Pular para o conteúdo
Valen Brasil
Arquitetura

Eduardo Souto de Moura: biografia, obras e prêmios

Editora Valen •
Eduardo Souto de Moura desenha em um caderno, em foto preto e branco
Eduardo Souto de Moura, Pritzker de 2011, desenhando em seu caderno.

Vida e obra de Souto de Moura, Pritzker de 2011: a parceria com Siza, o Estádio de Braga, a Casa das Histórias Paula Rego e a Medalha de Ouro da UIA.

Eduardo Souto de Moura é um arquiteto português nascido no Porto em 25 de julho de 1952, vencedor do Prêmio Pritzker de 2011 e do Prêmio Wolf de 2013. Formado nas Belas Artes do Porto, trabalhou cinco anos com Álvaro Siza antes de abrir o próprio ateliê e é autor do Estádio Municipal de Braga, da Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, da Torre Burgo e da reconversão do Convento de Santa Maria do Bouro. A seguir, sua trajetória, as obras principais e os prêmios, com a fonte de cada informação.

Quem é Souto de Moura: dados principais

Eduardo Souto de Moura em datas (fontes: Prêmio Pritzker, UIA e Wikipédia)
ItemInformação
Nome completoEduardo Elísio Machado Souto de Moura
Nascimento25 de julho de 1952, Porto (Portugal)
FormaçãoEscola de Belas Artes do Porto; diploma em 1980
Ateliê de Álvaro Sizade 1974 a 1979, ainda estudante
Primeira grande obraCasa das Artes, Porto (concurso de 1981, concluída em 1991)
Prêmio Pritzker2011
Prêmio Wolf2013
Medalha de Ouro da UIA2026

Da escultura à arquitetura

O pai era médico oftalmologista e a mãe cuidava da casa, conta a biografia oficial do Prêmio Pritzker. Depois de estudar na Escola Italiana do Porto, Souto de Moura entrou na Escola de Belas Artes da cidade para cursar escultura e só depois mudou para arquitetura. Ele atribui a troca a um encontro com o artista norte-americano Donald Judd em Zurique. Judd, conhecido pelas caixas e volumes repetidos em série, deixou a pintura no início dos anos 1960 para trabalhar em três dimensões e, a partir de 1973, comprou terrenos em Marfa, no Texas, onde instalou de forma permanente a própria obra e a de outros artistas.

Volumes cinzentos com grandes aberturas da Casa do Cinema Manoel de Oliveira, no Porto
Casa do Cinema Manoel de Oliveira, no Porto, projetada por Souto de Moura entre 1998 e 2003.

Ainda estudante, trabalhou com o arquiteto Noé Dinis e, em seguida, no ateliê de Álvaro Siza, de 1974 a 1979, segundo a Wikipédia em inglês. Com o professor de urbanismo Fernandes de Sá recebeu a primeira encomenda, um mercado em Braga (1980–1984), mais tarde demolido. Diplomou-se em 1980. A escola em que estudou deu origem, em 1979, à Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), que funciona no Campo Alegre em edifícios de Siza; para quem quer estudar lá, vale ler como o curso português se diferencia do brasileiro e do espanhol.

Casa das Artes e o ateliê próprio

Depois de dois anos de serviço militar, Souto de Moura venceu em 1981 o concurso para o Centro Cultural da Secretaria de Estado da Cultura no Porto, hoje Casa das Artes, com auditório e galeria nos jardins de um palacete neoclássico. A obra, concluída em 1991, marcou o início da carreira independente. O júri do Pritzker citou o uso de cobre, pedra, concreto e madeira nesse edifício como prova de sua capacidade de combinar materiais.

Torre Burgo, edifício alto de escritórios na Avenida da Boavista, no Porto
Torre Burgo, no Porto: projetada no início dos anos 1990 e construída uma década depois, com um bloco vertical e outro horizontal.

Em paralelo, de 1981 a 1990 foi professor assistente na própria faculdade, onde depois se tornou professor. Deu aulas como visitante em Genebra, Paris-Belleville, Harvard, Dublin, na ETH de Zurique e em Lausanne. Os primeiros trabalhos foram sobretudo casas unifamiliares, como as duas de Nevogilde, no Porto, e a do Bom Jesus, em Braga (1989–1994), que o júri do Pritzker considera parte essencial de sua obra.

Obras principais

A versatilidade aparece na lista de encomendas. Na Torre Burgo, na Avenida da Boavista, dois edifícios lado a lado, um vertical e outro horizontal, dialogam em escalas diferentes. No Convento de Santa Maria do Bouro, em Amares, o arquiteto transformou as ruínas de um mosteiro em pousada entre 1989 e 1997, obra finalista do Prêmio Mies van der Rohe de 1998. O júri do Pritzker resumiu a intervenção como a passagem "do entulho à reinterpretação". Outro caminho da mesma linha é explicado em restauração do patrimônio histórico.

