Alienação fiduciária de imóvel: o que é, como funciona e atrasos

A garantia dos financiamentos: quem é dono até a quitação, como cancelar na matrícula, como vender o imóvel e o que acontece, prazo a prazo, se as parcelas atrasarem.
Alienação fiduciária é a garantia em que o devedor transfere ao credor a propriedade de um bem, em caráter resolúvel, até pagar a dívida: o credor (normalmente um banco) fica com a propriedade fiduciária registrada, e o devedor continua morando no imóvel ou usando o carro. Quitada a dívida, a propriedade volta automaticamente ao devedor com o cancelamento do registro; se ele não paga, o credor pode consolidar a propriedade em seu nome no cartório e levar o bem a leilão, sem processo judicial. Nos imóveis, a regra está na Lei 9.514/1997, bastante alterada pela Lei 14.711/2023; nos bens móveis, no Código Civil e no Decreto-Lei 911/1969.
Esta é a garantia usada em quase todos os financiamentos imobiliários no Brasil, e também em empréstimos com imóvel em garantia. O texto explica como ela nasce, o que o devedor pode e não pode fazer, como é a quitação e, principalmente, o passo a passo do que acontece quando as parcelas atrasam.
Pontos principais
- O devedor é o fiduciante; o credor é o fiduciário. Enquanto houver dívida, o credor tem a propriedade resolúvel e a posse indireta; o devedor tem a posse direta e o uso do bem.
- Sem registro na matrícula, o banco não tem garantia real sobre o imóvel (art. 23 da Lei 9.514/1997).
- Com o pagamento, o banco tem 30 dias para dar o termo de quitação, sob multa de 0,5% ao mês sobre o valor do contrato; com o termo, o cartório cancela a garantia.
- Em caso de atraso, o Registro de Imóveis dá ao devedor 15 dias para acertar os valores; se nada for pago, o credor vira dono pleno e tem de promover até dois leilões.
- Em financiamento para comprar ou construir a casa do devedor, se ninguém der lance suficiente no segundo leilão, a dívida é extinta. Nos demais contratos, desde a Lei 14.711/2023, o saldo que o leilão não cobrir continua sendo devido.
- O STF considerou constitucional a execução extrajudicial da Lei 9.514 (Tema 982), e o STJ decidiu que ela prevalece sobre o Código de Defesa do Consumidor na resolução por inadimplemento (Tema 1.095).
- Dá para vender imóvel alienado: quitando a dívida com o dinheiro da venda ou transferindo o contrato ao comprador com a anuência do banco.
O que é alienação fiduciária
Conceito na lei
A Lei 9.514/1997 define a figura para imóveis:
“A alienação fiduciária regulada por esta Lei é o negócio jurídico pelo qual o fiduciante, com o escopo de garantia de obrigação própria ou de terceiro, contrata a transferência ao credor, ou fiduciário, da propriedade resolúvel de coisa imóvel.” (Lei 9.514/1997, art. 22, caput)
Três palavras resumem o instituto. Alienação, porque há transferência de propriedade. Fiduciária, do latim fiducia, confiança: o credor recebe o bem só para garantir o crédito. Resolúvel, porque essa propriedade se desfaz sozinha quando a dívida é paga. O devedor pode garantir dívida própria ou de outra pessoa (o chamado terceiro fiduciante).
Para bens móveis, o Código Civil tem regra equivalente:
“Considera-se fiduciária a propriedade resolúvel de coisa móvel infungível que o devedor, com escopo de garantia, transfere ao credor.” (Código Civil, art. 1.361, caput)
Quem pode contratar e o que pode ser dado em garantia
A alienação fiduciária de imóvel não é exclusiva dos bancos: pode ser contratada por qualquer pessoa física ou jurídica (Lei 9.514/1997, art. 22, § 1º). Por isso aparece também em vendas parceladas feitas por incorporadoras e em contratos entre particulares.
Além da propriedade plena, a lei admite como objeto, entre outros, os imóveis aforados (com pagamento de laudêmio se houver consolidação), os direitos de uso e de superfície e os bens que se destinam de modo duradouro ao uso do imóvel (art. 22, § 1º, I a VI).
O desdobramento da posse
Com o registro, a posse se divide: o devedor fica com a posse direta, que é o uso do dia a dia; o credor, com a posse indireta (art. 23, parágrafo único). Enquanto estiver em dia, o devedor usa o imóvel livremente e responde pelos riscos desse uso (art. 24, V). E cabe a ele pagar o IPTU e o condomínio (art. 24, § 2º).
