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Arquitetura

Igrejas contemporâneas: 8 projetos de arquitetura para conhecer

Editora Valen •
Igreja de concreto cinza com volumes inclinados e uma grande cruz ao lado, sobre um campo gramado
Igreja de Blönduós, na Islândia. Foto de Job Savelsberg / Unsplash.

O que define as igrejas contemporâneas, de onde vem a liberdade de forma depois do Vaticano II e oito projetos recentes no México, Alemanha, Noruega, África do Sul, Brasil, Taiwan, Portugal e Japão.

Igrejas contemporâneas são templos projetados a partir do fim do século XX com linguagem arquitetônica atual: formas livres, materiais aparentes, luz natural como protagonista e espaços que servem tanto ao culto quanto à comunidade. Este texto explica de onde vem essa liberdade de forma e apresenta oito projetos recentes, do México a Taiwan, passando por Brasília. A evolução das igrejas desde a basílica romana até o modernismo está no guia sobre arquitetura e igreja.

Pontos principais

  • No Concílio Vaticano II, a Igreja Católica afirmou que nenhum estilo artístico é exclusivamente seu, e isso deu liberdade à arquitetura do nosso tempo.
  • Os projetos contemporâneos exploram concreto, tijolo, madeira e cerâmica em formas pouco convencionais.
  • A luz natural, filtrada por claraboias, rasgos e vitrais, é usada para criar a atmosfera do espaço sagrado.
  • Muitas igrejas novas reúnem culto, assistência social e atividades comunitárias no mesmo edifício.
  • No Brasil, templos abertos ao público precisam cumprir as regras de acessibilidade da Lei Brasileira de Inclusão.

O que caracteriza uma igreja contemporânea

A primeira marca é a experimentação com formas e materiais. Os arquitetos deixam de lado a planta e a fachada tradicionais e trabalham com geometrias próprias, estruturas aparentes e materiais que mostram a técnica de construção, como o concreto moldado no local ou o tijolo aparente. A capela de Bernardes Arquitetura no Joá, no Rio de Janeiro, é um exemplo brasileiro dessa pesquisa.

Interior de pequena capela revestida de ripas de madeira, com bancos de madeira e vista para a mata
Capela no Joá, no Rio de Janeiro, projeto de Bernardes Arquitetura: madeira e mata ao redor.

A segunda é a flexibilidade. Muitas igrejas são pensadas como espaços versáteis, que recebem, além das celebrações, encontros comunitários, concertos, exposições e atividades educativas. Espaço aberto ao público traz obrigação legal: pelo artigo 56 do Estatuto da Pessoa com Deficiência, todo edifício aberto ao público precisa ser acessível sempre que for erguido, reformado, ampliado ou tiver o uso alterado, e o § 2º amarra a esse cumprimento a licença e o certificado de conclusão da obra.

A terceira é a relação com o ambiente. Além das escolhas de projeto que reduzem o impacto ambiental, a luz natural e a paisagem externa entram no espaço de oração como parte da experiência espiritual. Na doutrina católica, o tema ganhou texto próprio em 24 de maio de 2015, com a encíclica Laudato Si', sobre o cuidado da casa comum.

Onde começa a liberdade de forma

A mudança tem data e documento. A constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, promulgada em 4 de dezembro de 1963, afirma que a Igreja nunca considerou nenhum estilo artístico como seu e pede que a arte do nosso tempo tenha liberdade, desde que sirva com respeito aos edifícios e ritos sagrados. O artigo seguinte pede que as novas igrejas sejam adequadas à celebração litúrgica e favoreçam a participação ativa dos fiéis. Na prática, isso aproximou o altar da assembleia e estimulou plantas mais compactas, circulares ou em leque.

O repertório moderno já tinha chegado às igrejas antes disso e hoje é patrimônio reconhecido. A igreja de São Francisco de Assis, desenhada por Oscar Niemeyer para a Pampulha, em Belo Horizonte, faz parte do Conjunto Moderno da Pampulha, inscrito pela UNESCO em 2016. A Igreja de Atlántida, no Uruguai, inaugurada em 1960, com paredes e cobertura onduladas em abóbadas de tijolo armado do engenheiro Eladio Dieste, foi inscrita em 2021. O gosto pelas formas ousadas vem de longe: o Barroco também quis surpreender o fiel com curvas e luz.

8 igrejas contemporâneas para conhecer

Santuário do Senhor de Tula, México

O terremoto de 19 de setembro de 2017, de magnitude 7,1, registrado pelo Serviço Sismológico Nacional do México como sismo de Puebla-Morelos, danificou o antigo santuário de Jojutla, no estado de Morelos, e destruiu milhares de casas na cidade. A reconstrução, concluída em 2020, reuniu o escritório colombiano AGENdA Agencia de Arquitectura e a equipe mexicana Dellekamp/Schleich, num projeto que é ao mesmo tempo igreja e espaço público.