Obras selecionadas de Souto de Moura (fontes: Wikipédia, júri do Pritzker e instituições citadas)
PeríodoObraLocal
1981–1991Casa das Artes (antigo Centro Cultural)Porto
1989–1994Casa no Bom JesusBraga
1989–1997Pousada de Santa Maria do BouroAmares
1991 em dianteTorre BurgoPorto
1995–1998Pavilhão de Portugal da Expo'98, coautor com SizaLisboa
1997 em dianteProjeto de arquitetura do Metro do PortoGrande Porto
1998–2003Casa do Cinema Manoel de OliveiraPorto
2000–2003Estádio Municipal de BragaBraga
2004–2008Centro de Arte Contemporânea Graça MoraisBragança
2009Casa das Histórias Paula Rego (inauguração)Cascais

Em Lisboa, Souto de Moura foi coautor, com Siza, do Pavilhão de Portugal da Expo'98 (1995–1998). No Porto, desenhou a arquitetura do metrô a partir de 1997; segundo o júri do Pritzker, ao mudar pisos, texturas, percursos e espaços públicos em torno das estações, deu novo sentido a esses lugares. Em Bragança, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais foi projetado entre 2004 e 2008.

O Estádio de Braga, "a Pedreira"

O Estádio Municipal de Braga, construído para o Euro 2004 e inaugurado em 30 de dezembro de 2003, é a obra mais conhecida do arquiteto fora do meio profissional. Ocupa uma antiga pedreira no Monte Castro: só há duas bancadas laterais, e nos topos ficam a encosta rochosa e o anfiteatro natural do monte. A cobertura, sustentada por cabos de aço entre as bancadas, toma como referência as pontes da civilização inca, no Peru, e deixa passar luz natural para o gramado. A capacidade é de pouco mais de 30 mil lugares.

O projeto de estruturas é do engenheiro Rui Furtado. A obra recebeu o Prêmio Secil de Arquitetura de 2004, e Furtado, o de Engenharia Civil de 2005. A citação do Prêmio Wolf de 2013 mencionou o estádio como o exemplo mais forte da convivência entre sociedade e natureza nas obras de Souto de Moura.

A Casa das Histórias, em Cascais

Em Cascais, ele assinou a Casa das Histórias Paula Rego, museu inaugurado em setembro de 2009 com a presença da pintora, que escolheu o arquiteto. Segundo a câmara municipal, o edifício reinterpreta a arquitetura histórica da região e se reconhece de longe pelas duas pirâmides de mesmo tamanho e pelo concreto tingido de vermelho.

Por dentro, quatro alas de salas em sequência cercam um volume central mais alto, reservado às exposições temporárias. O piso é de mármore azulino de Cascais, e o museu soma 750 m² de exposição, loja, café com esplanada voltada para o jardim e auditório de 200 lugares. As árvores que já existiam no terreno foram mantidas como parte do projeto.

Parcerias com Álvaro Siza

Portal barroco de pedra ao lado do volume branco do Museu Abade Pedrosa, em Santo Tirso
Museu Municipal Abade Pedrosa e Museu Internacional de Escultura Contemporânea, em Santo Tirso: projeto conjunto de Siza e Souto de Moura.

A relação com o antigo patrão continuou em obras assinadas a quatro mãos. Em Santo Tirso, os dois ampliaram o Museu Municipal Abade Pedrosa e criaram a sede do Museu Internacional de Escultura Contemporânea, trabalho indicado ao Prêmio Mies van der Rohe de 2017. Em Nápoles, desenharam a estação Municipio da linha 1 do metrô, uma das Estações da Arte, conjunto de propriedade da prefeitura, inaugurado a partir de 2001, que reúne mais de 300 instalações de arte contemporânea em estações entregues a arquitetos como Dominique Perrault, Gae Aulenti e Karim Rashid. A tradição que une Siza, Távora e Souto de Moura é tema de identidade da arquitetura portuguesa.

Mies van der Rohe como referência

A biografia do Pritzker registra que Souto de Moura é chamado com frequência de "neo-miesiano", embora busque um caminho próprio. Quando fala da influência de Mies, por exemplo a propósito da Torre Burgo, ele remete a uma frase do crítico italiano Francesco Dal Co: é melhor ser bom sem ser original do que querer ser muito original e ruim. A linha horizontal e a economia de meios de Mies explicam por que parte de sua obra é associada ao minimalismo na arquitetura.

Em entrevista à revista espanhola El Croquis, citada pelo Pritzker, ele explicou por que Mies o fascina cada vez mais. Na tradução do blog:

“Há uma maneira de lê-lo que é considerá-lo apenas como um minimalista. Mas ele sempre oscilou entre o classicismo e o neoplasticismo [...] Ele estava experimentando. Ele já era tão moderno que era ‘pós’.” (Eduardo Souto de Moura, entrevista a El Croquis, citada na biografia do Prêmio Pritzker)

Os dois pavilhões de Barcelona a que ele se refere são da Exposição Internacional de 1929. O mais famoso é o pavilhão alemão, projetado por Mies com a designer Lilly Reich em vidro, aço e mármores. Desmontado em 1930, foi reconstruído no local original pelos arquitetos Ignasi de Solà-Morales, Cristian Cirici e Fernando Ramos; a obra começou em 1983 e o pavilhão reabriu em 1986.