Em linguagem simples: o imóvel não fica "no nome do banco" como dono pleno. Na matrícula, o comprador aparece como adquirente, e logo em seguida vem o registro da alienação fiduciária em favor do banco, como ônus. Saber como ler a matrícula ajuda a identificar esse registro e o seu cancelamento.
Como a garantia nasce: contrato e registro
O contrato
A Lei 9.514 dispensa o tabelionato: seus contratos valem tanto por escritura quanto por documento particular, que tem a mesma força (art. 38). É por isso que a maioria dos financiamentos bancários é assinada no próprio banco, sem passar pelo tabelionato, o que também explica por que a escritura em financiamentos costuma ser dispensada. O contrato precisa conter, entre outros itens (art. 24):
- o valor da dívida, sua estimativa ou seu valor máximo;
- o prazo e as condições de pagamento;
- a taxa de juros e os encargos;
- a descrição do imóvel e a forma como o devedor o adquiriu;
- a cláusula que assegura o uso do imóvel ao devedor adimplente;
- o valor do imóvel para fins de leilão e os critérios de revisão;
- as regras de cobrança, consolidação e leilão.
O valor do imóvel fixado no contrato é o que vai servir de referência no primeiro leilão. Se ele for menor que a base de cálculo do ITBI usada pela prefeitura na consolidação, prevalece a base do ITBI como valor mínimo (art. 24, § 1º, regra incluída pela Lei 13.465/2017).
O registro
O contrato só vira garantia real quando é registrado:
“Constitui-se a propriedade fiduciária de coisa imóvel mediante registro, no competente Registro de Imóveis, do contrato que lhe serve de título.” (Lei 9.514/1997, art. 23, caput)
A Lei 6.015/1973, de registros públicos, inclui esse ato entre os que se registram na matrícula, no item 35 do inciso I do art. 167. Nos bens móveis, o registro é feito no Registro de Títulos e Documentos do domicílio do devedor (art. 129, 10º, da mesma lei) ou, no caso de veículos, no órgão de trânsito, com anotação no certificado de registro (Código Civil, art. 1.361, § 1º; Código de Trânsito Brasileiro, art. 129-B).
Desde a Lei 14.382/2022, o envio do contrato ao cartório pode ser eletrônico, pelo Sistema Eletrônico dos Registros Públicos (Serp); no registro de imóveis, quem opera o sistema é o ONR, operador nacional criado pela Lei 13.465/2017. Muitos bancos já enviam o contrato digitalmente.
Onde a alienação fiduciária aparece na prática
- Financiamento de imóvel. Na compra financiada, o banco paga o vendedor e recebe a propriedade fiduciária do imóvel. Programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, seguem a mesma lógica. Os detalhes da compra e venda de imóvel com financiamento continuam valendo: matrícula, certidões, ITBI e registro.
- Venda parcelada direta. Incorporadoras e particulares podem vender a prazo e receber o próprio imóvel vendido em garantia. Na compra na planta, os direitos do comprador em caso de atraso na entrega da obra seguem regras próprias da Lei de Incorporações.
- Empréstimo com garantia de imóvel. No home equity, o dono de um imóvel já quitado toma crédito e o dá em alienação fiduciária. Veja como funciona o empréstimo com garantia de imóvel.
- Garantia de dívidas empresariais. Imóveis de sócios ou da empresa garantem capital de giro e outras operações.
- Veículos e bens móveis. No financiamento de carros, a alienação fiduciária é anotada no documento do veículo.
- Lastro de títulos. Os créditos garantidos por alienação fiduciária de imóvel servem de lastro para a Letra de Crédito Imobiliário (LCI), que os bancos emitem para captar recursos (Lei 10.931/2004, art. 12).
Um cuidado com um exemplo comum: quando alguém compra um carro de um particular em parcelas e o carro "fica no nome do vendedor" até o fim, isso é, em geral, venda com reserva de domínio (Código Civil, arts. 521 e seguintes), outra figura. Na alienação fiduciária, a propriedade é transferida ao credor como garantia e o comprador já é o possuidor.
Nova garantia sobre o mesmo imóvel
A Lei 14.711/2023 passou a admitir a alienação fiduciária da propriedade superveniente: o mesmo imóvel pode ser dado de novo em garantia a outro credor, com registro desde a celebração, mas o novo negócio só produz efeitos depois do cancelamento da garantia anterior (Lei 9.514/1997, art. 22, § 3º). Havendo várias garantias sucessivas, as mais antigas têm prioridade, e os credores posteriores recebem pelo preço obtido no leilão (§ 4º).