Grande arco de concreto aberto para uma praça com pessoas e árvores, ao lado de uma torre alta de concreto
Santuário do Senhor de Tula, em Jojutla, reconstruído depois do terremoto de 2017.

Uma grande cobertura de abóbadas de tijolo se apoia numa estrutura de concreto com arcos nos cantos, que deixa o templo aberto para os lados. O altar fica sobre um piso em degraus, junto a uma parede curva de concreto, e um sino da igreja antiga foi pendurado do lado de fora, como memória do lugar.

Igreja Seliger Pater Rupert Mayer, Alemanha

Em Poing, perto de Munique, o escritório Meck Architekten concluiu em 2018 o centro paroquial dedicado ao beato Rupert Mayer, consagrado em junho daquele ano.

Igreja de volumes angulosos revestidos de peças cerâmicas brancas, com uma torre baixa separada, ao entardecer
Centro paroquial Seliger Pater Rupert Mayer, em Poing, na Alemanha.

O edifício nasce de uma base maciça de nagelfluh, um conglomerado de pedra típico da região. Sobre ela, o telhado de inclinação acentuada é revestido por cerca de 15 mil peças cerâmicas brancas e tridimensionais, que refletem a luz de modos diferentes ao longo do dia e dão ao volume um aspecto cristalino. Por dentro, a cobertura se apoia numa cruz de vigas de aço, visível no teto. Em vez de uma torre sineira convencional, um dos cantos do telhado sobe mais que os outros e recebe a cruz.

Igreja de Våler, Noruega

Em 2009, um incêndio destruiu a igreja de madeira do século XIX da aldeia de Våler. A comunidade escolheu por concurso internacional o projeto do arquiteto Espen Surnevik para a nova igreja, também de madeira.

Igreja de madeira com telhados piramidais altos e claraboias no topo, em meio a árvores
Våler Kirke, na Noruega, projeto de Espen Surnevik.

Por fora, o edifício é revestido com tábuas de pinho, madeira tradicional na construção local; por dentro, o compensado claro de bétula reforça a sensação de leveza sob os tetos altos. Os telhados piramidais terminam em claraboias que levam luz aos principais espaços de culto e fazem referência à igreja perdida, cuja marca no terreno foi preservada como memorial no cemitério ao lado. O tema da ressurreição orienta o projeto.

Capela Bosjes, África do Sul

Concluída em dezembro de 2016 no vale de Witzenberg, na propriedade rural de Bosjes, a capela do Steyn Studio tem uma cobertura de concreto fina e ondulada, com cerca de 20 metros de comprimento, 12 de largura e 6 de altura no ponto mais alto.

Capela com cobertura branca ondulada apoiada sobre paredes de vidro, diante de montanhas e de um espelho d'água
Capela Bosjes, no vale de Witzenberg, na África do Sul.

As ondas do telhado lembram o perfil das montanhas ao redor e as empenas das casas tradicionais do Cabo. A cobertura parece flutuar sobre as paredes de vidro, que deixam a paisagem entrar no espaço de oração. No interior, poucos materiais e linhas simples mantêm a atenção na luz e na vista.

Paróquia Sagrada Família, Brasil

Concluída em 2022, a Paróquia Sagrada Família fica no Park Way, em Brasília, às margens da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (EPIA). O entorno faz parte da capital planejada por Lucio Costa, inscrita na Lista do Patrimônio Mundial em 1987.

Torre sineira de concreto branco com uma cruz no alto e, ao fundo, a nave circular baixa num gramado amplo
Paróquia Sagrada Família, em Brasília: a torre sineira e a nave circular no horizonte.

O projeto é dos arquitetos André Velloso e Eder Alencar, do ARQBR Arquitetura e Urbanismo, com a colaboração da arquiteta Luciana Saboia, da Universidade de Brasília. A equipe quis explorar a relação entre espiritualidade, natureza e comunidade.

Interior circular com parede revestida de madeira, bancos baixos e luz entrando por um anel na cobertura
Interior da nave da Paróquia Sagrada Família, iluminado pelo anel da cobertura.

O conjunto é formado por volumes monolíticos de concreto: a nave circular, a casa paroquial retangular e uma torre sineira simples. Uma abertura baixa na nave deixa ver a paisagem, e a luz natural entra por um anel circular na cobertura. Os edifícios baixos dialogam com o horizonte amplo do Planalto Central. O projeto recebeu prêmios internacionais, entre eles o MCHAP de prática emergente, em 2024.

