Arquitetura portuguesa: identidade, Escola do Porto e mestres

Como a arquitetura portuguesa moderna ganhou identidade própria: Inquérito à Arquitectura Regional, Escola do Porto, SAAL e as obras de Távora, Siza, Souto de Moura, Aires Mateus e Mendes Ribeiro.
A identidade da arquitetura portuguesa moderna vem da combinação entre a linguagem moderna e a atenção ao lugar: ao clima, à topografia, aos materiais e à arquitetura popular do país. Essa síntese tem marcos concretos, como o Inquérito à Arquitectura Regional, dos anos 1950, e o ensino da Escola do Porto, e nomes reconhecidos no mundo todo, como Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura, os irmãos Aires Mateus e João Mendes Ribeiro. Este texto percorre essa história e as obras que a explicam.
Pontos principais
- O Inquérito à Arquitectura Regional (1955–1961) levantou a arquitetura popular do país e ajudou a formar uma linguagem moderna própria.
- A Escola do Porto, com Fernando Távora como referência, formou Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura.
- Portugal tem dois arquitetos com o Prêmio Pritzker: Siza (1992) e Souto de Moura (2011).
- O programa habitacional SAAL (1974–1976) levou a arquitetura portuguesa ao debate internacional.
- Obras modernas já são patrimônio: a Casa de Chá da Boa Nova e as Piscinas de Marés, de Siza, são Monumento Nacional desde 2011.
Uma modernidade com raízes
Muitas discussões sobre arquitetura moderna deixam de lado a identidade de cada lugar, e boa parte da produção europeia do século XX seguiu uma linguagem internacional parecida em qualquer país. Portugal chama a atenção por ter feito um caminho diferente: aceitou a modernidade, mas a filtrou pela própria tradição construtiva.
Parte da explicação está na história do país. Depois de séculos de protagonismo marítimo, Portugal teve um papel mais periférico na Europa durante boa parte do século XX. Esse distanciamento, somado ao interesse pela arquitetura popular, favoreceu uma leitura própria do moderno, apoiada na terra, nos materiais e no modo de vida local. Antes do modernismo, o país teve também sua versão do Art Nouveau, a Arte Nova, com um conjunto importante em Aveiro, onde a antiga residência do Major Pessoa abriga hoje o Museu de Arte Nova.

Nesse cenário, Távora, Siza e Souto de Moura se tornaram referência. A projeção internacional aparece em prêmios: Álvaro Siza foi o primeiro vencedor do Prêmio Mies van der Rohe, da União Europeia, em 1988, e Eduardo Souto de Moura também integra a lista de premiados mais conhecidos do país. Hoje, os arquitetos portugueses são estudados e contratados muito além de Portugal.
Do Inquérito à Escola do Porto
O Inquérito à Arquitectura Regional
A história recente da arquitetura portuguesa mudou com o Inquérito à Arquitectura Regional, feito entre 1955 e 1961. O levantamento coube ao Sindicato Nacional dos Arquitectos, que dividiu o país em seis zonas (Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Alentejo e Algarve) e publicou o resultado em 1961 no livro Arquitectura Popular em Portugal, reeditado em 1980, 1988 e 2004.
O trabalho mostrou que não havia um único "estilo português", como defendia o discurso oficial da época, e sim respostas diferentes em cada região, ligadas ao clima, aos materiais e à economia local. Essa lição de observação do lugar, a mesma que está na base da arquitetura vernacular, passou a orientar a geração que viria depois.
A Escola do Porto
A outra raiz dessa identidade é o ensino. Criada em 1950, sobre o legado da Aula de Desenho e Debuxo, de 1780, e da Academia Portuense de Belas Artes, de 1836, a Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) formou Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura e deu origem às atuais faculdades de Arquitectura e de Belas Artes da Universidade do Porto. O curso de Arquitetura se separou dela em 1979 e virou a Faculdade de Arquitetura; a ESBAP funcionou até 1992. As diferenças entre o ensino de arquitetura em Portugal, no Brasil e na Espanha estão no texto sobre formação em arquitetura nos três países.
Fernando Távora

Fernando Távora é considerado o fundador da Escola do Porto. Sua obra une a linguagem moderna à atenção pelas características do lugar, pela história e pela cultura locais. Os edifícios têm formas simples e cuidado com o detalhe, e procuram continuidade com o ambiente construído e natural.