Vantagens e cuidados

Para o credor, a alienação fiduciária é uma garantia forte: o bem já é dele em caráter resolúvel, a retomada é feita no cartório, sem processo, e, na recuperação judicial de empresas, o crédito com garantia fiduciária fica fora dos efeitos do plano (Lei 11.101/2005, art. 49, § 3º). Essa segurança costuma se traduzir em juros menores e prazos mais longos do que os do crédito sem garantia, e é um dos motivos de o crédito imobiliário ter prazos de décadas.
Para o devedor, o outro lado é a rapidez da perda do bem em caso de atraso. Os principais cuidados:
- escolher parcela que caiba no orçamento com folga, porque o prazo de carência e o prazo para pagar depois da intimação são curtos;
- manter o endereço e o e-mail atualizados no banco, já que as intimações e as datas dos leilões são enviadas para os endereços do contrato (art. 26, § 3º, e art. 27, § 2º-A);
- procurar o banco logo no primeiro atraso: renegociar antes da intimação costuma sair mais barato;
- conferir, no contrato, o valor do imóvel para fins de leilão e pedir revisão se estiver defasado, porque ele influencia o que sobra para o devedor.
Quitação e cancelamento da garantia
Com a dívida paga, a garantia se desfaz por força de lei (art. 25), e o credor tem prazo para documentar isso:
“§ 1º No prazo de 30 (trinta) dias, contado da data de liquidação da dívida, o fiduciário fornecerá o termo de quitação ao devedor e, se for o caso, ao terceiro fiduciante.” (Lei 9.514/1997, art. 25, § 1º)
O atraso na entrega do termo custa ao credor meio por cento do valor do contrato por mês ou fração (§ 1º-A). Com o termo de quitação em mãos, basta levá-lo ao cartório, que faz a averbação do cancelamento da garantia (§ 2º). Só depois disso a matrícula mostra o imóvel livre. Na portabilidade do financiamento para outro banco, não há termo de quitação: averba-se apenas a transferência da alienação fiduciária ao novo credor (§ 3º).
Posso vender um imóvel alienado fiduciariamente?
Pode, por dois caminhos:
- Quitar com o dinheiro da venda. O comprador (ou o banco dele) paga ao banco do vendedor o saldo devedor, o banco emite o termo de quitação e o imóvel é transferido livre. É o caminho mais comum quando o comprador também vai financiar.
- Transferir o contrato. Com anuência expressa do credor, o devedor transmite ao comprador os direitos sobre o imóvel, e o comprador assume a dívida (art. 29). O banco analisa o crédito do novo devedor, como num financiamento novo. Quando a venda é uma troca, os caminhos para o imóvel ainda financiado estão em permuta com imóvel financiado.
Sem a concordância do banco, a transmissão não vale contra ele. "Contratos de gaveta", em que o comprador paga as parcelas em nome do vendedor, deixam o comprador exposto: para o banco e para o registro, o devedor continua sendo o vendedor. Quem pensa em vender o imóvel financiado deve pedir ao banco o saldo devedor atualizado antes de negociar o preço.
O que acontece se as parcelas atrasarem
A retomada do imóvel segue um roteiro fixado em lei e acontece no cartório. A tabela resume o caminho depois da Lei 14.711/2023.
| Etapa | O que acontece | Prazo |
|---|---|---|
| Carência | Prazo do contrato, após o vencimento, antes de o banco pedir a intimação | O do contrato; se não houver, 15 dias |
| Intimação | O Registro de Imóveis intima o devedor a pagar parcelas vencidas, encargos, tributos e condomínio | Pagamento em 15 dias |
| Purgação da mora | Se o devedor paga, o contrato continua normalmente | Até o fim do prazo (no financiamento da casa própria, até a averbação da consolidação) |
| Consolidação | Sem pagamento, o credor paga o ITBI e o cartório averba a propriedade plena em nome dele | No financiamento da casa própria, 30 dias após o fim do prazo de pagamento |
| Primeiro leilão | Lance mínimo: valor do imóvel no contrato ou a base do ITBI, o que for maior | Até 60 dias após a consolidação |
| Segundo leilão | Lance mínimo: dívida integral, despesas, seguros, tributos e condomínio | Nos 15 dias seguintes |
| Sobra | O que passar da dívida e das despesas é devolvido ao devedor | 5 dias após a venda |
| Desocupação | Reintegração de posse concedida liminarmente | 60 dias para desocupar |
Intimação e purgação da mora
Vencida e não paga a dívida, o credor pede ao oficial do Registro de Imóveis que intime o devedor. A intimação é pessoal e avisa que, sem pagamento, a propriedade será consolidada e o imóvel irá a leilão (art. 26, § 3º). Se o devedor não for encontrado duas vezes e houver suspeita de ocultação, a intimação pode ser feita por hora certa; em condomínios com portaria, pode ser entregue ao porteiro (§§ 3º-A e 3º-B); se ele estiver em local incerto, por edital.
