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Arquitetura

Santiago Calatrava: biografia, obras e críticas do arquiteto

Editora Valen •
Colagem com retrato em preto e branco de Santiago Calatrava sobre foto colorida da Cidade das Artes e das Ciências, em Valência
Santiago Calatrava diante de uma de suas obras mais conhecidas, a Cidade das Artes e das Ciências, em Valência (colagem)

Santiago Calatrava, arquiteto e engenheiro espanhol: formação, escritórios, Museu do Amanhã, Oculus, Turning Torso, prêmios e as críticas às obras.

Santiago Calatrava Valls é arquiteto, engenheiro civil, escultor e pintor espanhol, nascido em Valência em julho de 1951. Formado em arquitetura em Valência e em engenharia civil em Zurique, ficou conhecido por pontes, estações e museus em que a estrutura é a própria forma do edifício: costelas brancas de concreto e aço, arcos inclinados, coberturas que se abrem e se fecham. Entre as obras mais citadas estão o conjunto valenciano da Cidade das Artes e das Ciências, o Turning Torso, em Malmö, o Oculus, em Nova York, e o carioca Museu do Amanhã. A mesma trajetória reúne prêmios importantes e uma série de disputas por atrasos, custos e manutenção, que também fazem parte da biografia.

Pontos principais

  • Nasceu em Valência em 1951; formou-se arquiteto em Valência (1974) e engenheiro civil pela ETH de Zurique (1979), onde também obteve o doutorado (1981).
  • Abriu o primeiro escritório em Zurique em 1981; depois vieram Paris (1989), Valência (1991) e Nova York (2004).
  • Recebeu, entre outros, a Medalha de Ouro da Institution of Structural Engineers (1992), o Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes (1999) e a Medalha de Ouro do AIA (2005).
  • No Brasil, projetou o Museu do Amanhã, inaugurado em dezembro de 2015 no Píer Mauá.
  • Obras como a ponte da Constituição, em Veneza, o Palau de les Arts, em Valência, e o Oculus, em Nova York, tiveram problemas de custo, prazo ou manutenção documentados.

Quem é Santiago Calatrava

O site do escritório registra o nascimento em Valência, em 29 de julho de 1951; outras bases, como a Wikidata, trazem 28 de julho. A cronologia publicada pela Universitat Politècnica de València (UPV) localiza o nascimento em Benimàmet, hoje bairro de Valência. Ainda adolescente, frequentou a Escola de Artes e Ofícios e estudou belas-artes em Valência, antes de entrar na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Valência. Segundo a biografia oficial, formou-se arquiteto em 1974, fez em seguida uma pós-graduação em urbanismo e, em 1979, graduou-se engenheiro civil pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH). De uma geração mais nova, também formado pela Universitat Politècnica de València, é o arquiteto Fran Silvestre, conhecido pelas casas brancas do minimalismo mediterrâneo.

O doutorado em ciências técnicas veio em 1981, pelo Departamento de Arquitetura da ETH, com a tese sobre a dobrabilidade de estruturas espaciais (em espanhol, "Acerca de la plegabilidad de las estructuras"). O tema, estruturas que se dobram e se movem, reaparece em muitas obras posteriores. No mesmo ano, trabalhou como assistente na ETH e abriu em Zurique o primeiro escritório de arquitetura e engenharia. Em 27 de setembro de 1993, foi investido doutor honoris causa pela Universitat Politècnica de València.

Santiago Calatrava sentado ao lado de uma grande maquete branca de estrutura em forma de asas
Calatrava ao lado de uma maquete: muitos projetos do escritório começam em esboços e modelos físicos

A dupla formação explica boa parte do trabalho. Calatrava calcula e desenha ao mesmo tempo, e a estrutura não é escondida atrás de fachadas: ela é o que se vê. Ele também pinta e esculpe, e várias obras nasceram de esculturas próprias, como o Turning Torso. O Milwaukee Art Museum resume a trajetória inicial assim: depois de formado, trabalhou como engenheiro e passou a disputar concursos de arquitetura como caminho para conseguir encomendas; a primeira proposta vencedora, em 1983, foi a da estação ferroviária de Stadelhofen, em Zurique. Pontes na Espanha, como a Bach de Roda, em Barcelona (1985–1987), e a do Alamillo, em Sevilha, feita para a Expo 92, ajudaram a firmar a reputação internacional.

