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Arquitetura

Álvaro Siza: biografia, obras e prêmios do arquiteto português

Editora Valen •
Retrato em preto e branco de Álvaro Siza diante de pranchas de projeto
Álvaro Siza, Pritzker de 1992, em seu ateliê. Foto: Rui Oliveira.

Vida e obra de Álvaro Siza, Pritzker de 1992: da Casa de Chá da Boa Nova ao Museu de Serralves, a Bouça, a Expo'98 e a Fundação Iberê Camargo.

Álvaro Siza Vieira é um arquiteto português nascido em 25 de junho de 1933, em Matosinhos, vizinha ao Porto, e o primeiro de seu país a receber o Prêmio Pritzker, em 1992. Autor da Casa de Chá da Boa Nova, das Piscinas de Marés, do Museu de Serralves, do Pavilhão de Portugal da Expo'98 e da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, ele construiu uma obra que responde a cada lugar em vez de repetir um estilo pronto. Esta biografia reúne datas, obras e prêmios conferidos em fontes oficiais, com o link de cada uma.

Quem é Álvaro Siza: dados principais

Álvaro Siza em números e datas (fontes: Prêmio Pritzker, Fundação Calouste Gulbenkian e Centro Canadense de Arquitetura)
ItemInformação
Nome completoÁlvaro Joaquim de Melo Siza Vieira
Nascimento25 de junho de 1933, Matosinhos (Portugal)
FormaçãoEscola de Belas Artes do Porto, de 1949 a 1955
Ateliê próprioPorto, desde 1954
DocênciaUniversidade do Porto, a partir de 1966; efetivado em 1976
Prêmio Pritzker1992
Obra no BrasilFundação Iberê Camargo, Porto Alegre (inaugurada em 2008)
ArquivoDoado em 2014 a Gulbenkian, Serralves e CCA

Infância, formação e primeiras obras

O nome completo é Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira, mas é como Álvaro Siza que ele aparece em livros, concursos e premiações. A biografia publicada pelo Prêmio Pritzker registra que ele cursou arquitetura no Porto entre 1949 e 1955 e que, antes mesmo de concluir o curso, entregou suas primeiras obras construídas: quatro casas em Matosinhos, prontas em 1954. No mesmo ano abriu o próprio ateliê na cidade. A escola onde estudou, então parte das Belas Artes, deu origem à atual Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto; as diferenças entre esse modelo de ensino e o brasileiro estão no nosso texto que compara a formação de arquitetos no Brasil, em Portugal e na Espanha.

Os primeiros anos de carreira foram ao lado de Fernando Távora, com quem trabalhou entre 1955 e 1958, segundo a Wikipédia em inglês. A geração de Siza se formou sob o movimento moderno europeu, que tinha no franco-suíço Le Corbusier seu nome mais divulgado. A Wikipédia em português, porém, cita como referências mais diretas de Siza Adolf Loos, Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto, combinadas com a tradição construtiva portuguesa de materiais simples e bem executados.

A partir de 1966 ele passou a lecionar na Universidade do Porto, onde foi efetivado como professor de arquitetura em 1976, segundo o Pritzker. Como professor visitante, passou por Harvard (Graduate School of Design), pela Pensilvânia, por Bogotá (Universidade de los Andes) e por Lausanne (Escola Politécnica Federal). Entre os que passaram pelo ateliê está Eduardo Souto de Moura, que trabalhou com Siza por cinco anos ainda estudante e também ganharia o Pritzker, em 2011. Da geração seguinte, o valenciano Fran Silvestre passou dois anos no ateliê do Porto logo depois de se formar, entre 2002 e 2004, e cita o português como sua principal influência.

Casa de Chá da Boa Nova e Piscinas de Marés

A obra que tornou Siza conhecido nasceu de um concurso vencido por Távora. Em 1956 a Câmara de Matosinhos abriu a disputa para um restaurante nos rochedos da Boa Nova, em Leça da Palmeira; Távora ganhou e passou o projeto ao jovem colaborador. O Centro Canadense de Arquitetura (CCA) data o desenho de 1958 e a construção de 1959 a 1963.