O prazo para pagar é de 15 dias (art. 26, § 1º). Pago o valor no cartório, o contrato "convalesce", isto é, volta a valer como se não tivesse havido atraso (§ 5º). No financiamento para compra ou construção da casa própria, o devedor ainda pode pagar as parcelas vencidas e as despesas até a data da averbação da consolidação (art. 26-A, § 2º).
Consolidação da propriedade
Sem pagamento, o oficial averba na matrícula a consolidação da propriedade em nome do credor, à vista da prova de que ele pagou o ITBI e, se for o caso, o laudêmio (art. 26, § 7º). A partir daí, o imóvel é do credor em caráter pleno, mas ele é obrigado a vendê-lo em leilão. Da consolidação até a entrega do imóvel, o devedor que continuar ocupando deve taxa de ocupação de 1% ao mês sobre o valor do imóvel fixado para o leilão (art. 37-A).
Os leilões
O credor tem 60 dias, contados da consolidação, para fazer o primeiro leilão (art. 27). As datas, os horários e os locais devem ser comunicados ao devedor pelos endereços do contrato, inclusive por e-mail (art. 27, § 2º-A). Até o segundo leilão, o antigo devedor pode exercer preferência e reaver o imóvel quitando a dívida, as despesas, os tributos da consolidação e os custos da nova aquisição (art. 27, § 2º-B).
- Primeiro leilão: o lance mínimo é o valor contratual do imóvel, ou a base do ITBI quando esta for maior (art. 24, § 1º; art. 27, § 1º).
- Segundo leilão: aceita-se o maior lance que cubra a dívida integral, as despesas, os seguros, os tributos e o condomínio. Fora do financiamento da casa própria, se nenhum lance chegar a esse valor, o credor pode, se quiser, aceitar oferta que alcance ao menos 50% da avaliação (art. 27, § 2º).
Quem compra no leilão recebe o imóvel com a propriedade consolidada e tem direito à reintegração de posse, concedida liminarmente, com prazo de 60 dias para a desocupação (art. 30). O guia de leilões explica como funciona o leilão do imóvel retomado do ponto de vista de quem dá o lance, e o guia do leilão da Caixa trata dos imóveis retomados vendidos pela Caixa.
O que sobra e o que falta
Quando a arrematação supera a dívida e os custos, o excedente vai para o devedor em cinco dias, incluída a indenização de benfeitorias (art. 27, § 4º). Se render menos, a regra depende do tipo de contrato:
“§ 5º-A Se o produto do leilão não for suficiente para o pagamento integral do montante da dívida, das despesas e dos encargos de que trata o § 3º deste artigo, o devedor continuará obrigado pelo pagamento do saldo remanescente, que poderá ser cobrado por meio de ação de execução e, se for o caso, excussão das demais garantias da dívida, ressalvada a hipótese de extinção do saldo devedor remanescente prevista no § 4º do art. 26-A desta Lei.” (Lei 9.514/1997, art. 27, § 5º-A)
A ressalva final é a proteção da casa própria:
“§ 4º Se no segundo leilão não houver lance que atenda ao referencial mínimo para arrematação estabelecido no § 3º deste artigo, a dívida será considerada extinta, com recíproca quitação, hipótese em que o credor ficará investido da livre disponibilidade.” (Lei 9.514/1997, art. 26-A, § 4º)
Esse regime especial vale para financiamentos de aquisição ou construção do imóvel residencial do devedor, exceto consórcios (art. 26-A, caput). Em empréstimo com garantia de imóvel, financiamento de imóvel comercial ou garantia de dívida de empresa, o devedor pode perder o imóvel e ainda ficar com saldo a pagar.