Os escritórios

Depois de Zurique, a biografia oficial registra a abertura de um segundo escritório em Paris, em 1989, de um terceiro em Valência, em 1991, e do escritório de Nova York, em 2004. As equipes reúnem arquitetos, engenheiros e modeladores, e o processo costuma passar por esboços, esculturas e maquetes físicas antes dos modelos digitais, com testes de forma, resistência e movimento. Esse arranjo permite tocar ao mesmo tempo projetos de escalas muito diferentes, de passarelas a estações e torres.

A arquitetura de Calatrava

Críticos e guias de viagem costumam descrever a obra de Calatrava pela combinação de complexidade estrutural e referência a formas naturais: esqueletos, asas, costelas, olhos que se abrem. Articulações, cabos, rótulas e mastros inclinados deixam visível o caminho das forças, e em alguns edifícios partes da estrutura se movem de verdade. A comparação com Antoni Gaudí aparece com frequência, pelo gosto por formas orgânicas e pela relação entre construção e escultura. Outras leituras falam em "neoestruturalismo" ou incluem a obra na chamada "arquitetura espetáculo", termo usado tanto como elogio quanto como crítica. Gaudí, lembrado nessa comparação, foi o grande nome do Modernismo catalão, a versão local do Art Nouveau.

Palau de les Arts e Hemisfèric, na Cidade das Artes e das Ciências de Valência, refletidos no espelho d'água sob céu azul
Palau de les Arts e Hemisfèric, obras de Calatrava no antigo leito do rio Túria, em Valência

Há também leituras críticas. O próprio Milwaukee Art Museum, dono de uma das obras mais conhecidas do arquiteto, observa em seu site que o propósito dos contornos dramáticos costuma ser mais estético do que estrutural. Esse debate, entre a estrutura que expressa as forças e a forma que imita uma estrutura, acompanha a carreira.

Os materiais predominantes são o concreto branco, o aço e o vidro. A cor branca virou quase uma assinatura e tem consequência prática: exige manutenção constante para não perder o efeito, algo que pesa no custo de vida útil dessas obras.

Quando o movimento sai do desenho

O brise-soleil do Milwaukee Art Museum mostra essa mecânica em números. Segundo o museu, são 72 aletas de aço, com 8 a 32 metros cada, que somam cerca de 66 metros de envergadura sobre o pavilhão Quadracci e pesam 90 toneladas. As "asas" levam três minutos e meio para abrir ou fechar. Sensores acompanham a velocidade e a direção do vento e fecham a estrutura automaticamente quando as rajadas passam de cerca de 37 km/h por mais de três segundos.

Concluído em 2001, o pavilhão foi o primeiro projeto de Calatrava nos Estados Unidos. O salão de recepção, Windhover Hall, é a interpretação do arquiteto para uma catedral gótica, com arcos ogivais, abóbadas nervuradas e cobertura de vidro de cerca de 27 metros de altura, voltada para o lago Michigan.

Calatrava no Brasil: o Museu do Amanhã

O Museu do Amanhã ocupa o Píer Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, e faz parte da revitalização do Porto Maravilha. Foi inaugurado em dezembro de 2015; segundo o escritório, recebeu mais de 25.400 visitantes no primeiro fim de semana. Ao completar dez anos, em dezembro de 2025, somava mais de 8 milhões de visitantes, segundo a prefeitura do Rio, que também registra que o arquiteto diz ter se inspirado em bromélias.