Igreja Tamkang, Taiwan

No distrito de Tamsui, em Nova Taipei, a Igreja Tamkang, do escritório alemão Behet Bondzio Lin Architekten, reúne igreja e centro de assistência social numa torre de concreto de 11 andares, construída entre 2017 e 2021.

Torre de concreto com janelas em arranjo irregular e cobertura assimétrica que termina em ponta com uma cruz
Igreja Tamkang, em Nova Taipei, Taiwan.

Para aproveitar o terreno pequeno, os arquitetos empilharam os espaços de culto, auditórios, salas de aula e áreas de assistência, ligados por escadas e elevadores num canto da torre. Mais da metade da área é destinada ao centro social. A fachada tem janelas em arranjo irregular, e a cobertura assimétrica sobe até uma ponta marcada pela cruz. O concreto aparente também domina o interior.

Igreja de Lagares, Portugal

Em Felgueiras, no norte de Portugal, a igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lagares, do escritório FCC Arquitectura, dirigido por Fernando Coelho e Ana Loureiro, foi inaugurada em maio de 2019, depois de uma obra iniciada em 2005. No mesmo país, uma das igrejas mais estudadas é a de Santa Maria (1990–1996), a igreja de Álvaro Siza em Marco de Canaveses.

Igreja de paredes curvas brancas no alto de uma escadaria, sob céu azul
Igreja de Lagares, em Felgueiras, Portugal.

A planta se inspira em dois símbolos cristãos: a gota d'água, ligada ao batismo, e o peixe, símbolo de Cristo. Duas paredes curvas conduzem os fiéis da entrada até o batistério, o sacrário e o altar. O exterior é revestido de granito e o interior, de mármore. A igreja tem lugar para cerca de 400 pessoas sentadas.

Igreja da Luz, Japão

Tadao Ando concluiu a Igreja da Luz em Ibaraki, perto de Osaka, em 1989, um ano depois da Igreja sobre a Água, em Tomamu. O material é o concreto armado, e a luz é o principal instrumento: uma cruz recortada na parede de concreto do altar deixa a luz do dia entrar num espaço quase todo fechado. Ando recebeu o Prêmio Pritzker em 1995. O despojamento de Ando, com poucos materiais e muita luz, é uma das referências do minimalismo japonês.

O que esses projetos ensinam

Apesar das diferenças de país, orçamento e religião, os oito projetos têm pontos em comum:

  • Material verdadeiro: concreto, tijolo, madeira e cerâmica aparecem sem disfarce, e a técnica de construção faz parte da expressão.
  • Luz como tema: claraboias, anéis de luz, rasgos e vitrais substituem a decoração.
  • Memória do lugar: em Jojutla e em Våler, a nova igreja guarda sinais da antiga, destruída por desastres.
  • Uso comunitário: em Tamkang, o centro social ocupa mais da metade do edifício; em Tula, o templo se abre para a praça.
  • Relação com a paisagem: em Bosjes e em Brasília, a arquitetura se apoia no horizonte e nas montanhas.

Perguntas frequentes

O que é uma igreja contemporânea?

É um templo projetado com a linguagem arquitetônica atual, sem copiar estilos históricos, em geral com formas livres, materiais aparentes e uso intenso da luz natural.

Por que as igrejas modernas não seguem um estilo único?

Porque o Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja não tem um estilo próprio e pediu liberdade para a arte do nosso tempo, desde que adequada à liturgia.

Qual igreja contemporânea brasileira é mais premiada?

A Paróquia Sagrada Família, em Brasília, do ARQBR, concluída em 2022, recebeu vários prêmios internacionais, entre eles o MCHAP de prática emergente, em 2024.

Igrejas precisam cumprir normas de acessibilidade?

Sim. Pela Lei Brasileira de Inclusão, edificações abertas ao público, como templos, devem ser acessíveis na construção, na reforma e na mudança de uso, e o alvará e o certificado de conclusão dependem disso.

Tradição e inovação nas igrejas de hoje

A arquitetura das igrejas contemporâneas mostra como tradição e inovação podem conviver: o programa religioso continua o mesmo, mas a forma, os materiais e a relação com a cidade mudam com o tempo e o lugar. Os projetos de Jojutla, Poing, Våler, Bosjes, Brasília, Nova Taipei, Felgueiras e Ibaraki mostram soluções diferentes para a mesma pergunta: como criar um espaço de encontro e de silêncio. Para quem administra imóveis de uso religioso ou institucional e precisa conhecer seu valor de mercado, a Valen Brasil faz avaliações imobiliárias que consideram as particularidades desses edifícios.

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