Exemplo numérico
Os valores são hipotéticos. Imóvel com valor de R$ 500.000 fixado no contrato (acima da base do ITBI), dívida de R$ 300.000 e R$ 20.000 de despesas, tributos e condomínio na data do leilão.
| Situação | Financiamento da casa própria | Empréstimo com garantia de imóvel |
|---|---|---|
| Primeiro leilão sem lance de R$ 500.000 | Vai ao segundo leilão | Vai ao segundo leilão |
| Segundo leilão com lance de R$ 380.000 | Credor recebe R$ 320.000; devedor recebe R$ 60.000 | Credor recebe R$ 320.000; devedor recebe R$ 60.000 |
| Segundo leilão com maior lance de R$ 260.000 | Lance recusado (abaixo de R$ 320.000); dívida extinta e imóvel fica com o credor | Credor pode aceitar (é mais que R$ 250.000, metade de R$ 500.000); devedor continua devendo R$ 60.000 |
| Segundo leilão sem nenhum lance | Dívida extinta; imóvel fica com o credor | Imóvel fica com o credor; saldo calculado conforme o § 6º-A do art. 27 pode continuar sendo cobrado |
No exemplo, o valor do imóvel no contrato decide o piso do primeiro leilão e o limite de 50% no segundo. Uma avaliação do imóvel atualizada ajuda o devedor a saber se esse valor está defasado e quanto ele pode esperar de sobra.
O que dizem os tribunais
- STF, Tema 982 (RE 860.631). Em outubro de 2023, o plenário decidiu que é constitucional o procedimento da Lei 9.514/1997 para a execução extrajudicial da alienação fiduciária, porque é compatível com as garantias processuais da Constituição. O devedor pode ir à Justiça se houver irregularidade no procedimento.
- STJ, Tema 1.095 (REsp 1.891.498/SP). Em 2022, a Segunda Seção fixou que, na venda de imóvel garantida por alienação fiduciária registrada, a resolução por inadimplemento do devedor constituído em mora segue a Lei 9.514/1997, e não o Código de Defesa do Consumidor.
Essa segunda tese responde a uma dúvida frequente. O artigo 53 do Código de Defesa do Consumidor considera nulas as cláusulas que determinam a perda total das prestações pagas quando o credor pede a resolução do contrato e retoma o bem. Nos imóveis com alienação fiduciária registrada, porém, o que o devedor recebe de volta é a sobra do leilão (art. 27, § 4º), e não as parcelas pagas.
Alienação fiduciária, hipoteca e penhor
| Aspecto | Alienação fiduciária | Hipoteca | Penhor |
|---|---|---|---|
| Bem | Imóvel (Lei 9.514) ou móvel infungível (CC, art. 1.361) | Imóvel e outros bens do art. 1.473 do CC | Coisa móvel |
| Propriedade durante a dívida | Transferida ao credor, em caráter resolúvel | Continua com o devedor | Continua com o devedor |
| Posse | Direta com o devedor, indireta com o credor | Com o devedor | Em regra, transferida ao credor (CC, art. 1.431) |
| Retomada | Consolidação no cartório e leilão extrajudicial | Execução judicial ou, desde a Lei 14.711/2023, extrajudicial | Execução ou venda conforme o contrato e a lei |
| Recuperação judicial do devedor | Crédito fora dos efeitos do plano (Lei 11.101, art. 49, § 3º) | Crédito sujeito ao plano, com garantia | Crédito sujeito ao plano, com garantia |
Na hipoteca, o devedor continua dono e o bem fica vinculado à dívida (Código Civil, art. 1.419). A Lei 14.711/2023 passou a permitir também a execução extrajudicial da hipoteca, com intimação pelo Registro de Imóveis para pagamento em 15 dias (art. 9º), o que aproximou as duas garantias. A diferença de fundo continua: na alienação fiduciária, o credor já é o proprietário.
No penhor, a coisa móvel é, em regra, entregue ao credor; nas modalidades rural, industrial, mercantil e de veículos, ela fica com o devedor (Código Civil, art. 1.431, parágrafo único).
Alienação fiduciária de bens móveis e veículos
Para bens móveis contratados no mercado financeiro, a Lei 4.728/1965 exige que o contrato traga a taxa de juros, a cláusula penal, o índice de atualização monetária, se houver, e as demais comissões e encargos (art. 66-B). A retomada segue o Decreto-Lei 911/1969:
- Busca e apreensão judicial. Comprovada a mora, o credor pede a busca e apreensão, concedida liminarmente. Cinco dias depois de cumprida a liminar, a propriedade e a posse plena se consolidam no credor (art. 3º, § 1º, na redação da Lei 10.931/2004). Nesse prazo, o devedor pode pagar a integralidade da dívida apresentada pelo credor e receber o bem de volta livre do ônus (§ 2º).