Entre as obras de Távora estão o Mercado Municipal de Santa Maria da Feira, o parque municipal da Quinta da Conceição, em Matosinhos, a Escola Primária do Cedro, em Vila Nova de Gaia, o plano para a Zona Central de Aveiro e intervenções no centro histórico de Guimarães. Em Lisboa, projetou o novo edifício da Assembleia da República, desenhado em 1996 e inaugurado em 1999, encostado à fachada lateral do Palácio de São Bento; o prédio abriga gabinetes dos deputados, salas de reunião, um anfiteatro e a residência oficial do presidente do parlamento.
Álvaro Siza

Álvaro Siza, nascido em Matosinhos em 1933, foi o primeiro a receber o Prêmio Mies van der Rohe, em 1988, e ganhou o Prêmio Pritzker em 1992 e o Prêmio Nacional de Arquitetura da Espanha em 2019. Sua arquitetura usa a linguagem moderna, mas parte de cada lugar: do terreno, da luz, das construções vizinhas e das técnicas locais. Na Espanha, por exemplo, assinou o Centro Galego de Arte Contemporânea e o Parque de Bonaval, em Santiago de Compostela. No Brasil, projetou a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, cujo projeto recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2002.
Os edifícios de Siza costumam ter formas geométricas puras, superfícies brancas e poucos materiais, e muitos criam espaços públicos generosos. A praça do Pavilhão de Portugal, na Expo'98, em Lisboa, é um exemplo: fica sob uma pala de concreto suspensa por cabos de aço entre dois pórticos. O edifício recebeu o Prêmio Valmor daquele ano, é classificado como Monumento de Interesse Público e teve a reabilitação concluída pela Universidade de Lisboa em 2025. O filho, Álvaro Leite Siza, também é arquiteto.

Entre as obras mais conhecidas de Siza em Portugal estão o Pavilhão de Portugal, o Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves e conjuntos habitacionais no Porto, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses, a Adega Mayor, em Campo Maior, as Piscinas de Marés de Leça da Palmeira e a Casa de Chá da Boa Nova, sobre as rochas à beira-mar, em Matosinhos, sua cidade natal.
O SAAL e a habitação no Porto
Os projetos habitacionais de Siza no Porto vieram de um programa com data certa. O Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL) funcionou entre 1974 e 1976 como um serviço descentralizado e pouco burocrático, apoiado na relação entre o Estado, os moradores pobres e os arquitetos, e foi com ele que a produção arquitetônica portuguesa ganhou projeção internacional.
O Bairro da Bouça, perto da Rua da Boavista, tinha sido encomendado pelo Fundo de Fomento da Habitação em 1973; depois de 25 de abril de 1974, os moradores se organizaram em comissões dentro do SAAL. A segunda fase da obra só foi retomada no início do século XXI, com Siza mantendo o desenho original e recuperando coberturas e materiais dos dois blocos existentes.
Eduardo Souto de Moura

Vencedor do Prêmio Pritzker em 2011, Eduardo Souto de Moura forma com Távora e Siza o trio mais conhecido da arquitetura portuguesa. Trabalhou com Siza antes de abrir o próprio escritório, e sua obra se destaca pela precisão construtiva, pelo uso de pedra, concreto e aço em volumes simples e pela atenção à topografia e às construções existentes. Muitos de seus projetos transformam edifícios antigos, como conventos e fábricas, para novos usos.

Entre suas obras estão o Estádio Municipal de Braga, o metrô do Porto, a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, no Porto, a Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre, a pousada no Convento de Santa Maria do Bouro, o Espaço Miguel Torga, em Sabrosa, a piscina da Quinta do Crasto, no Pinhão, e o Convento das Bernardas, em Tavira. O estádio de Braga foi erguido para o Euro 2004, com engenharia de Rui Furtado e cobertura inspirada nas pontes dos incas, no Peru; recebeu o Prêmio Secil de Arquitetura em 2004 e o de Engenharia Civil em 2005. A escola de Portalegre abriu em 12 de dezembro de 2008, no espaço da antiga Fábrica Robinson.
Aires Mateus

Os irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus fundaram o escritório Aires Mateus, em Lisboa, e têm projetos de grande escala e reconhecimento internacional. A obra da dupla trabalha com formas geométricas simples, a luz e a espessura das paredes, muitas vezes com volumes brancos que parecem escavados. A tradição portuguesa aparece reinterpretada: casas de telhado de duas águas, paredes caiadas e pedra local surgem em versões abstratas.

