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Valen Brasil
Arquitetura

Dreamscapes: a arquitetura dos lugares imaginados

Editora Valen •
Arco rosado com cortinas abertas para o mar ao entardecer, com lua, espreguiçadeira curva e piscina em primeiro plano
Dreamscape em tons de rosa: arco com cortinas, piscina e horizonte ao entardecer compõem um lugar que só existe na tela.

O que são dreamscapes, as imagens de arquitetura e interiores imaginados feitas com render: origem, artistas, o livro da Gestalten, direitos autorais e o uso em anúncios.

Dreamscapes são imagens digitais de arquitetura e interiores que não foram feitas para ser construídas: paisagens e ambientes imaginados, com piscinas que desembocam no mar, arcos abertos para o céu, cores pastel e luz de fim de tarde, criados por artistas 3D com as mesmas ferramentas da renderização de projetos de arquitetura. O termo, "paisagens de sonho" em inglês, ganhou força nas redes sociais na virada para os anos 2020 e deu nome a um livro da editora alemã Gestalten, de 2020. Diferentemente do render de projeto, que precisa ser fiel ao que será entregue, o dreamscape usa a técnica do realismo para mostrar o que não existe.

De onde vem essa estética

As ferramentas de modelagem e render deixaram de ser exclusivas de escritórios e estúdios. Programas antes caros ficaram mais acessíveis, e alguns são gratuitos. O Blender, usado para modelar, animar e renderizar, é software livre distribuído sob a licença pública GNU (GPL); o projeto é coordenado pela Blender Foundation e financiado principalmente por doações. Com isso, pessoas de fora da arquitetura passaram a usar as mesmas ferramentas para outra finalidade: produzir imagens de lugares que só existem na tela.

No mundo digital, as regras também são outras. O artista não precisa calcular estrutura, drenar a água da piscina nem aprovar a obra na prefeitura. Um pilar pode afinar até virar um fio, uma escada pode terminar no ar, um vão pode ter cinquenta metros sem apoio. A gravidade e o orçamento viram escolhas, não limites.

A fuga que essas imagens propõem começa e termina dentro de casa, na tela do celular. Mundos exóticos, horizontes vazios e interiores silenciosos oferecem uma pausa visual, e é nesse sentido que a estética foi associada ao escapismo: imagens que não servem a um cliente nem a uma obra, mas ao desejo de estar em outro lugar.

Quem faz dreamscapes

Uma geração de artistas digitais passou a explorar essa fronteira entre ficção e realidade, e alguns nomes se tornaram referência:

  • Filip Hodas, artista 3D radicado em Praga, conhecido pela série Pop Culture Dystopia, em que ícones da cultura pop aparecem gastos e abandonados em paisagens pós-apocalípticas.
  • Massimo Colonna, artista que cria cenários arquitetônicos imaginários e tem trabalhos encomendados por marcas de design e revistas de decoração.
  • Ezequiel Pini, à frente do Six N. Five, estúdio de arte que se apresenta como criador de "realidades imaginárias" e colabora com marcas de tecnologia e de luxo.
  • Andrés Reisinger, cujo estúdio tem peças que circulam entre o digital e o físico, como a poltrona Hortensia.
Piscina retangular em ambiente branco com grande abertura arredondada para o mar e uma palmeira solitária no horizonte
Dreamscape com piscina, abertura arredondada e uma palmeira sobre o mar: geometria simples, cores claras e horizonte vazio são marcas da estética.

Como abordagem, os dreamscapes combinam elementos reconhecíveis da arquitetura (arcos, colunas, escadas, piscinas) com situações impossíveis ou improváveis. O resultado busca provocar emoção e sensações pouco comuns, justamente porque não precisa obedecer às restrições de uma obra de verdade. Nessa busca por sensações, há um parentesco com o jardim sensorial, que trabalha o efeito do espaço sobre os sentidos no mundo físico.

A arquitetura que nunca foi construída

Desenhar o que não se pretende erguer é um hábito antigo da disciplina. Em 1969, o grupo italiano Superstudio concebeu O Monumento Contínuo. O Canadian Centre for Architecture, que guarda um storyboard do projeto datado de 1969 a 1971, descreve a obra como um modelo arquitetônico único para a urbanização total do mundo. Desenhos dessa série entraram no acervo do MAXXI, em Roma, ao lado de outros trabalhos do grupo, como As Doze Cidades Ideais (1971) e Atos Fundamentais (1971 a 1972).