O Pritzker de 2011 e o que disse o júri

Em 2011, Souto de Moura recebeu o Prêmio Pritzker. A justificativa do júri afirma que sua obra é prova convincente do potencial expressivo da linguagem moderna e de sua capacidade de se adaptar a situações locais distintas, sempre atenta ao contexto em sentido amplo e ancorada no lugar, no tempo e na função. O júri destacou ainda que, nos anos 1980, em plena voga pós-moderna, ele seguiu um caminho próprio, e que sua arquitetura exige um encontro demorado, não um olhar rápido.

Distinções depois do Pritzker

Em 26 de maio de 2018, o júri da 16ª Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza, Freespace, deu a ele o Leão de Ouro de melhor participante, pela precisão com que emparelhou duas fotografias aéreas e revelou a relação entre arquitetura, tempo e lugar.

Principais prêmios de Souto de Moura (fontes: Pritzker, Fundação Wolf, Bienal de Veneza, UIA e Wikipédia)
AnoPrêmio
1998Prémio Pessoa
2004Prémio Secil de Arquitetura (Estádio de Braga)
2011Prêmio Pritzker
2013Prêmio Wolf de Arquitetura
2018Leão de Ouro de melhor participante, Bienal de Veneza
2026Medalha de Ouro da União Internacional dos Arquitetos (UIA)

Em 2026, a União Internacional dos Arquitetos (UIA) lhe atribuiu a Medalha de Ouro da UIA. O júri apontou a Casa em Bom Jesus, em Braga, e a Casa das Artes, no Porto, como exemplos de uma arquitetura que não chama atenção para si e tira força da contenção, e elogiou a doação de seu arquivo à Casa da Arquitectura, em Matosinhos, como recurso de estudo para as próximas gerações. Foi na mesma Casa da Arquitectura que, em outubro de 2019, abriu a exposição "Souto de Moura: Memória, Projectos, Obras".

Pensamento de Souto de Moura

Eduardo Souto de Moura segura canetas diante de uma parede de concreto vermelho
Eduardo Souto de Moura diante de uma parede de concreto pigmentado de vermelho, material que marca a Casa das Histórias Paula Rego.

Na entrevista ao ArchDaily publicada em 30 de outubro de 2019, por ocasião da exposição na Casa da Arquitectura, o título resume uma ideia que ele repete com frequência:

“Gosto das coisas por acabar. Uma casa acabada é uma ruína.” (Eduardo Souto de Moura, ArchDaily Brasil, 2019)

Outras ideias atribuídas a ele circulam sem fonte identificada, por isso aparecem aqui em paráfrase: a de que, para chegar a algo belo, o arquiteto precisa perder o medo de errar e de produzir o feio; e a de que as casas são como as pessoas, uma espécie de segunda pele, com uma atmosfera em que cada um reconhece a própria identidade, e por isso diferentes entre si e sujeitas a mudar com o uso. Em um fórum da Holcim sobre construção sustentável, citado pelo Pritzker, disse que não existe arquitetura ecológica ou inteligente, só boa arquitetura, que sempre considera energia, recursos, custos e aspectos sociais.

Perguntas frequentes

Quando Souto de Moura ganhou o Pritzker?

Em 2011. Foi o segundo português premiado, depois de Álvaro Siza, em 1992.

Qual é a obra mais conhecida de Souto de Moura?

O Estádio Municipal de Braga, construído numa antiga pedreira para o Euro 2004. Entre arquitetos, a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e a Pousada de Santa Maria do Bouro, em Amares, são igualmente citadas.

Qual a relação entre Souto de Moura e Álvaro Siza?

Souto de Moura trabalhou no ateliê de Siza de 1974 a 1979, ainda estudante, e depois os dois assinaram juntos obras como o Pavilhão de Portugal da Expo'98, o museu de Santo Tirso e a estação Municipio do metrô de Nápoles.

O rigor construtivo de Souto de Moura

Souto de Moura mostra que rigor construtivo e atenção ao lugar valem tanto para uma casa em Braga quanto para um estádio escavado na rocha. O júri do Pritzker falou em uma arquitetura sem frivolidade, e a Medalha de Ouro da UIA, quinze anos depois, confirmou a mesma leitura. Projetos com essa qualidade de implantação e de materiais tendem a manter valor com o tempo; se você quer saber quanto vale hoje um imóvel de arquitetura autoral no litoral catarinense, a Valen Brasil faz a avaliação técnica com laudo fundamentado.

Quer saber o valor do seu imóvel?

Laudo de avaliação a partir de 3 dias úteis.

Solicitar avaliação
Leia também