Casa de Chá da Boa Nova, de Álvaro Siza, sobre os rochedos de Leça da Palmeira
Casa de Chá da Boa Nova (1958–1963), em Leça da Palmeira, uma das primeiras obras de Álvaro Siza.

O edifício foi erguido sobre as rochas, a poucos metros da água, e se acomoda ao desenho das pedras em vez de nivelar o terreno; a sala se abre para o Atlântico. Poucos quilômetros ao sul, Siza desenhou as Piscinas de Marés, concluídas em 1966: dois tanques de água salgada e um volume de vestiários encaixados entre as rochas da praia. As duas obras foram classificadas como Monumento Nacional em 2011, pelo Decreto n.º 16/2011 (Diário da República, 1.ª série, 25/5/2011), conforme a ficha do Património Cultural português, que também aponta uma zona especial de proteção comum, fixada em 2012.

Habitação social: Bouça e São Victor

Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal criou o SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local, programa que juntava arquitetos, assistentes sociais e comissões de moradores para melhorar a habitação popular. Siza participou com dois conjuntos no Porto. O primeiro é a Bouça, cujo projeto começou em 1973 para o Fundo de Fomento da Habitação e passou ao SAAL em 1975. Segundo o texto da Agenda Porto sobre o bairro, das 128 casas previstas só 56 ficaram prontas quando o programa acabou, no fim de 1976.

Blocos em fita do conjunto habitacional da Bouça, no Porto, de Álvaro Siza
Conjunto habitacional da Bouça, no Porto: projeto de 1973, primeira fase pelo programa SAAL e conclusão em 2006.

A obra ficou parada por quase três décadas. A segunda fase, com reabilitação dos blocos antigos e 72 casas novas, foi retomada em 2004 e terminou em 2006, mantendo o desenho original; o fundo do CCA registra essa etapa de 2000 a 2006. O segundo conjunto é o bairro de São Victor, também no Porto, do mesmo período. Nos dois casos o projeto foi discutido com as comissões de moradores, como previa o SAAL, e a Bouça integra hoje o conjunto de oito obras de Siza em Portugal apresentado à UNESCO em 2023 para inscrição como Patrimônio Mundial, segundo a mesma Agenda Porto.

Malagueira, o bairro de Évora

Em 1977 a câmara de Évora encarregou Siza de planejar um bairro nos arredores rurais da cidade. Segundo a biografia do Pritzker, a Malagueira previa cerca de 1.200 habitações de baixo custo, casas em banda de um e de dois pisos, todas com pátio. O CCA mostra que o arquiteto acompanhou o bairro por quase três décadas, de 1977 a 2005, com cooperativa, igreja, escola, praça e pequenos equipamentos. Em 1988 o projeto recebeu a primeira edição do Prêmio Veronica Rudge Green de desenho urbano, da Harvard Graduate School of Design, dividido naquele ano com a requalificação de Byker, em Newcastle, de Ralph Erskine.

A Malagueira mostra que o arquiteto trata a habitação popular com o mesmo cuidado de proporção e de luz que dedica a um museu: casas repetidas, mas com pátios que garantem privacidade e ventilação, e ruas que seguem a topografia do terreno rural.

Prêmios e reconhecimento internacional

O Pritzker de 1992 coroou uma década de premiações. Quatro anos antes, em 1988, Siza recebeu a Medalha Alvar Aalto, da fundação finlandesa, e o Prêmio Mies van der Rohe pelo banco Borges & Irmão, em Vila do Conde. O júri do Prêmio Pritzker descreveu sua arquitetura como herdeira do modernismo, de aparente simplicidade que esconde grande complexidade, e apontou três formas de respeito: à tradição portuguesa, ao contexto de cada obra e às restrições do tempo em que o arquiteto trabalha.