Esse tipo de projeto especulativo ganhou vitrine institucional. A primeira iniciativa da Bienal de Veneza voltada à arquitetura foi uma exposição de 1975; em 1980, a Bienal de Veneza criou seu setor de arquitetura e entregou a direção a Paolo Portoghesi. Desde então, a mostra abriu espaço tanto para obras construídas quanto para visões que ficaram no papel.

A diferença entre aqueles desenhos e os dreamscapes está no meio e na intenção. O Superstudio usava a imagem para criticar a sociedade e a própria arquitetura; os dreamscapes, na maior parte, buscam o efeito visual e emocional, e circulam em redes sociais em vez de revistas e exposições. Técnicas como a colagem digital na arquitetura ficam a meio caminho entre as duas tradições. Perfis de curadoria como o Architecture Hunter, que começou no Instagram, mostram como a imagem de arquitetura passou a circular sobretudo pelas redes.

Um livro para a nova corrente

Dedicado a esse movimento, impulsionado pela digitalização do espaço em que vivemos, a editora Gestalten, de Berlim, lançou em 2020 o livro "Dreamscapes & Artificial Architecture", com o subtítulo Imagined interior design in digital art (design de interiores imaginado na arte digital). A obra reúne paisagens, estruturas e interiores criados por artistas que trabalham, nas palavras da editora, na interseção entre arquitetura, design de interiores e tecnologia. O livro passa por oásis utópicos e cenários distópicos e mostra uma corrente em que realidade e fantasia convivem.

Livro aberto com páginas que mostram paisagens e interiores imaginados em tons de rosa, bege e azul
Páginas do livro "Dreamscapes & Artificial Architecture", publicado pela editora Gestalten em 2020.

Por que essas imagens funcionam na tela

Os filtros suaves, os tons pastel e a iluminação de cinema que os programas de render produzem aparecem melhor numa tela iluminada do que no papel. Isso ajuda a explicar por que a estética se espalhou por meios digitais: o celular é, ao mesmo tempo, o lugar onde a imagem é vista e o formato para o qual ela é pensada.

As imagens, livres das restrições do mundo físico, ampliam o repertório da arquitetura e do design de interiores. Muitos comentaristas comparam o efeito dessas cenas a uma espécie de ASMR espacial. ASMR é a sigla em inglês de resposta sensorial meridiana autônoma, a sensação de relaxamento e formigamento que algumas pessoas relatam diante de certos sons e imagens.

O fenômeno do ASMR tem algum lastro experimental. Em um estudo publicado na PLOS ONE em 2018, pesquisadores das universidades de Sheffield e Manchester Metropolitan, no Reino Unido, mostraram que assistir a vídeos de ASMR aumentou o afeto agradável apenas entre quem de fato experimenta a sensação; no segundo experimento, a resposta veio com queda da frequência cardíaca e aumento da condutância da pele. O estudo trata de vídeos de ASMR, não de dreamscapes; a comparação com a arquitetura digital é uma analogia, não uma conclusão científica.

O arquivo também envelhece

Uma paisagem que só existe como arquivo depende de um formato e de um programa que continuem abrindo. A Carta para a Preservação do Patrimônio Digital, adotada pela UNESCO em Paris, em 15 de outubro de 2003, aponta a obsolescência rápida de equipamentos e programas entre os fatores que ameaçam o patrimônio digital, ao lado da falta de recursos e de legislação. O desenho guardado numa gaveta não depende de software; o arquivo digital, sim. Quem produz dreamscapes, ou qualquer imagem de projeto, precisa pensar em exportar versões em formatos abertos e guardar cópias.

O arquivo também tem autor. A lei brasileira de direitos autorais protege tanto os projetos de arquitetura quanto os desenhos e as imagens:

“VIII - as obras de desenho, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética;” (Lei 9.610/1998, art. 7º, VIII)
“X - os projetos, esboços e obras plásticas concernentes à geografia, engenharia, topografia, arquitetura, paisagismo, cenografia e ciência;” (Lei 9.610/1998, art. 7º, X)

Na prática, isso significa que publicar, reproduzir ou vender um dreamscape de outro artista exige autorização, mesmo quando a imagem circula livremente nas redes.

Corredor rosado com colunas brancas que se afinam até o chão e esferas espalhadas, abrindo para um jardim ao fundo
Colunas que se afinam até quase tocar o chão: no ambiente digital, a estrutura vira gesto plástico, sem compromisso com o cálculo.