- Consolidação extrajudicial. Desde a Lei 14.711/2023, se o contrato prever em cláusula destacada, o credor pode pedir a consolidação no Registro de Títulos e Documentos; o devedor é notificado para pagar em 20 dias ou provar que a cobrança é indevida (art. 8º-B).
- Venda do bem. Retomado o bem, o credor pode vendê-lo a terceiros independentemente de leilão ou avaliação prévia, salvo disposição em contrário no contrato, aplicando o preço no crédito e nas despesas e entregando ao devedor o que sobrar (art. 2º, na redação da Lei 13.043/2014).
Diferentemente do regime da casa própria, nos bens móveis não há extinção automática da dívida: se a venda não cobrir o saldo, o credor pode cobrar a diferença.
Bem de família e alienação fiduciária
A Lei 8.009/1990 torna impenhorável o imóvel residencial da família, com exceções no art. 3º, como a execução de hipoteca sobre o imóvel oferecido em garantia pelo casal ou pela entidade familiar. Na alienação fiduciária, a discussão é diferente, porque o devedor não é penhorado: ele já transferiu a propriedade ao credor, em garantia, e a retomada é a consolidação dessa propriedade. Casos em que o devedor alega que o imóvel é bem de família precisam ser examinados por advogado, à luz do contrato e da jurisprudência atual.
O que o atraso significa na alienação fiduciária
A alienação fiduciária tornou o crédito imobiliário mais barato e mais longo no Brasil porque dá ao credor uma garantia rápida de executar. Para quem financia, a consequência prática é saber que o atraso tem prazos curtos: 15 dias para pagar depois da intimação, consolidação no cartório e leilão em até 60 dias. Ler o contrato, conferir o valor do imóvel fixado para leilão, manter os dados de contato atualizados e agir no primeiro atraso são as melhores proteções. Depois da quitação, não esqueça de levar o termo ao cartório para cancelar a garantia na matrícula.
O valor do imóvel escrito no contrato define o piso do primeiro leilão e o que pode sobrar para o devedor. Para conferir se esse número acompanha o mercado, seja ao contratar o crédito, seja para renegociar, a Valen Brasil calcula o valor de mercado em laudo técnico, para proprietários em Balneário Camboriú, Itajaí, Blumenau e vizinhança.
Perguntas frequentes
O que é um veículo com alienação fiduciária?
É o veículo financiado cuja propriedade fiduciária está com o banco até a quitação. O contrato é registrado no órgão de trânsito do estado e anotado no documento do veículo (Código de Trânsito Brasileiro, art. 129-B; Código Civil, art. 1.361, § 1º). Se as parcelas atrasarem, o banco pode pedir a busca e apreensão.
O que acontece se eu não conseguir pagar o financiamento do imóvel?
Você recebe intimação do cartório com prazo de 15 dias para pôr as parcelas em dia. Se não pagar, o banco passa a ser dono pleno e leva o imóvel a leilão, em até duas tentativas. Se sobrar dinheiro, ele é devolvido a você. Procure o banco antes da intimação para renegociar.
Posso vender um imóvel que está alienado fiduciariamente?
Sim. O mais comum é quitar o saldo com o dinheiro da venda. Também é possível transferir o contrato ao comprador, com anuência expressa do banco (Lei 9.514/1997, art. 29).
Como transferir o financiamento para outra pessoa?
O comprador precisa ser aprovado pelo banco, que dá a anuência por escrito; o novo devedor assume as obrigações e o contrato é averbado na matrícula. Sem a anuência, a transferência não vale contra o banco.
A alienação fiduciária pode ser usada para bens móveis?
Sim. Carros, máquinas e outros bens móveis infungíveis podem ser dados em alienação fiduciária, com registro no Registro de Títulos e Documentos ou, no caso de veículos, no órgão de trânsito.
Quanto tempo o banco tem para dar a quitação?
Trinta dias depois do pagamento da última parcela. Se atrasar, paga multa de 0,5% ao mês sobre o valor do contrato (Lei 9.514/1997, art. 25, §§ 1º e 1º-A). Com o termo de quitação, peça ao cartório o cancelamento da alienação fiduciária na matrícula.
Quer saber o valor do seu imóvel?
Laudo de avaliação a partir de 3 dias úteis.