Pala de concreto suspensa do Pavilhão de Portugal, de Álvaro Siza, em Lisboa
Pavilhão de Portugal, construído para a Expo'98 em Lisboa; hoje pertence à Universidade de Lisboa.
Principais prêmios de Álvaro Siza (fontes: Fundação Calouste Gulbenkian, Prêmio Pritzker e RIBA)
AnoPrêmioMotivo ou instituição
1988Medalha Alvar AaltoFundação Alvar Aalto, Finlândia
1988Prêmio Mies van der RoheBanco Borges & Irmão, Vila do Conde
1988Prêmio Veronica Rudge GreenBairro da Malagueira, Évora (Harvard)
1992Prêmio PritzkerConjunto da obra
1998Praemium ImperialeAssociação de Arte do Japão
2002Leão de Ouro, Bienal de VenezaProjeto da Fundação Iberê Camargo
2009Royal Gold MedalRoyal Institute of British Architects
2012Leão de Ouro pela carreiraBienal de Arquitetura de Veneza

A Royal Gold Medal, recebida em 2009, é concedida todos os anos pelo Royal Institute of British Architects (RIBA) em nome da Coroa britânica. A lista acima segue a cronologia publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Serralves e as obras dos anos 1990

Depois do incêndio de 1988 no Chiado, em Lisboa, Siza coordenou a reconstrução do bairro, trabalho que o CCA registra de 1988 a 2000. No mesmo período vieram a Escola Superior de Educação de Setúbal (1986–1994), a Biblioteca da Universidade de Aveiro (1988–1995), a Igreja de Santa Maria de Marco de Canaveses (1990–1996) e o novo edifício da Faculdade de Arquitetura do Porto, no Campo Alegre. Outras igrejas atuais que dialogam com essa linha estão em igrejas contemporâneas.

Fachada branca do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, de Álvaro Siza
Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, inaugurado em 1999.

O Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, foi inaugurado em 1999. O edifício branco fica dentro do parque da fundação, e as aberturas enquadram o jardim em pontos escolhidos do percurso, de modo que a paisagem entra na visita sem competir com as obras expostas. A relação continuou: a fundação abriu depois a Casa do Cinema Manoel de Oliveira (2019) e a Casa de Serralves recuperada (2021), e em outubro de 2023 inaugurou o edifício poente do museu, batizado Ala Álvaro Siza, que ampliou em 40% a área expositiva. O arquiteto, então com 90 anos, esteve na cerimônia.

Interior do Museu de Serralves com luz natural, projeto de Álvaro Siza
Salas do Museu de Serralves: paredes brancas e luz natural controlada, marca dos museus de Siza.

O Pavilhão de Portugal da Expo'98

Em Lisboa, o Pavilhão de Portugal construído para a Expo'98 se organiza em dois corpos: um bloco que se fecha em volta de um pátio e uma grande praça aberta, sob uma lâmina de concreto sustentada apenas por cabos de aço presos a dois pórticos laterais. Essa cobertura curva, que parece flutuar sobre a praça, virou o símbolo da obra. Premiado com o Prémio Valmor em 1998, o pavilhão tem hoje a classificação de Monumento de Interesse Público; passou à Universidade de Lisboa, que terminou a reabilitação do edifício em 2025.

Como Siza projeta

Siza não parte de um repertório de formas. Ao longo da carreira, sempre desenhou para a necessidade concreta de cada lugar e de cada usuário, sem procurar o efeito espetacular. A mesma atenção à proporção e à luz aparece da casa isolada ao plano urbano, e o júri do Pritzker registrou que a qualidade de sua obra não depende da escala. A arquitetura portuguesa que ele ajudou a definir, com Távora e Souto de Moura, é o tema de identidade da arquitetura portuguesa.

O desenho à mão é a ferramenta de pensar. Os 282 cadernos de esboços do seu arquivo mostram que ele testa ideias no papel antes de fixar o projeto, prática que ajuda a entender o valor do croqui na arquitetura. A economia de meios, com superfícies brancas e poucos materiais, aproxima parte de sua obra do minimalismo na arquitetura, embora ele próprio recuse rótulos.