Quando a imagem volta ao mundo físico

As cenas criadas pela estética dos dreamscapes convidam a repensar o papel emocional do projeto e, apesar de nascerem em programas de modelagem 3D, respondem a uma necessidade concreta de pausa e de fuga. O caminho às vezes se inverte, e a imagem sai da tela: o estúdio de Andrés Reisinger informa que a poltrona Hortensia integra hoje a coleção do museu da Vitra. Marcas de mobiliário, hotéis e lojas também passaram a usar a linguagem desses cenários em ambientes reais, com cores suaves, curvas e iluminação difusa, próximas do que se discute no minimalismo na arquitetura.

Quando a imagem sai da galeria e entra no anúncio

Na venda de imóvel na planta, a imagem muda de natureza. Uma cena de sonho pode funcionar como arte, mas, num anúncio, o Código de Defesa do Consumidor (art. 30) faz com que a publicidade suficientemente precisa passe a integrar o contrato. Os detalhes desse ponto estão na seção sobre venda de imóveis do texto de renderização de projetos de arquitetura.

O que descreve o imóvel a ser entregue é outro documento. A Lei 4.591/1964, que regula as incorporações imobiliárias, só permite ao incorporador vender as frações do terreno e das futuras unidades depois de registrar no cartório o memorial de incorporação, que inclui o projeto aprovado e o memorial descritivo:

“d) projeto de construção devidamente aprovado pelas autoridades competentes;” (Lei 4.591/1964, art. 32, alínea d)
“g) memorial descritivo das especificações da obra projetada, segundo modêlo a que se refere o inciso IV, do art. 53, desta Lei;” (Lei 4.591/1964, art. 32, alínea g)

Para quem compra, a regra prática é simples: a imagem inspira, mas é o memorial descritivo de obras que diz quais materiais e acabamentos serão entregues.

O visível e o invisível

A ensaísta Nelly Schnaith dedicou um livro, Lo visible y lo invisible en la imagen fotográfica (Madri, 2011), à ideia de que toda imagem carrega mais do que mostra: por trás do que se vê estão a cultura, a utopia e o desejo de quem a produz e de quem a observa. A resenha do livro publicada na revista Eu-topías resume essa leitura. Os dreamscapes são um bom exemplo: por trás de piscinas vazias e arcos cor-de-rosa há um desejo coletivo de silêncio, ordem e fuga.

Pontos principais

  • Dreamscapes são imagens digitais de arquitetura e interiores imaginados, feitas com as ferramentas do render de projeto, mas sem intenção de construção.
  • A estética se espalhou pelas redes sociais na virada para os anos 2020 e ganhou um livro da editora Gestalten em 2020.
  • A arquitetura não construída tem tradição: o Superstudio desenhou O Monumento Contínuo em 1969, e a Bienal de Veneza criou seu setor de arquitetura em 1980.
  • A comparação com o ASMR é uma analogia; o estudo de 2018 citado trata de vídeos de ASMR.
  • O arquivo digital envelhece com os programas, e a imagem tem autor protegido pela Lei 9.610/1998.
  • Em anúncio de imóvel, a imagem passa a ter efeito jurídico; o que vale para a entrega é o memorial descritivo registrado.

Perguntas frequentes

O que significa dreamscape?

É a junção de dream (sonho) e landscape (paisagem). Na arquitetura digital, designa imagens de lugares imaginados, com aparência realista e clima de sonho.

Qual programa é usado para criar dreamscapes?

Os mesmos da renderização arquitetônica e da computação gráfica em geral, como Blender, Cinema 4D e 3ds Max, com motores de render e pós-produção em editores de imagem.

Dreamscape é arquitetura?

É representação de arquitetura, não projeto. Usa elementos arquitetônicos e pode influenciar o design de ambientes reais, mas não tem compromisso com estrutura, normas ou obra.

Posso usar um dreamscape que encontrei na internet?

Só com autorização do autor. Desenhos e imagens são obras protegidas pela Lei 9.610/1998, e circular nas redes não as torna de uso livre.

O que os dreamscapes revelam sobre a imagem

Os dreamscapes mostram o lado mais livre da imagem arquitetônica: a mesma técnica que serve para apresentar um projeto a um cliente vira meio de expressão, de crítica e de fuga. Vale apreciar essas cenas pelo que são, sem confundi-las com promessa de entrega. E, quando a imagem bonita estiver num anúncio de imóvel, o valor do bem depende de localização, projeto aprovado e mercado; para saber quanto ele vale de verdade, conte com a Valen Brasil, que avalia imóveis a partir de documentos e dados, e não da aparência da imagem.

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