virou jardim e agora o jardim vai alcançar o mar, devolvendo a Natzaret a ligação com a cidade e com a água. O projeto também lembra que grandes obras mudam o valor e o uso do entorno por décadas. Para quem acompanha como parques e infraestrutura afetam o preço de imóveis, a Valen Brasil avalia imóveis considerando localização, entorno e transformações urbanas previstas.
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