A obra de Siza no Brasil

A primeira obra de Siza na América do Sul está em Porto Alegre. Entre 1998 e 1999 a Fundação Iberê Camargo selecionou seu projeto para a nova sede, em terreno às margens do Guaíba doado pelo governo do Rio Grande do Sul. O projeto recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza de 2002, e o edifício foi inaugurado em 2008.

São três pisos de exposição ligados por rampas, com muitas paredes e poucas aberturas, e as áreas de apoio (acervo, auditório e biblioteca) ficam no subsolo. A enciclopédia do Itaú Cultural destaca o contraste entre a austeridade do exterior e a sutileza dos detalhes e do jogo de volumes no interior. Boa parte do mobiliário e dos acessórios, de luminárias a bancos e cadeiras, também é de autoria do arquiteto. Para comparar com outro Pritzker ligado ao Brasil, veja a biografia de Oscar Niemeyer, premiado em 1988.

Volume branco da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, projeto de Álvaro Siza
Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre: projeto escolhido em 1998–1999 e inaugurado em 2008.
Interior branco com rampa e visitantes em obra de Álvaro Siza
Paredes brancas e rampas conduzem o visitante: Siza desenha o percurso tanto quanto o espaço.

O arquivo de Álvaro Siza

Em 2014 Siza doou o arquivo de sua atividade profissional, iniciada nos anos 1950, repartindo-o entre a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação de Serralves e o Centro Canadense de Arquitetura, em Montreal. O conjunto soma cerca de 60 mil desenhos, 500 maquetes e 282 cadernos de esboços, além de documentos digitais. Para a Gulbenkian ele escolheu 38 projetos, entre eles a escola de Setúbal, a igreja de Marco de Canaveses, o Pavilhão de Portugal e a biblioteca de Aveiro. Pesquisadores e estudantes podem consultar parte do material nos catálogos das três instituições.

Pensamento de Álvaro Siza

Álvaro Siza sentado em uma poltrona em sala branca com aberturas ovais
Álvaro Siza em um de seus interiores brancos, iluminados por aberturas recortadas na parede.

Uma ideia atravessa as entrevistas de Siza: a arquitetura não deve partir de uma linguagem fixa, e sim responder a um problema específico, numa situação que se transforma e da qual o arquiteto participa. O próprio júri do Pritzker usou essa formulação, em paráfrase, na justificativa do prêmio, e a biografia oficial cita o arquiteto dizendo que já passou a fase em que se acreditava que a unidade de linguagem resolveria os problemas da arquitetura.

A segunda ideia é o treino do olhar. Em entrevista a Bernardo Pinto de Almeida, publicada na revista UPORTO n.º 9, em outubro de 2003 (p. 31), ele disse:

“Aprender a ver, que é fundamental, para um arquitecto e para todas as pessoas. Não só a olhar, mas a ver em profundidade, em detalhe, na globalidade.” (Álvaro Siza, revista UPORTO, n.º 9, 2003)

Perguntas frequentes

Qual é a obra mais famosa de Álvaro Siza?

Não há consenso, mas entre as mais citadas estão, em Leça da Palmeira, a Casa de Chá e as Piscinas de Marés, o Museu de Serralves, no Porto, e o Pavilhão de Portugal, em Lisboa. No Brasil, a obra é a Fundação Iberê Camargo.

Quando Álvaro Siza ganhou o Pritzker?

Em 1992. Foi o primeiro português premiado; o segundo foi Eduardo Souto de Moura, em 2011.

Álvaro Siza tem obra no Brasil?

Sim. A sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, inaugurada em 2008, é sua primeira obra na América do Sul e recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 2002, ainda como projeto.

O que a obra de Siza ensina

A trajetória de Siza mostra que a mesma disciplina de desenho serve a uma casa de chá, a um bairro popular e a um museu. Da Bouça ao Guaíba, o que muda é o problema, não o cuidado. Se você estuda arquitetura ou pensa em encomendar um projeto autoral, as obras dele são uma boa aula de como o contexto valoriza o edifício, e isso também pesa no preço do imóvel: para saber quanto vale uma casa ou um terreno com projeto assinado em Santa Catarina, conte com a avaliação técnica da Valen Brasil.

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