Entre os projetos de destaque estão a sede da EDP, em Lisboa, com uma praça voltada ao sul protegida por brise-soleils; a reabilitação do Colégio da Trindade, em Coimbra, hoje ligado à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; a Faculdade de Arquitetura da UCLouvain em Tournai, na Bélgica, concluída em 2017; o Centro de Monitorização e Investigação das Furnas, nos Açores, revestido de pedra basáltica local; o Centro de Convívio de Grândola; o lar de idosos de Alcácer do Sal; a casa em Monsaraz e as cabanas na Comporta.
João Mendes Ribeiro

João Mendes Ribeiro nasceu em Coimbra, em 1960, e se formou pela Universidade do Porto, onde lecionou entre 1989 e 1991 na Faculdade de Arquitetura. Desde 1991 é professor de projeto no Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, onde foi assistente de Fernando Távora até 1998. Abriu o próprio escritório em 1990.
Sua arquitetura aposta em geometrias retas, paleta neutra e luz natural, e dialoga com edifícios existentes: muitos projetos são intervenções em construções históricas, nas quais o novo aparece com clareza ao lado do antigo. Ele também tem uma trajetória premiada em cenografia.

Entre suas obras estão o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, nos Açores; a adega e o hotel da Torre de Palma, em Monforte; o claustro do Mosteiro de Lorvão, em Penacova; a Casa da Escrita, em Coimbra; e casas como a de Fonte Boa e a de Chamusca da Beira.
Quando a obra moderna vira patrimônio
A proteção legal já alcança edifícios em uso. O Decreto n.º 16/2011, publicado no Diário da República de 25 de maio daquele ano, classificou como Monumento Nacional a Casa de Chá da Boa Nova e as Piscinas de Marés de Leça da Palmeira, as duas de Siza, em Matosinhos; uma portaria de 2012 fixou zonas especiais de proteção coincidentes para as duas.
Em 31 de janeiro de 2017, Portugal incluiu na lista indicativa do Patrimônio Mundial da UNESCO o conjunto das obras de Álvaro Siza no país, candidatura que reúne edifícios no Porto, em Lisboa, Évora, Aveiro, Oliveira de Azeméis, Marco de Canaveses, Campo Maior, Leça da Palmeira, Matosinhos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Ovar e Setúbal.
O que define a identidade portuguesa
Olhando o conjunto, alguns traços se repetem:
- Leitura do lugar: topografia, luz, vistas e construções vizinhas orientam o projeto.
- Continuidade com a tradição: a arquitetura popular levantada pelo Inquérito serve de referência, sem ser copiada.
- Economia de meios: poucos materiais, formas simples e detalhes precisos. É o princípio que aproxima essa produção da arquitetura minimalista.
- Reuso: conventos, fábricas e colégios antigos ganham novos usos.
- Forma e função juntas: cada decisão do projeto responde a uma razão concreta.
Perguntas frequentes
Quem são os principais arquitetos portugueses?
Fernando Távora, Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura formam o trio mais conhecido. Entre as gerações seguintes, destacam-se os irmãos Aires Mateus e João Mendes Ribeiro, entre outros.
Quantos arquitetos portugueses ganharam o Prêmio Pritzker?
Dois: Álvaro Siza, em 1992, e Eduardo Souto de Moura, em 2011.
O que foi o Inquérito à Arquitectura Regional?
Um levantamento da arquitetura popular portuguesa feito entre 1955 e 1961 pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos, publicado em 1961 no livro Arquitectura Popular em Portugal.
O que é a Escola do Porto?
É a tradição de ensino e de projeto nascida na antiga ESBAP e continuada pela faculdade de arquitetura portuense, com Fernando Távora como referência e Siza e Souto de Moura como nomes principais.
Há obras de Siza no Brasil?
Sim. O museu da Fundação Iberê Camargo, aberto em 2008 na capital gaúcha, é o projeto mais conhecido de Siza no país.
Ser contemporâneo sem apagar a memória
A arquitetura portuguesa moderna mostra que é possível ser contemporâneo sem apagar a memória do lugar. Do Inquérito dos anos 1950 à Escola do Porto, de Távora a Siza, Souto de Moura, Aires Mateus e João Mendes Ribeiro, o fio condutor é o mesmo: observar o contexto e responder a ele com formas simples, materiais honestos e respeito pelo que já existe. Essa atenção ao que existe vale também para quem compra, reforma ou vende imóveis antigos; para conhecer o valor de mercado de um imóvel considerando seu estado e sua história, conte com a Valen Brasil.
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