Museu do Amanhã ao entardecer, com a grande cobertura em balanço iluminada por baixo e palmeiras ao fundo
Museu do Amanhã, no Píer Mauá: a cobertura em balanço se estende por quase todo o comprimento do píer

Alguns dados do projeto, segundo o escritório:

  • o edifício tem cerca de 12.600 m² de área total, com aproximadamente 5.000 m² de exposições;
  • a altura foi limitada a 18 metros acima do nível do píer, para respeitar a paisagem do Mosteiro de São Bento;
  • a cobertura em balanço e a fachada se estendem por quase todo o comprimento do píer, destacando o avanço sobre a Baía de Guanabara;
  • a cobertura tem grandes "asas" móveis com painéis fotovoltaicos, que se ajustam ao ângulo do sol;
  • a água da baía é usada na climatização e depois devolvida pela ponta do píer, passando por um espelho d'água que dá a impressão de que o museu flutua.

Em 2017, o museu recebeu o prêmio MIPIM de edifício verde mais inovador, segundo a lista de prêmios do escritório. Para quem se interessa por arquitetura sustentável, o Museu do Amanhã é um exemplo de como recursos do próprio local (sol e água do mar) entram no desenho do edifício.

Obras que fixaram a assinatura

Valência: Cidade das Artes e das Ciências

Em Valência, a Cidade das Artes e das Ciências se estende por quase dois quilômetros do antigo leito do rio Túria, onde hoje fica o Jardim do Túria. Calatrava projetou o Hemisfèric (cinema e planetário, aberto em 1998), o Museu das Ciências, o Umbracle, o Palau de les Arts e a Àgora; o Oceanogràfic tem coberturas projetadas por Félix Candela. Os edifícios se assentam sobre lagos que devolvem a imagem deles ao anoitecer. Aberturas, usos e críticas do complexo têm um post próprio: Cidade das Artes e das Ciências.

Malmö: Turning Torso

Em Malmö, na Suécia, o Turning Torso foi concluído em 2005 a partir de uma escultura do próprio Calatrava, uma peça de mármore branco que lembra um corpo humano em torção. A torre residencial tem 190 metros de altura, nove cubos empilhados, 54 andares e um giro de 90 graus da base ao topo. Em 2019, o conselho internacional de edifícios altos (CTBUH) a incluiu entre os 50 edifícios altos mais influentes dos 50 anos anteriores. Outro nome associado a torres de estrutura expressiva é o britânico Norman Foster, autor do 30 St Mary Axe, em Londres.

Nova York: o Oculus

Em Nova York, o Oculus é o centro de transportes do World Trade Center. Segundo a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, reúne 12 linhas de metrô e a estação do trem PATH e atende mais de um milhão de pessoas por semana. A orientação da estrutura acompanha o ângulo do sol em cada 11 de setembro, das 8h46, quando o primeiro avião atingiu as torres, às 10h28, quando a segunda torre desabou.

Oculus, centro de transportes do World Trade Center em Nova York, com as costelas brancas abertas como asas entre prédios altos
O Oculus, no World Trade Center: a orientação da estrutura acompanha o sol na manhã de 11 de setembro

Críticas: custos, prazos e manutenção

A carreira de Calatrava também acumula disputas. Três casos bem documentados:

  • Ponte da Constituição, Veneza. Em 2019, a Corte dei Conti condenou o arquiteto, em segunda instância, a ressarcir 78 mil euros ao município pelo aumento dos custos da obra, atribuído a falhas de projeto, segundo reportagem do Il Post. Em 2015, a primeira instância o havia absolvido.
  • Palau de les Arts. O revestimento de trencadís (mosaico cerâmico) da cobertura se desprendeu e precisou ser retirado. Em setembro de 2014, a empresa pública que administra o complexo fechou acordo com Calatrava e com as construtoras Acciona e Dragados: o escritório e as construtoras pagariam o novo revestimento, os trabalhos anteriores e a indenização ao teatro, com garantia de dez anos, segundo o Valencia Noticias.
  • Oculus, Nova York. Previsto para 2009 e estimado inicialmente em US$ 2,2 bilhões, o centro de transportes abriu em 2016 com custo próximo de US$ 4 bilhões, segundo a Architectural Record. A revista registra que as asas móveis previstas nos primeiros esquemas foram cortadas; ficou apenas a claraboia que se abre.

Nem todo atraso ou estouro é responsabilidade exclusiva do arquiteto. Clientes públicos, mudanças de programa e obras simultâneas no entorno, como no caso do World Trade Center, também pesam. Mas o padrão de obras caras de construir e de manter entrou definitivamente na discussão sobre o legado dele.

Prêmios e reconhecimentos

Alguns prêmios de Santiago Calatrava
AnoPrêmioFonte
1992Medalha de Ouro da Institution of Structural Engineers (Londres)Cronologia da UPV
1999Prêmio Príncipe de Astúrias das ArtesFundação Princesa de Astúrias
2005Medalha de Ouro do American Institute of Architects (AIA)Arquitectura Viva
2005Lista Time 100Biografia oficial
2019Turning Torso entre os 50 edifícios altos mais influentes dos últimos 50 anos (CTBUH)Prêmios do escritório
2024Lynn S. Beedle Lifetime Achievement Award (CTBUH)Prêmios do escritório

A Medalha de Ouro do AIA de 2005, a maior honraria do instituto americano, veio num período em que Calatrava ampliava a atuação nos Estados Unidos, onde abriu escritório em 2004. O Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes de 1999 destacou a interpretação original do volume e o uso de novos materiais e tecnologias em pontes e outras construções. A lista completa está na página de prêmios do escritório.

Legado para a construção civil

Calatrava ajudou a mostrar que obras de infraestrutura, como pontes e estações, podem ser pensadas como arquitetura, e não apenas como engenharia funcional. Estações como Stadelhofen, em Zurique, a do aeroporto de Lyon-Satolas e a de alta velocidade de Liège, além de pontes em várias cidades europeias levaram para o transporte público um cuidado formal antes reservado a museus e teatros. Ao mesmo tempo, a carreira virou referência nas discussões sobre o custo de obras-ícone, a manutenção de estruturas expostas e a responsabilidade do projetista por falhas de detalhe.

Mosaico com oito obras de Calatrava, entre elas o interior do Oculus, o Turning Torso, o Milwaukee Art Museum e o Museu do Amanhã
Algumas obras de Calatrava: estruturas brancas, costelas e arcos inclinados se repetem em pontes, estações e museus

Para quem projeta, constrói ou investe, fica uma lição prática: a forma mais ousada precisa vir acompanhada de detalhamento, orçamento e plano de manutenção à altura. É isso que separa a obra que envelhece bem da que vira passivo para o proprietário.

Quando a estrutura é o próprio desenho

Santiago Calatrava é um dos poucos profissionais da sua geração com formação completa em arquitetura e em engenharia, e isso aparece em cada obra: a estrutura é o próprio desenho. Da estação de Stadelhofen ao Museu do Amanhã, a carreira reúne pontes, estações, torres e museus reconhecidos no mundo inteiro, prêmios de peso e também disputas sobre custos e manutenção que ajudam a entender os limites da arquitetura-ícone.

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Perguntas frequentes

Quem é Santiago Calatrava?

Arquiteto, engenheiro civil, escultor e pintor espanhol, nascido em Valência em 1951. Formou-se arquiteto em Valência e engenheiro civil em Zurique, e é conhecido por pontes, estações e museus com estrutura aparente e formas inspiradas na natureza.

Qual obra de Calatrava existe no Brasil?

O Museu do Amanhã, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, inaugurado em dezembro de 2015.

Quais são as obras mais famosas de Calatrava?

Entre as mais citadas estão a Cidade das Artes e das Ciências (Valência), o Turning Torso (Malmö), o Oculus (Nova York), o pavilhão Quadracci do Milwaukee Art Museum, a estação de Stadelhofen (Zurique) e o Museu do Amanhã (Rio de Janeiro).

Calatrava ganhou o Prêmio Pritzker?

Não. Entre os principais prêmios dele estão a Medalha de Ouro do AIA (2005), o Prêmio Príncipe de Astúrias das Artes (1999) e a Medalha de Ouro da Institution of Structural Engineers (1992). Veja quem já recebeu o Prêmio Pritzker de Arquitetura.

Por que Calatrava é criticado?

Por atrasos, estouros de orçamento e problemas de manutenção em algumas obras, como a ponte da Constituição, em Veneza, o revestimento do Palau de les Arts, em Valência, e o custo do Oculus, em Nova York.

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